quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Prolongamento

E prolongavam-se os lençóis como mar matutino, na calmaria interrompida quando em vez por marolas tímidas, o dia começara, sua luz intensa – mas eles resistiam, mantinham as cortinas fechadas, prolongando no quarto a madrugada, prolongando nos corpos deitados e nus um olhar demorado. Os cabelos dela envolviam os seios em espirais e ondas que se engoliam e, com o olhar perdido em tantas curvas, ele afundou o rosto naqueles desenhos tão sem começo nem fim quanto seus pensamentos, ela enlaçou seu corpo com as pernas e logo eles se moviam com os olhos fechados – a noite voltara, nada além do ruído da respiração e das ondas agitadas.
Depois da noite, nova madrugada – os lábios rosáceos entreabertos como a aurora, os corpos novamente boiavam na superfície da cama. O dia começara, seu apelo produtivo, podiam pressentir a multidão de trabalhadores pelas ruas. Mas eles resistiam em sua permanência marítima, como uma ressaca sem tempestade em que o mar tomaria tudo sem desordem em um abraço líquido – prazer que escorre no vagar da pele, dos cabelos aos dedos. 
Há quanto resistiam aos apelos do dia? Há quantas horas prolongavam noites e madrugadas abortando os dias, resistindo a qualquer apelo que não fosse o próprio ou alheio corpo? Não sabiam mais, governados apenas pelo sono, pela fome, pelo desejo. Mas o dia começara, ouviam o som dos carros apressados pela avenida e de repente o mar voltara a seus limites quando ela perguntou:
- Que horas são?
Então ele a mirou com os olhos espantados, como se aquela pergunta viesse de um mundo distante no qual ele não cabia mais.
- Isso não importa, não é? – ele disse ternamente, enlaçando seu corpo, com medo que ele fugisse. – Vamos jogar fora todos os relógios? Vamos? Podemos atirar pela janela todos os relógios, as agendas e os calendários...
Ela sorriu, seu corpo se desprendeu de seus braços e, sem nada dizer, encaminhou-se para a janela. E abriu-a, inadvertidamente, na esperança de atirar fora o tempo.
Mas foi a manhã, seus afazeres, compromissos, urgências e apressados minutos que invadiram o quarto. 

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