quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Abotoando as ideias

Gosto de reler livros que considero clássicos. Eu costumo dizer que um clássico é um livro sempre novo na estante - sempre que a gente relê, descobre algo que não tinha percebido na primeira leitura. E hoje foi assim, com a releitura de Angélica, de Lygia Bojunga Nunes.
Primeiro preciso sim reafirmar (gostaria de não precisar, mas...) que Angélica é um clássico, embora sei que algumas pessoas não consideram que livros escritos para crianças mereçam essa honra. E, para mim, ele não é um clássico da literatura infantil, é um clássico da literatura brasileira, que eu indico para crianças de 8 a 80 anos. E isso não é para qualquer livro, não!
Bem, vou contar um pouco da história para vocês ficarem com aquela vontade de ler e irem correndo no site da Fundação Casa Lygia Bojunga (http://www.casalygiabojunga.com.br/pt/afundacao.html) comprar o livro e ainda ajudar essa instituição que tem lindos projetos com crianças carentes, no Rio de Janeiro. A história começa com um dos personagens, Porco, perguntando como é que a gente entra na vida! Ele acha uma porta e entra na vida com tudo, achando tudo lindo, até que dizem que ele tem que ir para a escola. Ele chega entusiasmado, mas lá encontra colegas cruéis que debocham dele e o humilham, por ele ser Porco. Então ele pede ajuda da Noite, para que ela fique bem escura, para que ninguém descubra o que ele vai fazer: encontrar o livro onde está o nome de todo mundo que entrou na vida e alterar seu nome. Ele troca o "c" por "t" e passa a se chamar Porto, e cria um disfarce para esconder sua aparência de Porco. (Um parêntesis, literalmente: isso de trocar de nome - que, na verdade, simboliza a identidade - é realmente uma coisa muito profunda!)


Minha edição de Angélica, de 1983, comprada em um sebo por R$ 1 há mais de 10 anos... Além de ter pertencido ao Eduardo, da 4ª serie da tarde, na folha de rosto está escrito "pertence à Katiane Santos".


E não é que Porto conhece Angélica, uma cegonha que tinha ido embora do seu país e deixado sua família justamente porque se recusava a fingir ser alguém que ela não era? Será que eles vão se dar bem? Será que ele vai contar tudo para ela? Siiiiiim: os dois se gostam muito e um dia Porto dá de presente para Angélica uma ideia: fazer uma peça de teatro para contar sua história para todo mundo. Nesse processo de escrever, montar e apresentar a peça, eles e outros personagens vão se deparar com suas histórias, preconceitos, limites e superações.
Sinceramente, o meu resumo é pobre perto da história e da delícia que é ler esse livro: a linguagem com que Lygia Bojunga escreve é fluida, coloquial, com toques de humor e muita sensibilidade. E trata de temas complexos, como o preconceito, o bullying, o machismo, e a busca da própria identidade e autoestima com muita leveza. Uma das metáforas mais lindas do livro é Angélica trazer um botão na testa, presente de despedida que a família lhe dá para abotoar as ideias. Seu avô lhe diz que "pra gente abotoar as ideias bem abotoadas a gente tem que ter coragem e deixar de fingir o que não é".
Nessa tarde em que a esperança parece escorrer com os grossos pingos de chuva, reler esse livro foi um presente e me fez abotoar bem uma ideia: a de que a coragem que às vezes parece me abandonar sempre volta, junto com uma das suas amigas inseparáveis: a fé.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Em defesa da polis

Um dos livros mais interessantes que li nos últimos anos foi O Senhor das moscas, de Wiliam Golding, publicado no período pós II Guerra Mundial. Eu resolvi adotá-lo como leitura obrigatória para alunos do 1º ano do ensino médio há um tempo, e tive a felicidade de descobrir no livro mais coisas do que eu previa.
Tenho dito com frequência que a literatura, especialmente a de fantasia, tem me trazido as melhores reflexões sobre essa tal de realidade (essa que com o tempo a gente aprende ser muito menos factual e racional do que a gente imagina). No livro de Golding, crianças e adolescentes postos em um avião para fugir da guerra caem em uma ilha deserta. O acidente mata todos os adultos e, sozinhos, os infantes precisam, diante da completa escassez de tudo, organizar-se e sobreviver. Há dois objetos significativos nesse enredo: uma concha, a qual, segundo um dos personagens que instaura uma assembleia, dá a quem a segura o direito à fala e à tentativa de persuasão dos demais; e uma lança, com a qual outro personagem estabelece pela força e pelo medo seu domínio sobre os demais.



Nesse momento em que presenciamos tanta privação, e que se avizinha um período em que essas privações vão se tornar piores (assim como os conflitos advindos delas), eu penso nesse romance e na sua pergunta: na disputa entre a concha e a lança, qual escolheremos? Se abandonarmos a política, resta-nos algo além da guerra? Talvez seja agora o momento de uma decisão radical pela política – não pelo que fizeram dessa palavra, associando-a a tudo de mais ignóbil e vicioso, mas por seu sentido mais essencial: o cuidado com a polis, a cidade, entendida como coletivo humano. É hora de entender que precisamos sair do individualismo e nos comprometer com o outro e com o coletivo. Isso, para mim, é a decisão radical pela política, recusando a guerra, que é o cada um por si (que também recebe, em outras instâncias, o nome de neoliberalismo).

quinta-feira, 26 de março de 2020

Aquela que morre por último


Vou começar mais uma crônica falando do outono e que tenham paciência comigo... Eu amo o outono, a estação em que as coisas mais imprevistas ocorrem na minha vida e na qual,  assim como o azul do céu, tudo se torna mais denso. Mas nesses dias não pude deixar de lembrar daquele maravilhoso título do romance de Steinbeck, O inverno da nossa desesperança – porque parece que a desesperança generalizada chegou uma estação antes, nesse ano...
Antes eu me entristeci com as imagens do vazio das ruas de Roma, agora me entristeço com o vazio das ruas das nossas cidades; e me pergunto se a comoção que me tomou quando vi imagens dos idosos morrendo sozinhos e dos enterros vazios também vai se repetir daqui a pouco, de forma mais dolorosa, quando se passarem aqui. A insegurança nos toma ao pensar na irresponsabilidade, inépcia e perfídia dos nossos governos e elites (para usar palavras elegantes, ainda que não mereçam), que falam banalmente em alguns milhares de mortos como uma conta pequena a pagar para “salvar a economia” que já estava moribunda...
Mas diante de tudo isso, desse outono que parece inverno, eu olho para a minha estante e Carlos me diz mais uma vez para eu ficar firme, pois “havemos de amanhecer”. Cecília me diz também que “a vida só é possível reinventada” – então começo a reinventar esse outono difícil, ensaiando passos de dança na sala, testando receitas; nos intervalos da escrita da tese, rabiscando alguns versos e mandando mensagens cheias de amor, porque esse isolamento está criando uma multidão de carentes...



Então começo a reinventar ainda mais pensando no final dessa quarentena – e como tenho uma imaginação muito fértil, vejo a notícia nos telejornais: gráficos mostrando a queda dos contágios, pessoas festejando ao redor do mundo, jornalistas tentando pegar depoimentos de pessoas eufóricas pulando abraçadas nas ruas...
No Brasil, como tenho dito para todos os meus amigos, as festas juninas de 2020 serão inesquecíveis, com um sabor de liberdade nunca suspeitado; dançaremos as quadrilhas mais animadas do século. E estou até fazendo uma campanha para que as pessoas ponham em prática a letra de Valsinha, do Chico Buarque: serão tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais, que o mundo amanhecerá em paz! Pensando bem, esse será o outono da nossa esperança...
Tudo bem, podem dizer que estou viajando (tem coisa melhor, gente?), que sou sonhadora demais, que vivo no mundo da poesia. Mas quanto mais as notícias desafiarem minha alegria, mais versos eu faço! Só por coragem, como diria o Guimarães Rosa...

quinta-feira, 19 de março de 2020

Trégua com o tempo


Eu aqui de novo em meus diálogos com o Tempo, um dos deuses mais lindos (não resisto, Caetano!)... E agora parece que estamos em trégua, o Tempo e eu. Nesses dias de recolhimento, de ver o mundo pelos canais da tevê aberta (que eu não assistia há meses), de conversar com pessoas queridas pela internet ou pelo telefone, sem sentir o calor delas, Tempo e eu paramos de nos provocar mutuamente. Não, ele não tem passado mais devagar, como eu supunha. Mas eu deixei de olhar o relógio. E de reclamar dele, pedindo que ele não se apressasse tanto. Estamos nos esquecendo mais vezes, deixando-nos passar sem perceber.
Ontem, conversando com um amigo, ele me disse que minhas palavras abriam um portal no espaço-tempo. Eu disse: sou eu não, moço, é a poesia que faz isso. Entre muitos versos, eu realmente tinha ignorado o Tempo. Se ele que é um dos deuses mais lindos fosse também um dos mais tiranos, teria me castigado. Mas não, me deu um presente: eu olhei o calendário e vi que hoje é o equinócio de outono. O verão está se despedindo e o outono vem de manso – eu já o tenho sentido chegar há mais de uma semana. No vento noturno mais fresco, no céu mais densamente azul, uma luz diferente que não sei explicar. Mas o verão, que também não queria ir embora, se fez calor intenso nos últimos dias, e hoje trouxe um céu de chuva para se despedir.
E eu aceno para o outono, minha estação preferida, contemplando o que fica do que passa...   

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O último dia do ano

"O último dia do ano/ Não é o último dia do tempo". Assim começa um poema de Drummond. Desejamos - no fundo, não sabemos - que não seja o último dia. Que haja mais 365 dias, novinhos, prontos para serem preenchidos, no ano que começa daqui a algumas horas. Sabemos também que nada mudará miraculosamente. Mas não resistimos a esse chamado da esperança coletiva: a de que este ano tão duro está acabando, quiçá no próximo podemos recomeçar, senão tudo, algumas coisas, e errar menos, dançar mais, dormir melhor, rir com gosto e com frequência...
Então também eu não resisto e me entrego às reflexões típicas da data. O que fiz deste 2019? Como me defendi do embrutecimento generalizado? O que posso comemorar? Olha, apesar de tudo, não foi pouco. Foi um ano de muitas lágrimas, confesso, mas houve também muitos momentos felizes. Se eu fosse descrever todos, o texto ficaria longo demais, mas resumo algumas coisas que foram realmente importantes: escrevi dois livros ficcionais (um deles já encontrou sua casa editora, em breve vocês saberão, sou péssima em guardar segredos rs), metade da minha tese e dois artigos, um deles já publicado; fiz minha primeira viagem ao Oriente e conheci o Egito; conheci muitas pessoas interessantes e fiz novos amigos; voltei para as aulas de dança e comecei a aprender a dançar tango; visitei pela primeira vez um presídio, onde fiz uma mediação de leitura; conheci novas autoras maravilhosas da literatura brasileira, como a Micheliny Verunschk, a Juliana Leite e a Aline Bei; fiz um curso de roteiro e escrevi meu primeiro roteiro; fiz um passeio de balão pela primeira vez...
Olha, olhando para esta lista resumida, acho que 2019 foi pleno de dores, mas também de aventuras! Eu tenho muito a agradecer ao Divino e a todas as pessoas que trouxeram ao meu 2019 mais abraços, mais leveza, mais poesia, mais música, mais dança, mais amor... E que venha com mais em 2020! Um ano luminoso para todos nós! E que saibamos comemorar o fato de estarmos vivos! Para terminar com palavras de Drummond, havemos de amanhecer:

"Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer".
(Carlos Drummond de Andrade, "O último dia do ano")


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Literatura, afeto e acolhimento

Quando digo que histórias têm poder, que livros transformam a vida das pessoas, muita gente acha que isso é papo de escritora e professora de literatura. Que não é assim para todo mundo, só para algumas pessoas (especiais?). Pois eu insisto que não! Toda vez que eu levo livros e histórias para os mais variados lugares, eu vejo a literatura mexendo nas memórias, sentimentos e pensamentos de qualquer um!
E foi assim segunda-feira, dia 11/11, dia da entrega dos exemplares de Janelas Abertas para as detentas participantes do Projeto Travessia, na Penitenciária Feminina da Capital (PFC) – e eu ainda estou assimilando tudo o que eu aprendi nesse encontro. Sim, é ilusão achar que nós, professores, sempre ensinamos. Ou que voluntários sempre ajudam. Às vezes somos nós os aprendizes, os ajudados.
Ao chegarmos, um primeiro aprendizado: só se entra no presídio com a roupa do corpo. Até seu documento fica lá fora. E nós, voluntários, sabíamos que dali a algumas horas, pegaríamos nossas bolsas, documentos e iríamos embora. E ainda estou pensando na sensação das detentas de deixar a vida lá fora. Os documentos. A identidade. Os sonhos. Ao som de cada porta pesada que se fecha atrás de nós sem a possibilidade de abrimos e voltarmos.
Mas um segundo aprendizado se sobrepôs ao primeiro: ainda existe vida ali dentro. Quando chegamos à sala de aula em que faríamos a mediação de leitura, algumas mulheres conversavam, outras aguardavam com olhar cansado, e a professora Vima abraçou uma a uma, e eu a segui, me apresentando individualmente a cada uma delas. Fiquei muito tocada com o afeto de toda a equipe de voluntárias com as leitoras – é assim que se referem a elas, não como infratoras, meliantes, criminosas. Ali, naquele espaço de algumas horas, somos todas leitoras, simplesmente compartilhando nossas emoções e reflexões diante de um texto.




E isso foi o mais bonito de tudo! Relatei um pouco do meu percurso, menos como “a escritora” e mais como a menina que morou nos livros nos momentos mais difíceis de sua vida, e que conseguiu sair deles e voltar para a realidade com um pouco mais de coragem para enfrentar um mundo quase sempre cruel e difícil para as mulheres. E como escrever foi minha forma de tentar compreender, de me reinventar, de existir e resistir. Li trechos do livro acompanhados com muita atenção, e depois as leitoras compartilharam suas interpretações.
Houve muito envolvimento da parte delas, e várias ficaram um pouco depois de terminada a seção de leitura para conversar comigo. Duas delas me marcaram muito. Míriam, uma angolana que contou um pouco de sua história e me disse, antes de ir embora: “Eu gosto demais – disse apontando o livro. – Depois que eu comecei a ler as histórias dos livros, eu me sinto com mais coragem para olhar para a minha própria história”. E Natalie, a última das leitoras com quem conversei antes de ir embora, que nos disse, com lágrimas nos olhos, essas palavras inesquecíveis: “Vocês não têm ideia do bem que fazem para nós. Eu digo pros meus filhos: olha só, eu tenho professoras catedráticas, de grandes universidades! E vocês vem aqui, quando ninguém liga pra nós. Vocês fazem a gente se sentir gente! O sistema joga a gente no lixo, mas vocês dão a mão e acolhem”.
Depois dessas falas, o que dizer? Não há palavras, só abraço e agradecimento por elas terem nos mostrado o que já pressentíamos: que nosso trabalho com a literatura precisa exceder as paredes das universidades, os artigos de crítica literária e os congressos, para resgatar sua dimensão mais humana, afetiva e transformadora.
Elas voltaram para suas celas, algumas para o trabalho, com um livro nas mãos. Quando falamos que os livros eram delas, que não precisariam ser devolvidos, elas ficaram muito felizes. Elas se sentiram “gente” quando eu falei que os livros não eram uma doação minha, mas de muitas pessoas, movidas por uma campanha que eu tinha feito nas redes sociais. Então esse texto também é para compartilhar com vocês essa felicidade e agradecer nominalmente a todas as pessoas que fizeram essas mulheres, “jogadas no lixo pelo sistema”, se sentirem mais humanas. Nosso muito obrigada a Lígia Paoletti, Diogo Avelino, Fabiana Tonin, Inês Fidalgo, Erika Anne, Evelise Amgarten, Talitta Silva, Martina Marana, Jussara Favretto, Jô Alvarado, Carolina Duarte, Carolina Marcondes, Cecília Sposito, Thaís Sposito Gonçalves, Natália Soave, Adriana Galvão e Mariana Content. Agradeço também àqueles que entraram em contato com intenção de fazer sua doação depois que já tínhamos atingido a meta desse ciclo, e peço a vocês que nos aguardem – ainda há muitos livros, muita leitura e vida a serem compartilhados. Contamos com vocês!

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Viagem ao redor do meu gramado

Dia desses estava em uma mesa com amigos (existe lugar melhor?), e entre vinhos e conversas, surgiu o assunto sobre viagens. Assunto corriqueiro hoje em dia, pauta aparentemente neutra (em tempos tão intolerantes) para uma conversa casual, tal qual a culinária, cortes de cabelo e esmaltes.
Mas não é que o assunto deu polêmica? É que eu falava risonhamente da minha paixão por viagens ser desproporcional ao ânimo do meu marido pelas mesmas viagens, que quando não é tão inferior ao meu, é inexistente. Perguntei a ele para onde ele queria viajar este ano: escolha qualquer lugar, eu disse, cheia de sonhos: Turquia, Islândia, China... Ele me disse: quero ficar no meu quintal, vendo a grama crescer. Uma releitura de Viagem ao redor do meu quarto, mais aberta, sem paredes?
Diante da reações de “Não acredito!”, “Eu daria tudo para receber uma proposta dessas!”, um dos meus amigos confessou que também não gostava de viajar. Que achava cansativo e chato fazer malas, enfrentar quilômetros, filas e outros contratempos. Que, no fundo, irritava-se com esse imperativo de ter que viajar nas férias. Que isso não passava de mais uma armadilha do capitalismo, a convencer as pessoas de que elas só serão felizes se viajarem, e, portanto, consumirem os enlatados do turismo. É realmente uma análise inteligente, porque viagens se tornaram também um produto que se vende como sinônimo de aventura e felicidade. Quando muitos dos enlatados do turismo não proporcionam nenhuma das duas coisas, necessariamente. E a felicidade pode estar no nosso diminuto pedaço de grama (ou de tapete, ou de sofá)...





Tudo bem, desculpa, podem ficar no seu gramado, eu disse, rindo... Eu até concordo com muitas coisas que eles disseram. Mas, no fundo, eu continuo apaixonada por viajar. Minhas malas tem um poder mágico: quando ficam paradas, começam a emitir um som baixo, que só eu percebo: suas rodas começam a girar sozinhas, me avisando que é hora de sair de novo. A imagem da estrada acompanha meus poemas e sonhos, me encantando com a possibilidade de conhecer algo novo que ficará na minha memória, mais um desenho no interessante mosaico que eu construo da vida.
Em todas as viagens que fiz (não foram muitas, mas tão importantes), houve cansaços e imprevistos. E o mais importante de tudo, houve encontros, pessoas que cruzaram meu caminho (às vezes por poucas horas, às vezes por alguns dias ou semanas) e trouxeram algum significado diferente àquelas paisagens, que deixaram de ser uma propaganda de agência de turismo ou um cartão-postal retocado para ser a minha experiência pessoal daqueles lugares. Porque a maior armadilha do capitalismo não é nos vender viagens (ou qualquer outra coisa), mas querer nos convencer de que estão nos vendendo uma experiência. E isso é algo que ninguém pode nos vender: a experiência é humana, única e irredutível a moedas, códigos de barra e cartões de crédito. E talvez por isso a viagem ao redor do próprio gramado possa ser, para alguns, melhor do que Cancun ou Paris...
     

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Pão-Poesia (II) ou Felicidade Repentina


Também a vida é feita de felicidades repentinas. Acordamos, saímos à rua e não sabemos o que nos aguarda depois daquela esquina. E talvez a manhã, generosa, traga-nos cheiro de pão fresco. Uma floricultura com suas flores regadas. Ou uma pessoa querida há muito não vista.
Para mim, isso também é poema. A vida no seu imprevisto, mesmo que pequeno, mesmo que discreto: algo interessante que capture o meu olhar, me suspenda no tempo, me faça fugir por alguns segundos da mesmice que sufoca.
E quando essa felicidade repentina traz literalmente poemas e pessoas (e pessoas que são quase poemas)? Foi isso que aconteceu nessa semana. Eu estava na universidade, dentro da biblioteca, fazendo aquela balbúrdia (escrevendo tese!) e recebi um convite lindo para almoçar com amigas queridíssimas, Mariana e Milena. Essa eu não via desde o ano passado, ela não mora em Campinas e eu fiquei feliz demais com a surpresa.


Versos para se devorar com deleite. E o melhor 
é que você pode comê-los sucessivas vezes!

Fui à casa de Mariana. Abraços. Como você está? Barrocas, enlouquecidas (foram os adjetivos mais usados). Cozinhamos juntas, enquanto compartilhávamos novidades e ideias e confissões, num ritual muito singular e muito feminino. Músicas bonitas para acalmar o coração. Maçã com limão cravo e sal, novidade de Milena. Sabores novos, afetos conhecidos.
E depois de comer muito e bem, nós três nos jogamos no tapete azul da sala, rodeado pelos muitos livros que Mariana mantém ali, ao alcance dos olhos e das mãos, para que seus hóspedes se deixem ficar (como se já não fosse suficiente sua presença para não querermos ir embora e sim morar naquele tapete). Lemos poemas de Hilda Hilsti e Sophia de Mello Breyner Andresen. Sobremesa mais que maravilhosa. 5 mulheres deitadas sobre versos, cobertas de versos, vestidas de versos, saboreando-os lentamente ao ouvi-los sair das páginas e dos lábios das outras.
Foi tão espontâneo e bonito que saí de lá não só com a barriga, mas a alma cheia! Se essa não for a função da poesia, não sei pra que serve, não!

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Pão-poesia

Tenho dançado todas as quintas-feiras. Se o leitor releu o título do texto, não estranhe a frase. Dança é poema e poema é dança: movimento que se recusa a ser a linguagem – seja no verbo ou no corpo – comum, mecanizada, de todo dia. Então que esse encontro marcado com a dança, todas as quintas - um privilégio que me dou na hora do almoço, incluindo no dia um outro tipo de alimento – tem me deixado louca para escrever. É como se eu começasse a escrever enquanto danço e, escrevendo, eu continuasse dançando.




O difícil é voltar à biblioteca. Sentar-me diante do computador e conter toda a poesia que me conduz em passadas ora largas, ora curtas, com pausas inesperadas como a iminência de um beijo, seguidas de sinuosos floreios em que pernas desenham no chão “ss” perfeitos e de giros e giros e giros que mais se assemelham ao voo curto de ave assustada. Difícil obrigar-me à imobilidade, silenciar a música que ainda mora nos músculos, encerrar toda poesia-dança no fundo de um arquivo.
Acho que não estou tendo muito sucesso, porque aqui estou eu escrevendo sobre a poesia de que preciso me despedir por ora, sabendo que, talvez, em poucos minutos, já me entrego de novo a mais um poema que me tira para dançar.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Muito além da fórmula da água

Pouca gente sabe, mas eu me tornei professora antes de completar a minha graduação, antes de ter licenciatura. Aos 19 anos, eu já estava em uma sala de aula, no período noturno, lecionando para pessoas mais velhas do que eu (e que tanto me ensinaram). Desde criança eu admirava meus bons professores e me sentia honrada com a possibilidade de me tornar um deles no futuro. Desde criança, eu gostava dos cadernos, dos livros, da lousa e do giz, levando mais a sério do que a maioria o brincar de “escolinha”. E o tempo passou, a criança cresceu, esse diminutivo desapareceu e a escola passou a ser não apenas meu local de trabalho, mas um espaço de vivências múltiplas que alimentou minhas reflexões, pesquisas, textos e afetos.
O que a educação fez por mim vai muito além dos diplomas e qualificações profissionais. Eu faço parte da primeira geração da minha família que frequentou escolas. Que não precisou pegar na enxada antes dos 10 anos. Não havia livros na casa dos meus avós. E poucos, na minha casa de infância (a Bíblia e volumes da Enciclopédia Barsa, que ainda se vendia de porta em porta). A escola me trouxe livros nos quais eu aprendi muito mais do que a fórmula da água ou a multiplicar 7 X 8... Livros que me mostraram realidades diferentes, lugares distantes, ideias diversas. E mais: a escola me trouxe pessoas que me ensinaram a pensar, a conviver, a lidar com o que eu era e com o que eu queria me tornar. A escola me permitiu reavaliar os preconceitos que eu recebi, ressignificar algumas verdades e me tornar uma pessoa melhor (e que ainda precisa melhorar muito)... Porque a ignorância, como bem disse Renato Russo, é vizinha da maldade.



Meus colegas e alunos em manifestação na Avenida Paulista, 
em defesa das escolas e universidases públicas! <3 #15M


A educação me permitiu escolher minha profissão e atuar no desenvolvimento das pessoas. Foi para isso que eu me tornei professora: para ver gente aprender, crescer, brilhar. Eu dediquei os últimos 20 anos da minha vida aos estudos, à pesquisa e à docência para isso. A coisa mais maravilhosa do mundo é ver o brilho no olho de um aluno quando ele entende um texto ou um conceito, tem uma ideia, cria um poema, um projeto, um experimento... E o que há de mais triste para mim, nesse momento, é ver a desesperança no olhar desses alunos diante das ameaças ao orçamento das escolas e universidades. É ver parte da sociedade brasileira apática diante do desmonte da educação pública. Porque isso significa condenar essas crianças e jovens ao não desenvolvimento, a permanecer, na melhor hipótese, no mesmo lugar cultural e social, sem chances de mudar, de se reinventar, de fazer algo relevante nas próprias vidas e no mundo.
Não deixemos que isso aconteça. Não deixemos que o projeto de falência da escola pública prossiga, projeto esse que tanto interessa aos grandes empresários da educação, que tem transformado a educação em mercadoria (nem sempre de qualidade) para quem quiser ou puder pagar. Defendam a escola pública, briguem por ela, exijam sua melhoria! Por favor, Brasil, nunca te pedi nada!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A ameaça do (e ao) conhecimento

Toda vez que sou convidada para uma palestra, uma mesa, um bate-papo sobre literatura eu me sinto honrada. É uma honra para mim compartilhar a minha experiência com a literatura, tanto na pesquisa quanto na escrita ficcional ou na docência, e poder escutar e aprender com a experiência de tantas pessoas que constroem a cultura nesse país, ao longo de uma vida de muito trabalho.
Foi assim nesta semana, na mesa “Coleções literárias para a formação de leitores”, no IFSP-Pirituba. Mas a minha honra maior foi escutar. Não apenas porque Jiro Takahasi (o outro componente desta mesa onde repartimos o pão das palavras) é um editor veterano, premiado, que tem tanto a nos ensinar sobre a produção editorial no Brasil, especialmente sobre as renomadas coleções Vagalume e Para Gostar de Ler, que formaram gerações de leitores no Brasil. Mas também porque este editor afirmou, em vários momentos da sua fala, que todo o seu trabalho de décadas na área editorial só existe e faz sentido porque há leitores, citando a famosa frase de Borges: “Outros que se vangloriem dos livros que escreveram, eu me vanglorio dos leitores que tive”. E estendendo-a à atividade docente (já que Jiro também é professor), terminou sua fala agradecendo por falar de sua experiência a alunos de Letras, parodiando o escritor argentino: “Outros que se vangloriem das aulas que deram, eu me vanglorio dos alunos que tive”.
Em uma semana em que se anunciaram cortes no orçamento da educação pública e de bolsas de fomento à pesquisa, a fala de Jiro Takahashi é mais que um consolo, mas um convite à resistência. A mim, ela trouxe uma certeza: a de que toda a pesquisa na área de Linguagens e Ciências Humanas faz sentido porque há leitores e alunos que precisam dela. Falamos de coleções editoriais voltadas para um público jovem em formação, tanto em termos de leitura quanto de cidadania, e do quanto essas coleções são importantes para o contato do jovem com uma literatura que faça sentido para ele, que o represente e, ao mesmo tempo, apresente-lhe um mundo que excede as fronteiras da sua casa, da sua escola, do seu bairro, da sua cidade. Mas também falamos das limitações dessas coleções, da conflituosa relação entre educação, mercado e literatura juvenil – já que imperativos econômicos e didáticos influenciam na produção dos livros destinados a este público.
Tais conflitos se mostram presentes nos discursos políticos atuais, quando se coloca o professor como alvo de vigilância da sociedade, cerceado inclusive na escolha das leituras a serem feitas por seus alunos. Porque sabemos que a leitura foi e continua sendo vista como uma atividade perigosa, caso não seja bem orientada. Entenda-se orientação como um exercício de controle que vai desde a escolha de conteúdos que são ou não adequados à leitura e ao debate em sala de aula, até ao “monitoramento” da interpretação de textos, disfarçado sob a forma de roteiros de leitura, apostilas, nivelamento e homogeneização das avaliações de literatura e outros recursos didáticos. Assim, o risco de o jovem começar a pensar e questionar os valores que recebeu desde sempre é bem menor. Obviamente, nada disso é dito com clareza, talvez sequer pensado com clareza, mas diluído nas boas intenções de facilitar a leitura e torná-la mais útil para os jovens, bem como orientá-los moralmente. 


   
Teme-se que o jovem viaje sozinho pelas páginas dos livros, porque isso pode desviá-lo dos caminhos considerados certos – e são exatamente os desvios que trazem as surpresas que nos fazem pensar. Por isso, o conhecimento sempre foi considerado uma ameaça por aqueles que detêm verdades absolutas e que querem manter o poder a qualquer custo. É muito claro que o desmonte da educação pública e dos programas federais de fomento à pesquisa é um projeto, com motivações e implicações não apenas políticas, mas sociais e econômicas. Diante disso, mais do que nunca, temos a convicção de nosso papel enquanto pesquisadores e professores das universidades públicas: produzir conhecimento que atenda não apenas demandas imediatas (da medicina, da engenharia, da indústria), mas que desenvolva formas de questionar a própria produção de conhecimento, seus discursos, suas metodologias, seus limites e potencialidades. Só assim promoveremos uma educação de qualidade, que excederá os discursos eleitoreiros e das instituições de ensino.
Porque a leitura e a reflexão precisam exceder os limites da escola, da aula de língua portuguesa e literatura. Ao final da instigante discussão sobre as coleções literárias para a formação de leitores, um aluno nos perguntou nossa opinião sobre a crise do mercado editorial. Livrarias falindo, pequenas editoras fechando, grandes grupos editoriais em déficit. Algo que parece ser uma crise no sentido financeiro é também um sintoma de uma crise mais ampla, de valores, na qual podemos perguntar qual o valor do livro, e, especialmente, da leitura literária, ou mais amplamente, da cultura letrada, no atual contexto social. E não há como falar disso sem falar de uma educação que realmente forme leitores, que continuarão lendo para além dos anos escolares. Editoras nunca terão público suficiente em um país de analfabetos funcionais. Por isso, é preciso que elas se lembrem de seu principal foco: os leitores, seu desenvolvimento e o de uma relação especial com os livros. 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Fly 3003


De repente surgiu aquele carro. Do nada surgiu aquele carro. Ela freou com toda a força e sentiu o cheiro do pneu queimando o asfalto. Quando o carro parou, a milímetros do outro, ela fechou os olhos, as pernas bambas, nem ouvindo o palavrão do motorista que estava atrás. Pesava-lhe o corpo. Não era apenas a descarga de adrenalina. Pesava-lhe o corpo pelas tantas noites pouco ou mal dormidas. Pesavam-lhe as pálpebras pelas lágrimas não derramadas. Pesava-lhe a alma sem asas.
Lentamente relaxou os dedos que, ato reflexo, apertavam com força o volante. Respirou fundo, os olhos ainda fechados, repetindo baixinho “Não foi nada, não foi nada”, como um mantra que lhe devolveria o domínio das pernas. Foi despertada subitamente pelo barulho das buzinas. O sinal abrira e a longa fila de veículos reclamava seu direito de seguir a vida. Ou ao menos o caminho para o trabalho, para a escola, para o banco, para qualquer instituição que lhe engoliria a vida. Ainda trêmula, ela ligou o carro, engatou a primeira marcha, colocando-se em marcha novamente na procissão urbana. “Vai passar”, pensou. Repetiu algumas vezes. Mentiras repetidas à exaustão acabam se tornando verdades, com ela haveria de dar certo.
Mas não passava. Sentia na garganta a náusea. Os dissabores de anos, engolidos a seco, o medo de perder o emprego, de não conseguir pagar as parcelas do financiamento, noites em claro pensando se teria coragem de pedir o divórcio, a indiferença da família, a angústia de não se sentir bonita apesar de todas as dietas e todas as roupas novas, tudo lhe subia do estômago, mistura acre de nervosismo, dor e frustração. O sinal vermelho. Pare. Pare com isso. Ela repetiu: vai passar.  
Mas não passava. Olhou seus olhos no retrovisor. Antes perfeitamente delineados, agora eram duas manchas horrorosas, entre o roxo e o acinzentado. Ela passou a mão pelos olhos, pelo rosto, assim que freara bruscamente para evitar o acidente, espalhando a maquiagem mecanicamente feita naquela manhã. Ela passou a mão pelo rosto novamente, com cuidado, como se as manchas sobre os olhos fossem dois hematomas, duas bofetadas da vida. A carícia leve pela pele do rosto trouxe-lhe um breve meio sorriso. Há tanto tempo ela não se acarinhava, nem em gestos nem em palavras. Demorou-se no gesto, sentindo a ponta dos dedos desenhando os lábios, o nariz adunco, os cílios, as rugas, a linha de expressão entre as sobrancelhas, escavada pelas preocupações.
Novamente o sinal verde, siga, as buzinas gritando: siga. Sempre em frente. Mas as pernas se recusaram. Ela novamente olhou seus próprios olhos no retrovisor. Há muito não se olhava nos olhos. Há muito não se encarava para não precisar reconhecer a dor, para não precisar dizer as verdades. E se olhando nos olhos ela soube – amava-se ainda. Quase tinha se perdido, mas era tempo. As buzinas continuavam, carros resfolegando como animais enraivecidos, motoristas a ultrapassavam gritando palavrões inaudíveis pelos vidros fechados, mas ela só olhos para os seus olhos, ouvidos para o silêncio que a tomava, um silêncio de compreensão.
Como se tivesse emergido de águas profundas, ela de repente ouviu o barulho ao redor. Atrás dela, um motorista manobrava, tentando ultrapassá-la, e, logo o fez, o sinal fechou novamente. O homem gritava e fazia gestos impacientes e obscenos. Como se tivesse acordado de um sono profundo, ela acompanhava com esforço seus braços enfáticos. Achou graça, era como se ele fosse um daqueles bonecos infláveis colocados na pista para sinalizar obras, movendo desengonçadamente os braços. Ela começou a rir. E de repente, seus olhos desceram e se fixaram na placa do carro: FLY 3003.
   Leu novamente, agora em voz alta, a placa do carro. Notou que as letras formavam uma palavra em inglês. E os números, curiosamente, formavam um número que continuava o mesmo ao ser lido em ambas as direções. Como se chamavam esses números? Não se lembrava. Mas sabia o que significava a palavra, significava voar. Ela sabia por causa da única viagem internacional que tinha feito. Três mil e três. Também podia ser trinta zero três. Trinta do três. Sua data de nascimento. Como era mesmo o nome desse tipo de número?
Novamente o verde tomou conta dos semáforos e ela ligou o carro, ainda pensando no nome. Paráfrase? Paranomásia? Tinha certeza de que começava com “pa”. Voar. Não podia ser “voe”? Não podia ser um convite? PALÍNDROMO! A palavra veio inteira em sua mente, em caixa alta. Era isso! Número palíndromo. Mas agora não era mais. Não era mais 3003! Era 30.03. Voe, 30.03! Era um convite, ela teve certeza agora. Um convite para as pessoas nascidas no dia 30 de março voarem. Um convite para que sua alma ganhasse asas.
Ela prosseguia na longa avenida, agora as pernas obedeciam, a respiração se controlava, as mãos firmes, mas não mais tensas no volante. Dirigia como se a longa avenida não tivesse fim, e só muito depois percebeu que perdera a saída que a faria continuar no trajeto para o trabalho. Fez o primeiro retorno que encontrou. Sim, chegaria atrasada no trabalho. Mas estranhamente, essa conclusão não a afligiu. Dirigia devagar, como se nada ou ninguém a esperasse.
Quando entrou na sala que dividia com mais três colegas, notou olhares estranhos. Passou a mão, instintivamente, pelo rosto. Era a maquiagem borrada que criava aqueles pontos de interrogação nos olhos alheios? Ou era a flama que se via em seus próprios olhos? Não quis se explicar. Não queria palavra que rompesse aquele silêncio que a abraçava, compreensivo e benfazejo. Então apenas sentou-se em sua mesa. Diante do computador ainda desligado, um origami. Ela não sabia como aquele passarinho tinha vindo parar ali, mas sabia que, mais uma vez, eram as asas de que sua alma precisava tanto, tanto...   



sexta-feira, 8 de março de 2019

Feminismo não é antônimo de machismo


Precisamos pensar nas palavras. Sempre. Nos seus silêncios e nos seus sentidos. Então a professora que sou sente a necessidade de explicar. Desculpem-me os que me acharem excessivamente didática. Às vezes não consigo evitar. E me perdoem aqueles que já estejam com os cabelos em pé de ter que ouvir isso de novo, mas é por conta daqueles que não estão carecas de saber que precisamos repetir, repetir e continuar repetindo todo ano. Cansa muito, mas prosseguimos.
Vou começar a falar sobre o feminismo dizendo o que ele não é. E com a ajuda da gramática: feminismo não é antônimo de machismo. Feminismo é o nome que se dá à luta das mulheres por igualdade de direitos e oportunidades entre os sexos. É a luta pelo fim da violência e opressão às mulheres, que afetam a todos (pois os homens também sofrem nesse processo, embora menos do que nós).
Feminismo não tem nada a ver com deixar de depilar qualquer parte do corpo. Não tem nada a ver com roupas mais ou menos curtas. Mas tem tudo a ver com a consciência de que o corpo da mulher pertence a ela e é ela quem deve decidir o que fazer com ele.
Feminismo não é ser contra o casamento, a maternidade ou papéis tradicionais que a mulher possa exercer. Mas tem tudo o ver com o entendimento de que a mulher deve ser livre para escolher se quer ser casada ou não, ser mãe ou não. É lutar para que seja garantido que seu lugar seja onde ela quiser, inclusive na cozinha, mas também nos laboratórios de pesquisa, nas salas de aula, nas instituições financeiras, nas câmaras de vereadores e deputados, nos gabinetes das prefeituras e da presidência (e não apenas como faxineira!).
Feminismo não tem nada a ver com ser contra relações heterossexuais ou contra os homens. Vivo brincando com isso, dizendo que sou contra o machismo, não contra o macho (do qual, a propósito, gosto muito!). Mas tem tudo a ver com a percepção de que os homens não são o centro do mundo e de que não é um relacionamento com um homem que define o valor de uma mulher.
Feminismo não é se vestir como homem, ficar musculosa, falar palavrões, cuspir ou fazer xixi na rua; nem ficar nua em público em qualquer protesto.
Tentei pensar no maior número possível de imagens estereotipadas, para pensarmos no quanto elas não dão conta da diversidade não apenas de mulheres, mas de homens, gays, lésbicas, travestis e transexuais que são feministas.
É preciso repetir e repetir isso nesse momento em que, mais do que antes, o feminismo tem sido atacado e depreciado, com a reafirmação de preconceitos que só impedem as pessoas, e especialmente as mulheres, de pensar no quanto são oprimidas e reagir a isso. Muitas delas se dizem, inclusive, contra o feminismo, sem estarem conscientes de que isso é ser contra a luta organizada das mulheres por suas próprias vidas. Ou elas pensam que não precisam do feminismo ou nunca tiveram nada a ver com ele, sem refletir que sem o movimento feminista, as mulheres nunca teriam conquistado o direito ao voto, ao estudo (sim, meninas começaram a frequentar escolas e universidades há bem pouco tempo, na história, e ainda não têm esse direito em muitos lugares), a um trabalho fora de casa com o mínimo de paridade salarial com os homens, e até mesmo o direito à guarda de seus próprios filhos.
Então, a única coisa que eu posso dizer é: leia, reflita, converse com pessoas que atuam pelos direitos das mulheres. Talvez muitas de nós são feministas, mas ainda não sabem.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Autorretrato


Trago um vinco entre os olhos que já faz parte da paisagem que tenho de mim. A dor, os temores, a luta sulcaram minha pele bem ali onde se encontra, segundo filosofias orientais, a consciência, a alma, o terceiro olho.
O tempo escreveu em mim alguns versos curtos, mas bonitos. Olho as marcas do meu rosto e vejo que um sorriso já está inscrito ali, tantas as vezes que apertei os olhos de amor e elevei os lábios na alegria. Olho as linhas na minha testa e posso ler nelas o espanto, a surpresa, a falta das respostas para as eternas perguntas...





O tempo escreveu em mim algumas histórias que ainda não sei contar. Há mais que cicatrizes de tombos, feridas, cataporas e cortes. Há as invisíveis, difíceis de ler, porque a gente coloca bastante maquiagem em cima. Mas sei que estão ali; que, se tocadas ainda que de leve, podem verter fel e sangue. Elas me calam, fazem-me sucumbir sem palavra que possa me salvar.
O tempo escreveu em mim algumas certezas. A de que sou humana e mulher, com todas as dores e delícias que isso me traz. A de que sou mulher e por isso vou ter que lutar sem esquiva ou cansaço pelo respeito que me foi usurpado desde séculos. Talvez daí meu medo da loucura: talvez não seja medo, seja memória. Se fui mulher em outras vidas, fui chamada louca, libertina, perdida. Conheci prisões e manicômios, e a memória da tortura nunca sai da carne. Talvez daí também minha sede de liberdade infinita, esses lábios entreabertos sempre esperando um novo e líquido amanhecer no qual eu possa caminhar.
E caminho.

20.02.2019
por ocasião dos meus 40 anos

domingo, 6 de maio de 2018

Tudo que move é sagrado


Ríamos como se a vida fosse isso, apenas riso e expectativa. No pulso, tatuagens falsas com as mesmas palavras. E usávamos camisetas idênticas, e brindávamos com nossas tacinhas cor-de-rosa. 8 meninas. Tudo diversão pura. O tempo tinha parado só para que a gente se divertisse.
Talvez o leitor pense que se trata de uma lembrança da minha adolescência, mas não: foi uma despedida de solteira de que participei há menos de um mês. Com amigas que conheço há muito tempo, não vou dizer quantos anos para que ninguém questione o “meninas” do parágrafo anterior. Mas de fato éramos apenas meninas circulando pelas ruas de São Paulo em uma limusine, e depois a pé pelos bares da Vila Madalena, bebendo e rindo só porque era maravilhoso estarmos juntas depois de tanto tempo, e também maravilhoso celebrar um amor que se revelou depois de tanto tempo, enfim, o tempo, esse tal devorador, não tinha nos devorado.

E então comecei a pensar (eu que não perco esse vício terrível) na beleza dos rituais. São eles que nos salvam da goela implacável do tempo. Lembro-me de uma passagem tão linda de Rosa, em “Festa de Manuelzão”: o protagonista, já velho, resolve dar uma festa, a primeira de sua vida, porqueu queria marcar um dia no corrido do tempo. É assim que o vencemos: marcando dias que a Memória, essa poderosa deusa, impede que o tempo leve.
O tempo não vai levar embora esses dias em que celebramos o amor de duas pessoas que se conheceram despretensiosamente em seu primeiro emprego. E que seguiram caminhos diferentes, namoraram outras pessoas, um se casou, a outra teve um filho, ambos se formaram e construíram suas carreiras, e estavam assim vivendo suas vidas alheios um ao outro até que se encontraram novamente. Um divórcio. Eles se encontraram como advogada e cliente que já se conheciam. E de forma inesperada se olharam de forma diferente, e se conheceram pela primeira vez novamente. Por que a vida, este rio, é nunca mais sendo a mesma. Então eles não eram mais aqueles de tantos anos atrás, e esses novos eles mesmos se encantaram e se apaixonaram e resolveram se casar.
Coisa mais linda é a gente ver como não só a arte imita a vida, mas esta quem se esforça para imitar aquela. E em cada ritual percebo como olhamos nossa vida como uma narrativa. Construímos as metáforas. Os símbolos. Colocamos verossimilhança na vida – essa coisa feroz e sem coerência. Neste casamento, não podia ser diferente: o pedido foi feito em forma de um pequeno filme exibido em um cinema. Os votos foram escritos e declarados pelos noivos em narrativas repletas de emoção e poesia. Na cerimônia, um dos padrinhos fez a vez de sacerdote, com uma narração hilária e ao mesmo tempo comovente daquele relacionamento, declarando falar “sem poder nenhum, investido por nenhuma instituição”, que ele não era padre, nem pastor, nem nada relacionado a Igreja nenhuma.
Porém, o que todos sabemos é que aquela cerimônia não religiosa estava repleta do sagrado. Porque o encontro com tantos amigos de longa data, com quem compartilhamos tantas descobertas, o começo de nossas carreiras e de nossas identidades profissionais – só podia ser sagrado. Porque aqueles votos de amor ditos em uma noite quente em pleno outono, de céu tão límpido e uma lua cheia glamourosa, só podia ser sagrado. Porque movia nossas almas e corações. E como já disse o poeta, tudo que move é sagrado.

domingo, 1 de abril de 2018

Páscoa


Uma das coisas mais bonitas da minha infância era o domingo de Páscoa. Na minha memória, a manhã era sempre fria e de céu azul. Acordávamos de manhã para a missa e não queríamos sair das cobertas macias. Mas as mãos rudes da minha avó, rudes do trabalho, de socar arroz no pilão, queimar o dedo nos tachos de doce, bater roupas nas pedras durante décadas, nos chamava para os deveres cristãos. Deveres que para mim eram deleites.

Venho de uma família cristã e mineira, para quem a Semana Santa era algo muito importante. Mais que isso, solene, cheia de um lamento misturado ao esplendor. Na procissão da terça-feira, os homens levavam Jesus, que encontrava Nossa Senhora das Dores, levada pelas mulheres – a mãe, dilacerada pela dor, despedia-se do filho. Na quinta-feira, depois do lava-pés, Jesus se dava a comer na última ceia, despedia-se do mundo, mas dizia nunca deixá-lo. Aquilo impressionava meus ouvidos infantis: “Comei minha carne, bebei do meu sangue”, e hoje ainda maravilha meus pensamentos: um Deus-alimento. E depois a missa do sábado, a fogueira a arder na frente da igreja; a bênção do fogo e da água, as promessas da renovação. E finalmente, no domingo, Jesus ressuscitava, vencia a morte, tudo era esperança! O almoço especial do domingo confirmava essa verdade, assim como o único ovo de chocolate, dividido entre os 6 membros da família, mais alguma visita ou vizinho que parara ali para almoçar, porque sentiu da calçada o cheiro bom do feijão da D. Helena, minha mãe.

Eu contemplo essas lembranças como se fossem um quadro, uma fotografia de família daquelas que a gente pendura na parede. Tenho saudade dessa fé que me pegava nos braços e me balançava. Agora, os gestos de esperança me parecem mais raros. Mas de vez em quando a gente percebe uma ponta de asa atrás da porta e se pergunta se seria um anjo.

Hoje fui almoçar na casa da minha sogra, D. Lázara. Há pouco mais de um mês, meu sogro faleceu e esta foi a primeira data festiva sem sua presença. Em sua juventude, Seu Belmiro era rezador na comunidade rural de Ivaiporã, no Paraná: encomendava corpos, rezava em enterros, novenas de Páscoa e Natal, benzia crianças doentes e com quebranto, e ainda tocava sanfona nos bailes. Como diz D. Lázara, um homem popular.

Os filhos, netos, bisnetos e tataraneta de Seu Belmiro estavam lá hoje, para celebrar a Páscoa comendo a tradicional carne assada com maionese, arroz, feijão, macarrão, farofa e tudo o mais que se tem direito (por que na mesa dos Topan não tem miséria, graças a Deus, como dizia meu finado sogro). Minha sogra estava nostálgica, contemplando a comilança geral e falando de seu Belmiro a cada 5 minutos.

Não, não havia ovos de chocolate nem coelhinhos da Páscoa. Mas houve um momento em que alguns dos netos entraram pelo portão com uma grande caixa embrulhada para presente:

- Vó, é uma surpresa para você!

Ela ficou de pé, apoiou a caixa em uma cadeira e rasgou o papel rapidamente, como qualquer criança. E seus olhos brilharam:

- É uma boneca, uma boneca! – ela ria enquanto chorava e tirava da caixa o bebê-boneca, e o aconchegava em seu peito. – Eu sempre adorei bonecas e a única que eu tinha quebrou.

Eu vi os olhos alegres daquela criança de quase 80 anos. As de 8 anos, em volta, olhavam a caixa recém-aberta, perguntando-se se não haveria mais presentes. Olhos de esperança, de expectativa. A mesa e seu almoço especial. Sim, era a Páscoa da minha infância novamente...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Distraídos venceremos

Nesta semana que passou, fui à defesa de tese do meu colega Ricardo Gessner, que em seu doutorado fez uma bela pesquisa sobre Paulo Leminski. Qualquer um que fale da poesia me interessa, a poesia é o sal ou o bálsamo para minhas feridas, é minha cachaça, meu feijão.
Ricardo e seus arguidores disseram muitas coisas interessantes, mas uma das frases do recente doutor que me encheu de entusiasmo foi quando comentou o título do livro Distraídos venceremos: “Distrair vem do latim distraere, que significa ‘levar por outros caminhos’”.
Lembrei de Guimarães Rosa, que dizia que um dicionário era já um livro de poemas, pois na etimologia de muitas palavras havia metáforas incríveis. Como eu já disse em outras crônicas deste blog, eu adoro a distração. E nessa explicação etimológica me valho: quando me distraio, vou por outros caminhos. Saio do lugar onde estou (às vezes contra a minha vontade) e vou por onde a alma precisa. Eu posso estar andando na rua em direção ao banco, ao correio, à escola, aparentemente toda séria nos meus afazeres. E a verdade é que não estou na rua, mas no vento: presto atenção mesmo é para onde o vento sopra, se leve e delicado ou brusco; às vezes caminho de olhos fechados para sentí-lo exclusivamente, se passo por uma praça ou algum espaço onde não serei atropelada. Eu me interesso por pessoas desconhecidas: invento-lhes destinos a partir do seu jeito de caminhar, suas roupas, suas expressões de riso ou desgosto; se a viagem é mais longa, eu crio enredos mais completos.

Ainda não li Distraídos venceremos por completo, mas esse título, para mim, já é todo um poema! Pois a distração tem sido minha arma. Só assim venceremos – desligando-nos de uma realidade que nos esmaga e alterando o foco. Escolhendo outros caminhos.

***

ADMINIMISTÉRIO

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

(Paulo Leminski, Distraídos Venceremos)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Tá lá o corpo estendido no chão

Há dias em que tenho medo... Muito medo! Talvez meus poucos, seletos leitores se perguntarão: estará Lia tendo algum surto paranoico? Imagina-se perseguida pela máfia chinesa? Leu tantas histórias sobre vampiros que vê mortos-vivos no jardim? Ora, direis, ver mortos-vivos... Certo perdeste o senso, parodiando o imortal Bilac...
Bom seria se fosse apenas um surto paranoico, mas meu medo é de algo bem real: temo ler as notícias do dia. Aquele ritual que ficou no passado, de abrir o jornal de manhã. Ou, mais modernamente, de abrir os portais virtuais de notícias no começo do dia. Ou a qualquer momento do dia. Sinto uma leve taquicardia ao imaginar qual será o próximo absurdo da política nacional, o próximo direito a ser pisoteado ou a próxima carnificina a ser lamentada.
Algo que me intriga no mundo são os indiferentes. Sabe aquele samba excelente do João Bosco? Tá lá o corpo estendido no chão. E ninguém para sua vida por isso: o bar lota, a baiana vende pastel, camelô vende anel, tem até discurso para vereador, que discursos políticos sobre cadáveres não é novidade para ninguém... E depois todo mundo vai embora, pensando na mulher ou no time.
E o corpo continua lá, estendido no chão. Talvez uma representação bastante fidedigna do nosso momento: vemos a agonia de um estado democrático recém-nascido que não chegou a vingar. Uma jovem democracia que lenta e dificilmente caminhava para estabelecer algumas bases e que de repente parou. Mas continuamos indiferentes. E quando os passos para trás começaram, tomamos um susto. Mas continuamos indiferentes. Enquanto isso, alguns vociferam contra exposições de arte ou contra uma filósofa em visita ao país. E leio hoje no portal da BBC que há juízes brasileiros (aqueles com gordos salários e auxílio moradia de 4 mil reais por mês) que têm duas folgas semanais e férias de 60 dias, e, no do jornal Estado de São Paulo que, segundo o Banco Mundial, o Brasil deve cortar as universidades gratuitas. Mas, para não pensar em nada disso, pode-se ler a seguinte notícia no portal da revista Veja: a televisão já ocupa em média 6 horas do dia dos brasileiros.

E o corpo tá lá, estendido no chão. E um silêncio servindo de amém.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Leda à beira do abismo

Leda à beira do abismo:
belo o que se mostra
escondido nas brumas
quero atirar-me
em seu banho de espuma
saiba embora
não há fundo no fosso
apenas o delírio do vento
o além dos limites da pele.

domingo, 31 de julho de 2016

A ignorância ilustrada

Li nesta semana uma reportagem lamentável, o que não é surpreendente, neste contexto em que, cada manhã, tenho medo do que vou ler nos jornais. "Médico debocha de paciente na internet", era o título da reportagem do portal G1 Campinas e região. A reportagem relatava que um médico, Guilherme Capel, que atendera no Hospital Santa Rosa de Lima, em Serra Negra, um paciente com pneumonia, teria postado nas redes sociais uma foto de um receituário do hospital com os dizeres "Não existe peleumonia nem raôxis". Obviamente, ele recebeu muitas curtidas e comentários de aprovação. Novamente, nada de novo sob o sol. O que talvez seja novidade, e creio que o jovem médico não esperasse, era ser reconhecido pelo paciente que atendeu, o qual, sentindo-se ofendido, compartilhou a foto com reprovação e fez com que o hospital tomasse providências contra o desrespeito, demitindo o médico e as enfermeiras que também participaram do deboche virtual. Surpreendido, o médico fez algo pouco surpreendente: procurou a imprensa para se retratar. Pediu desculpas ao paciente, disse que não quis ofender ninguém. É que ele já tinha atendido 100 pacientes naquele dia e estava apenas fazendo uma brincadeirinha para aliviar o stress. Mas que debochar de um paciente não era do seu caráter, da sua crença.
Ah, que bom que ele explicou, não é, minha gente? E, para meu pesar, a maioria das pessoas pensa assim. Lendo os comentários que seguiram as reportagens, vi pessoas achando um exagero o médico ter sido demitido. Outros, ainda defendendo a atitude dele de criticar quem "fala errado" e ainda se dando ao trabalho de corrigir gramaticalmente os comentários daqueles que criticavam o  médico ou elogiavam a conduta do hospital em afastar o profissional. Atitude esta que sempre me faz pensar sobre o estranho prazer que algumas pessoas têm em corrigir as outras.
Sou professora de língua portuguesa, e sinceramente, não sinto nenhum prazer em corrigir a fala das pessoas. Ao contrário, é constrangedor quando eu digo minha profissão e alguém fala: "deixa eu tomar cuidado com o jeito que eu falo... Ó, pode me corrigir, viu?". Não, senhores, eu não sou um leão-de-chácara da língua portuguesa. Eu não fico por aí vigiando como as pessoas falam. E acho a coisa mais deselegante ficar corrigindo as pessoas. Eu só corrijo textos dos meus alunos, em contextos bem específicos. E, na maioria dos casos, não trabalho de graça. Então, sintam-se bem à vontade para falar como quiserem!
Entretanto, já conheci profissionais das mais variadas áreas que adoram apontar quando alguém "fala errado", elas se sentem na obrigação de evitar que seu amado idioma seja "assassinado" (outra expressão que me dá calafrios). Se assassinássemos tanto o português, ele seria uma língua morta. E exatamente por ser uma língua viva é que ele apresenta tantas variantes, ainda mais em um país de analfabetos e analfabetos funcionais, que vivenciam a linguagem apenas na oralidade, que é tão mais fluida e mutável que a escrita.
Durante muito tempo reflito sobre esse hábito e sobre o famoso "meus ouvidos doem quando escuto isso". Creio ser algo bem diferente de amor ao idioma: concluo que se trata de uma forma de distinção. Se lhes parece estranho, explico-me. Vivemos em um país em que ler e estudar ainda é privilégio de uma elite econômica. Apesar da melhoria do acesso à educação ocorrido nas últimas duas décadas, esse privilégio ainda se mantém, considerando que a educação pública oferecida não tem qualidade. E as políticas educacionais mais inclusivas dos últimos governos federais (bolsas para alunos de baixa renda, programas de cotas e financiamentos estudantis) foram duramente criticados por essa elite.
Porque ter escolaridade, ter diplomas, é uma forma de se diferenciar desse zé povinho. Saber escrever e falar bem é uma forma de demonstrar essa suposta superioridade. Debochar de quem "não sabe falar" é a maneira mais clara de evidenciar essa distinção que tantos querem ver demarcada. Está ao lado de outras atitudes como exigir que a babá use uniforme em lugares públicos, mostrar a carteira de classe no dia das eleições (ao invés do RG) ou exigir na justiça que o porteiro lhe chame de doutor (outra notícia absurda que li nesta semana). É a nossa ignorância ilustrada. Não fui eu quem inventei essa expressão, infelizmente, pois a acho brilhante. Eu a li em um artigo que falava de pessoas que têm nível superior, muitas vezes, pós graduação, mas tal escolaridade não faz com que elas ampliem sua visão de mundo, que compreendam melhor sua sociedade, que se relacionem melhor com seu meio e com as pessoas. Elas não se tornam mais inteligentes ou competentes, apenas mais arrogantes.
Alguns leitores podem dizer que eu estou exagerando, assim como o hospital exagerou com o jovem médico (estou usando o adjetivo porque o vi em vários comentários como um atenuante de sua atitude, como se ele fosse quase um moleque, "não sabia o que estava fazendo, ainda vai amadurecer"). Sem me alongar na nossa conhecida condescendência com as más condutas de pessoas brancas e de classe média, respondo que, embora nem todas as pessoas que debocham do "falar errado" dos outros tenham diplomas ou um nível competente em seu próprio idioma, sua reação em corrigir os outros é sim de arrogância. Elas acreditam, mesmo que não tenham consciência disto, que exista um português correto, uma língua melhor que as torna, consequentemente, melhores  do que aqueles que não a conhecem. E isso lhes dá o direito de debochar delas. Só para aliviar o stress.
Vim de uma família que não tinha livros. Meu pai trabalhou na lavoura ainda aos 8 anos. Minha mãe começou a vender doces na porta de fábricas aos 10 anos. Eles foram alfabetizados, mas tiveram que deixar a escola. Ainda aprenderam muitas coisas pela persistência, porém muitos não têm essa sorte. Essas crianças que trabalham duro desde antes de completar sua primeira década de vida têm peleumonia e outras muitas doenças que alguns doutorezinhos nem suspeitam. O erro maior não é a prosódia, doutores, de algumas palavras. Não é a concordância verbal ou nominal. O erro maior que a sociedade comete todos os dias é condenar seu povo ao não lhe dar uma educação digna. E vamos continuar condenados à nossa realidade social desigual e violenta enquanto não compreendermos isso. Pois concordo com Brecht: o pior analfabeto não é o que não sabe ler ou falar - é o analfabeto político.