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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Muito além da fórmula da água

Pouca gente sabe, mas eu me tornei professora antes de completar a minha graduação, antes de ter licenciatura. Aos 19 anos, eu já estava em uma sala de aula, no período noturno, lecionando para pessoas mais velhas do que eu (e que tanto me ensinaram). Desde criança eu admirava meus bons professores e me sentia honrada com a possibilidade de me tornar um deles no futuro. Desde criança, eu gostava dos cadernos, dos livros, da lousa e do giz, levando mais a sério do que a maioria o brincar de “escolinha”. E o tempo passou, a criança cresceu, esse diminutivo desapareceu e a escola passou a ser não apenas meu local de trabalho, mas um espaço de vivências múltiplas que alimentou minhas reflexões, pesquisas, textos e afetos.
O que a educação fez por mim vai muito além dos diplomas e qualificações profissionais. Eu faço parte da primeira geração da minha família que frequentou escolas. Que não precisou pegar na enxada antes dos 10 anos. Não havia livros na casa dos meus avós. E poucos, na minha casa de infância (a Bíblia e volumes da Enciclopédia Barsa, que ainda se vendia de porta em porta). A escola me trouxe livros nos quais eu aprendi muito mais do que a fórmula da água ou a multiplicar 7 X 8... Livros que me mostraram realidades diferentes, lugares distantes, ideias diversas. E mais: a escola me trouxe pessoas que me ensinaram a pensar, a conviver, a lidar com o que eu era e com o que eu queria me tornar. A escola me permitiu reavaliar os preconceitos que eu recebi, ressignificar algumas verdades e me tornar uma pessoa melhor (e que ainda precisa melhorar muito)... Porque a ignorância, como bem disse Renato Russo, é vizinha da maldade.



Meus colegas e alunos em manifestação na Avenida Paulista, 
em defesa das escolas e universidases públicas! <3 #15M


A educação me permitiu escolher minha profissão e atuar no desenvolvimento das pessoas. Foi para isso que eu me tornei professora: para ver gente aprender, crescer, brilhar. Eu dediquei os últimos 20 anos da minha vida aos estudos, à pesquisa e à docência para isso. A coisa mais maravilhosa do mundo é ver o brilho no olho de um aluno quando ele entende um texto ou um conceito, tem uma ideia, cria um poema, um projeto, um experimento... E o que há de mais triste para mim, nesse momento, é ver a desesperança no olhar desses alunos diante das ameaças ao orçamento das escolas e universidades. É ver parte da sociedade brasileira apática diante do desmonte da educação pública. Porque isso significa condenar essas crianças e jovens ao não desenvolvimento, a permanecer, na melhor hipótese, no mesmo lugar cultural e social, sem chances de mudar, de se reinventar, de fazer algo relevante nas próprias vidas e no mundo.
Não deixemos que isso aconteça. Não deixemos que o projeto de falência da escola pública prossiga, projeto esse que tanto interessa aos grandes empresários da educação, que tem transformado a educação em mercadoria (nem sempre de qualidade) para quem quiser ou puder pagar. Defendam a escola pública, briguem por ela, exijam sua melhoria! Por favor, Brasil, nunca te pedi nada!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A ameaça do (e ao) conhecimento

Toda vez que sou convidada para uma palestra, uma mesa, um bate-papo sobre literatura eu me sinto honrada. É uma honra para mim compartilhar a minha experiência com a literatura, tanto na pesquisa quanto na escrita ficcional ou na docência, e poder escutar e aprender com a experiência de tantas pessoas que constroem a cultura nesse país, ao longo de uma vida de muito trabalho.
Foi assim nesta semana, na mesa “Coleções literárias para a formação de leitores”, no IFSP-Pirituba. Mas a minha honra maior foi escutar. Não apenas porque Jiro Takahasi (o outro componente desta mesa onde repartimos o pão das palavras) é um editor veterano, premiado, que tem tanto a nos ensinar sobre a produção editorial no Brasil, especialmente sobre as renomadas coleções Vagalume e Para Gostar de Ler, que formaram gerações de leitores no Brasil. Mas também porque este editor afirmou, em vários momentos da sua fala, que todo o seu trabalho de décadas na área editorial só existe e faz sentido porque há leitores, citando a famosa frase de Borges: “Outros que se vangloriem dos livros que escreveram, eu me vanglorio dos leitores que tive”. E estendendo-a à atividade docente (já que Jiro também é professor), terminou sua fala agradecendo por falar de sua experiência a alunos de Letras, parodiando o escritor argentino: “Outros que se vangloriem das aulas que deram, eu me vanglorio dos alunos que tive”.
Em uma semana em que se anunciaram cortes no orçamento da educação pública e de bolsas de fomento à pesquisa, a fala de Jiro Takahashi é mais que um consolo, mas um convite à resistência. A mim, ela trouxe uma certeza: a de que toda a pesquisa na área de Linguagens e Ciências Humanas faz sentido porque há leitores e alunos que precisam dela. Falamos de coleções editoriais voltadas para um público jovem em formação, tanto em termos de leitura quanto de cidadania, e do quanto essas coleções são importantes para o contato do jovem com uma literatura que faça sentido para ele, que o represente e, ao mesmo tempo, apresente-lhe um mundo que excede as fronteiras da sua casa, da sua escola, do seu bairro, da sua cidade. Mas também falamos das limitações dessas coleções, da conflituosa relação entre educação, mercado e literatura juvenil – já que imperativos econômicos e didáticos influenciam na produção dos livros destinados a este público.
Tais conflitos se mostram presentes nos discursos políticos atuais, quando se coloca o professor como alvo de vigilância da sociedade, cerceado inclusive na escolha das leituras a serem feitas por seus alunos. Porque sabemos que a leitura foi e continua sendo vista como uma atividade perigosa, caso não seja bem orientada. Entenda-se orientação como um exercício de controle que vai desde a escolha de conteúdos que são ou não adequados à leitura e ao debate em sala de aula, até ao “monitoramento” da interpretação de textos, disfarçado sob a forma de roteiros de leitura, apostilas, nivelamento e homogeneização das avaliações de literatura e outros recursos didáticos. Assim, o risco de o jovem começar a pensar e questionar os valores que recebeu desde sempre é bem menor. Obviamente, nada disso é dito com clareza, talvez sequer pensado com clareza, mas diluído nas boas intenções de facilitar a leitura e torná-la mais útil para os jovens, bem como orientá-los moralmente. 


   
Teme-se que o jovem viaje sozinho pelas páginas dos livros, porque isso pode desviá-lo dos caminhos considerados certos – e são exatamente os desvios que trazem as surpresas que nos fazem pensar. Por isso, o conhecimento sempre foi considerado uma ameaça por aqueles que detêm verdades absolutas e que querem manter o poder a qualquer custo. É muito claro que o desmonte da educação pública e dos programas federais de fomento à pesquisa é um projeto, com motivações e implicações não apenas políticas, mas sociais e econômicas. Diante disso, mais do que nunca, temos a convicção de nosso papel enquanto pesquisadores e professores das universidades públicas: produzir conhecimento que atenda não apenas demandas imediatas (da medicina, da engenharia, da indústria), mas que desenvolva formas de questionar a própria produção de conhecimento, seus discursos, suas metodologias, seus limites e potencialidades. Só assim promoveremos uma educação de qualidade, que excederá os discursos eleitoreiros e das instituições de ensino.
Porque a leitura e a reflexão precisam exceder os limites da escola, da aula de língua portuguesa e literatura. Ao final da instigante discussão sobre as coleções literárias para a formação de leitores, um aluno nos perguntou nossa opinião sobre a crise do mercado editorial. Livrarias falindo, pequenas editoras fechando, grandes grupos editoriais em déficit. Algo que parece ser uma crise no sentido financeiro é também um sintoma de uma crise mais ampla, de valores, na qual podemos perguntar qual o valor do livro, e, especialmente, da leitura literária, ou mais amplamente, da cultura letrada, no atual contexto social. E não há como falar disso sem falar de uma educação que realmente forme leitores, que continuarão lendo para além dos anos escolares. Editoras nunca terão público suficiente em um país de analfabetos funcionais. Por isso, é preciso que elas se lembrem de seu principal foco: os leitores, seu desenvolvimento e o de uma relação especial com os livros. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A autoritária (?) lista de leitura



Primeira semana de aula. Apesar de o corpo reclamar por acordar tão cedo (levantar antes do sol nascer não é natural, minha gente!), sinto-me feliz em retornar à escola. O abraço carinhoso daqueles que já são meus alunos há um ano ou mais e os olhares curiosos dos alunos novos sempre me trazem alegria e entusiasmo. Mas o dos alunos parece acabar quando a gente fala três famigeradas palavras: Lista de leitura.
Todo ano eu indico de 6 a 8 livros que os alunos devem ler ao longo do ano. Esta carga de leitura não ultrapassa a de 1 livro por mês. Sim, 1 livro em 30 dias. Não me parece muito, ao contrário, eu sempre li mais de um livro por mês desde os meus 12 anos... Mas para vários dos meus alunos, ler um livro por mês parece um fardo terrível, para não dizer impossível!
Geralmente, há dois tipos de lamento: o primeiro é o dos preguiçosos. Aqueles que não querem ler nem uma página por mês, quanto mais um livro. Com esses eu nem argumento. O segundo tipo é o dos rebeldes: geralmente são pessoas que gostam de ler, mas que se recusam a aceitar aquela lista específica de livros. Pergunto: vocês conhecem esses livros? Vocês conhecem esses autores? 99,9% diz que não, mas mesmo assim não gosta. Assim não dá, queridos! Vamos parar com esta história de não gostar de espinafre sem nunca ter comido... A motivação verdadeira por trás desta recusa é: não gostamos simplesmente porque a escola manda e professor diz que é legal. Se é escolar, tem que ser chato. Esse é o raciocínio? Argumento questionável, hein?
Porém, às vezes a gente escuta um argumento melhor e reconhece que ele merece uma resposta. Nesta semana, uma aluna me disse: “Professora, eu gosto de ler, não tenho nada contra ler um livro por mês, leio até mais. Mas por que você não deixa a gente escolher os livros?”. Pela classe, rumores de aprovação que logo viraram uma balbúrdia... Viva a liberdade! Abaixo a ditadura na aula de literatura (até rimou!)! Pelo fim da opressão dos livros escolhidos pela professora! Achei que era melhor argumentar antes que eles continuassem seu ímpeto revolucionário.
Não é de hoje que os alunos me questionam sobre isso. Por um lado, seria muito interessante que os alunos pudessem escolher suas leituras, pois isso poderia aumentar seu interesse pelos livros e sua adesão às atividades propostas nas aulas. Por outro lado, essa experiência poderia limitar muito a atuação do professor no sentido de ampliar as habilidades e o repertório de leitura dos alunos. Como? É simples: há alguns anos, fiz esta experiência democrática, deixei que os alunos sugerissem quais livros leríamos durante o ano. Resultado: uma lista de bestsellers juvenis e histórias em quadrinhos.
Não estou aqui dizendo que estes livros são ruins, principalmente porque o adjetivo “bom” ou “ruim” deve sempre ser seguido da palavra “para”. Ou seja, estes bestsellers podem ser narrativas ótimas, divertidas, mas a maioria dos que foram sugeridos, naquela ocasião, eram livros que não traziam uma linguagem interessante (ao contrário, ela era facilitada ao máximo), nem temas relevantes, que realmente enriqueceriam nossas aulas.
Portanto, em minha defesa de que o professor deve escolher o que seus alunos vão ler, apresento dois pontos principais. Em primeiro lugar, é preciso que os livros desafiem minimamente os alunos para que eles ampliem sua capacidade de leitura. Porém, infelizmente, ao escolher o que vão ler, a maioria dos alunos não quer de forma alguma sair da sua zona de conforto. Os livros que escolho, geralmente, oferecem uma estrutura e uma linguagem que vão obrigar até os alunos que têm o gosto e o hábito da leitura a pensar, a se esforçar um pouco. Pode parecer ruim, a princípio, mas os ganhos são muitos.
Em segundo lugar, considero importante que eu indique livros que meus alunos dificilmente escolheriam. Sim, estou aqui para ampliar o cardápio, apresentar novos sabores. Se nós, professores de literatura, só oferecermos ao aluno o livro que ele mesmo escolheria na estante da livraria, o que estamos acrescentando na formação dele?
Além disso, a sociedade, os PCNs, o ENEM, os vestibulares nos impõem a missão de apresentar aos alunos uma lista de “leituras obrigatórias”, “autores clássicos” etc... Para além da questão da simples cobrança: se um autor ultrapassou seu tempo, teve centenas de edições ao longo dos séculos, não vale a pena a gente conferir o que ele escreveu? Como eu digo para meus alunos quando eles torcem o nariz para o Machado de Assis: “Dá uma chance para o Joaquim Maria, vai...”. Às vezes, os livros que a gente pensa que devem ser uma chatice, só porque foram indicados pela escola, podem trazer agradáveis surpresas!

P.S. – Dedico este texto a todos os meus alunos, principalmente aos leitores apaixonados e questionadores!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Para além do riso

Na semana passada, tive a felicidade de lançar mais um livro. É muito emocionante ver que aquela história, aqueles personagens, aquelas palavras que moravam apenas dentro da minha mente ganharem forma e passearem por aí. Na última terça, falei sobre esse processo de dar forma aos personagens, sobre a "gestação" deles e suas peripécias. Se quiser conferir, é só entrar no link:

https://www.youtube.com/watch?v=XdIEFmBS7Kk

Durante este bate-papo, foi impossível não falar de umas das questões que permeiam a obra: a violência doméstica. Porém, há outro tema relevante na vida de Jéssica não mencionado no hangout (que encerrei falando do quanto eu ainda tinha por dizer sobre o livro): o racismo. Sim, Jéssica é negra. Não, isto não está escrito na primeira página, porque este fato não determina o caráter, a personalidade de Jéssica, embora seja importante na sua identidade e, principalmente, na visão que a sociedade tem dela. Uma sociedade que, obviamente, recusa-se a enxergar-se como racista, e que, por isso mesmo, está longe de superar seus preconceitos. Como eu disse anteriormente, o que não é nomeado não existe.
Mas não estou falando sobre mais um detalhe deste livro, simplesmente. Trata-se, mais uma vez, de uma forma de lidar com aquilo que me consome: quando a realidade me cutuca, escrevo. E eis que, coincidentemente, na mesma semana em que publico um livro que aborda as tantas veladas violências, presencio uma cena que me deixou profundamente chateada, e, mais, preocupada.
Entrando em uma sala de aula, um grupo de alunos ria, gargalhava, e parei para ouvir as piadas que contavam. Nesse momento preciso da história nacional, em que um caso de racismo foi levado à justiça; em que se discute em cadeia nacional o assunto, meus alunos contavam piadas racistas. A que eu ouvi era resumidamente assim: "Um homem estava se afogando, e o salva-vidas era, assim, moreno. Aí ele pulou na água, mas quando chegou perto do homem, ele empurrou o salva-vidas e disse: - Sai, cocô." Risos, gargalhadas. E eu, pasma. Mais que pasma, ofendida. Sim, ofendida, pois embora qualquer um que olhe minha foto diga que sou branca; embora eu jamais tenha sido discriminada diretamente pela cor da minha pele, eu sou um ser humano ainda capaz de se colocar no lugar do outro, ou lutando para não perder essa habilidade, tão em falta atualmente.
Tudo o que eu consegui me perguntar foi: será que estes jovens não assistem televisão? Não estão acompanhando o que está sendo discutido na mídia? E minha pergunta mais angustiosa: será que eles realmente acham que a cor da pele de uma pessoa ser mais escura faz com que ela possa ser comparada a um cocô? Será que eles não percebem que eles chamaram os negros (detalhe: nem se referiram a eles assim; precisaram do que consideram um eufemismo) de "merda"? Será...?
Ah, essa professorinha boba que se aflige por causa de uma piada, podem pensar os pragmáticos. Eu me aflijo. Esse episódio é mais uma bofetada a nos dizer o quão distante estamos de uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. E tenho certeza de que estes alunos não reconheceriam serem racistas. Não, imagina, eu tenho amigos negros. Há pessoas negras na minha família. Isso foi só uma piada, coisa boba... Afinal, o que tem de mais chamar alguém de macaco? Esse é o discurso cordial da maioria dos brasileiros. A minha resposta é muito simples: é "só uma piada" ou "uma coisa normal no estádio" enquanto não dói na nossa pele. É simples assim. Pense em uma criança que ouve desde pequena piadas como essa. Ela vai internalizar, mesmo que inconscientemente, que é uma merda. Ou que só faz merda. Ou que é um animal, um inferior (não foi essa a justificativa para que se usou para se escravizar o negro?). Se o leitor acha que exagero, converse com pessoas vítimas de preconceito racial (é muito fácil, todos os negros o foram, sem exceção). Converse sobre a percepção deles destas falas, destas piadas, dos olhares que eles recebem ao entrar em uma loja cara... se conseguir, pois o assunto não é fácil. É um tabu. Nesse sentido, recomendo também o vídeo abaixo, uma ótima entrevista com o rap Emicida:

https://www.youtube.com/watch?v=n7DcbOpKUw8

Espero que os leitores de "Janelas Abertas" também reflitam sobre isso a partir de algumas situações descritas no livro. Mas, mais que tudo, que essa sociedade que se julga sem preconceitos e sem tabus possa olhar com mais clareza para si própria. E que não se engane: o preconceito é perigoso. A discriminação é uma forma de desumanização, e ao olhar o outro como menos humano, autoriza-se a exploração, a violência, o extermínio. É isso que a história da humanidade nos conta. Afinal, o que tinha de mais em falar mal dos judeus? E retratá-los de forma ridícula e pejorativa nos livros destinados às crianças, na Alemanha de 1930? Todos sabemos o desfecho hediondo desta narrativa. É só trocarmos a palavra "judeu" pela palavra "mulheres" ou "negros" ou "gays" e teremos outras narrativas de violência, pois o a intolerância, o ódio e a violência andam juntos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Eles passarão, eu passarinho"

Última semana de julho - despedida das férias escolares, um novo semestre que chega já com os cansaços acumulados do primeiro, especialmente porque a palavra férias, para a maioria dos professores, não deixa de ser entre aspas... Eu mesma, neste mês, li, pensei, escrevi, e nesta semana, lá estava entre tantos professores no COLE - o Congresso de Leitura do Brasil, que ocorre na Unicamp bienalmente. Um evento querido, que sempre renova minhas energias e esperanças na docência ao ver tantos professores inquietos, relatando suas experiências, projetos, dúvidas e angústias, mas também seus muitos acertos e delícias nessa aventura que é formar leitores na realidade contemporânea.
Mas algo singular marcou o COLE deste ano de 2014: a despedida de autores reconhecidos e queridos. Atipicamente, a Academia Brasileira de Letras está com 3 cadeiras vagas: Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna deixaram este mundo - ou como melhor diria um outro acadêmico famoso, Guimarães Rosa, encantaram-se - nos últimos dois meses. Rubem Alves, falecido no último fim de semana, foi lembrado e reverenciado pelos poetas e amigos Severino Antônio, Régis de Morais e Carlos Brandão. E algo mais especial ainda, para mim, foi minha primeira participação neste evento como escritora.
Além do privilégio de lançar meu livro Embaixo da cama em Campinas, ao lado dos já referidos poetas, de Margareth Park e Tarcísio Bregalda, no dia 23/07, ontem, no dia 24, pela manhã, tive a oportunidade de conversar com o público e contar histórias. Foi um momento muito especial para mim. Comecei, como os poetas no dia anterior, com uma homenagem, mas não para estes escritores que morreram nestes últimos meses. Eu quis homenagear uma contadora de histórias bem menos famosa e muito importante para minha formação: minha avó, Júlia Silvério Correia. Neste mesmo blog, eu já escrevi sobre sua influência sobre meu amor pelas histórias numa crônica denominada "Meu primeiro aprendizado da poesia", lida ontem no COLE.
Tenho em minha sala um daguerreótipo dos meus avós maternos. Para quem não sabe, trata-se daqueles retratos antigos, geralmente colocados em molduras ovais, que eram retocados depois pelo retratista, para inserir cores, e que ficavam com uma coloração meio cinza, meio azulada, muito peculiar. Se minha avó estivesse viva, teria completado, nesta semana, 110 anos. Há 20 anos ela encantou-se. Mas olho sempre para aquele retrato na minha parede, às vezes buscando a coragem que me falta, às vezes imaginando seu olhar de aprovação às minhas lutas e muitas vezes com gratidão. Por ela ter gerado minha mãe e indiretamente, a mim. E por ela ter nos alimentado. Não apenas com o caldo de fubá com couve, os bolinhos de polvilho, os bolos de caçarola - mas por ter nos alimentado com a poesia tão cotidiana das colchas de retalho, dos pontos de crochê e das histórias que ela contava. Minha avó Júlia, minhas tias Teresa, Maria e Manuela me ensinaram a ouvir histórias, e assim ler um pouquinho esse bicho estranho e fascinante que é o ser humano. Por que é isso que está por trás das histórias, sejam elas cantadas, contadas ou escritas; sejam elas boas ou ruins; famosas ou anônimas.
Escrevemos porque somos humanos e porque transbordamos pela palavra. Às vezes, nos bancos das universidades, envergonhamo-nos desta verdade porque nos parece piegas e pouco científica. Queremos nos convencer talvez que a literatura é nosso objeto. Talvez seja para quem não a tem nas entranhas, para quem apenas a analisa e não a vivencia em seu modo de dizer-se e dizer o mundo.
Escrevemos porque nossa humanidade nos faz limitados, e transbordar-se pela palavra talvez nos engrandeça, talvez nos ajude na ilusão que permaneceremos. Júlia, Manuela, Maria e Teresa estão mortas, mas suas histórias - e até o timbre de suas vozes - ecoam no meu pensamento. Rubem, João, Ivan, Ariano (e agora seus sobrenomes não lhes valem, nem quaisquer outras convenções deste mundo) também, mas seus tantos versos, e contos e causos ficarão ecoando no pensamento de alguém, voando por este mundo... Pois como disse outro poeta já falecido, Mário Quintana, "eles passarão, eu passarinho".
Não consigo imaginar o voo que não seja pela palavra.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O maravilhoso-terrível: a maternidade

Não, meu texto não está atrasado. Eu propositadamente deixei passar o chamado Dia das Mães para escrever este texto. Deixei passar o afã da data, os comerciais fofos e todo o apelo comercial para escrever estas ideias que rumino há muito tempo.
Primeiramente porque não deveria ser preciso um dia no calendário para que a gente se lembrasse de expressar gratidão, admiração e afeto; mas, atualmente, infelizmente, tem sido assim para todos nós. E o pior, como temos consciência disso, a indústria e o comércio não deixam de explorar nossa culpa. A mensagem subentendida em muitas propagandas é: "como você não tem tempo para estar com sua mãe o quanto deveria, dê um grande presente para demonstrar o quanto você a ama" - pois nessa sociedade em que números valem tanto, é necessário quantificar o amor. E lembro-me de uma crônica do Veríssimo que coloca de forma hilária este aspecto: "O dia da amante". No início do conto, considerando os lucros do Natal, mas lamentando haver apenas um Jesus Cristo, um grupo de comerciantes resolve criar o Dia das Mães - afinal, quem se oporia? Ser contra o Dia das Mães seria ser contra a própria Mãe, com maiúsculo mesmo, ou seja, contra essa "instituição"!
Mais do que refletir sobre os apelos comerciais dos "Dias do/da ...", eu quero mesmo é falar da "instituição".  Perceba que a palavra instituição, embora sonoramente semelhante, é diferente de instinto. Portanto, a expressão instinto materno revela uma visão da maternidade que me parece equivocada: a ideia de que toda mulher quer ser mãe porque isso faz parte da natureza, é um instinto da fêmea. Se analisarmos os seres humanos como animais que somos, podemos pensar no instinto de procriação, pela necessidade de toda espécie de se perpetuar, mas não necessariamente de ser mãe - o que excede a biologia e se configura em um papel social, construído através da tempo e variável conforme a sociedade, o período histórico, etc.
Desculpem-me, leitores, especialmente leitoras, se esta afirmação é chocante para vocês. Eu entendo, afinal, somos educadas para acreditar que a maternidade é nosso destino natural, se não o essencial. Que sem filhos uma mulher não é completa. E, em uma visão cristã, que lhe estabelece uma "aura de santidade", a mãe é aquela que é só amor, perdão, abnegação: tudo suporta, tudo entrega, nunca pensa em si mesma e sorri com tudo isso. E para terminar essa lista: no imaginário geral, a mãe é vista como um ser assexuado - sua sexualidade já cumpriu sua principal função que é procriar, e sua sensualidade deve ficar oculta, até mesmo porque agora ela tem esse papel de "santa". Mas as mães não são (e talvez não devam) ser assim.
Não quero, com estas afirmações, negar a generosidade, o altruísmo, a responsabilidade que uma mãe (assim como um pai) deve ter para com seus filhos. E isso requer algumas renúncias, obviamente, pois crianças precisam daquilo de que hoje muitos de nós menos dispõem: nosso tempo e nossa atenção. Mas a minha análise discute exatamente o que, na minha visão, oprime as mulheres e as impede de curtirem mais a condição de mães: a idealização da maternidade como a melhor experiência da vida de uma mulher, e da mãe como esse ser sobre humano que descrevi acima. Quantas mulheres não caem nessa armadilha? Diante das propagandas, filmes, novelas que mostram mães embevecidas com bebês bonitos, saudáveis, carinhosos e sorridentes; diante de depoimentos comovidos sobre "ser mãe é a melhor coisa do mundo", algumas mulheres engravidam sem refletir no quanto, a partir deste momento, a sociedade lhe cobrará, quantos problemas ela vai ter que enfrentar e quantos momentos de conflito vai viver na construção de uma relação com esse outro ser que virá dela. Sim, construção, pois, contrariando a ideia de que uma mãe conhece seu filho desde que ele foi concebido, esse ser que habita seu ventre por nove meses é um ser diferente, com desejos, necessidades, personalidade próprios. Quanto mais ele cresce, mais isso se evidencia.
E muito além dos sofrimentos físicos das mães (o bombardeio de hormônios, o parto, a amamentação), há a já referida cobrança. Pois a mãe de verdade, a mãe com M maiúsculo eram as de antigamente, as que viviam para o lar. Antes que os leitores me acusem de exagero, pensem em quantas vezes, em conversas cotidianas e informais, se menciona o fato de tal criança estar aprontando muito, ou estar indo mal na escola, porque a mãe trabalha fora e, portanto, não dispensa o tempo necessário para educar, corrigir, orientar o filho. Percebam: raramente se fala que é o pai que não cumpre seu papel. Por quê? Porque ainda reina na mentalidade das pessoas que esse papel é da mulher. Nunca se exigiu de pais que renunciassem sua vida profissional e social para cuidar dos filhos. Sua obrigação era apenas prover. Hoje, a maioria dos lares brasileiros têm uma mulher como provedora. Mas, se observamos nas últimas décadas essa mudança do papel da mulher na família, o contrário não se observa: no geral, pais não passaram a ser mais responsáveis pelos trabalhos domésticos e pela educação dos filhos já que eles não são mais os únicos provedores da família. Há, sim, homens que assumem estes papéis, mas curiosamente, eles são aplaudidos como os maridos "que ajudam as esposas" - ou seja, o verbo revela que a responsabilidade continua sendo delas: o homem apenas ajuda por generosidade.
A mulher que não renuncia de seus interesses acadêmicos, profissionais e pessoais paga um preço alto por isso - não apenas a cobrança da sociedade, da mídia, da família, mas de si mesma. É nesse ponto que eu afirmo que a idealização da maternidade evita uma vivência feliz da mesma. A mulher que estuda, trabalha ou mantém atividades que não se relacionam com seus filhos diretamente sente culpa, pois, afinal, ela aprendeu e internalizou que deveria ser a mãe perfeita. Ainda que não pense isso conscientemente, ela se pergunta o tempo todo se é uma boa mãe, se o que faz é suficiente e correto para que seu filho seja saudável e feliz. Essas mulheres se exigem muito, e exatamente por não terem optado pela maternidade como full time job (considerando ainda que muitas nem tem essa opção, pois precisam de dinheiro para sustentar seus filhos), precisam provar para elas mesmas e para a sociedade que são boas mães e que fizeram a escolha certa. Isso gera uma ansiedade enorme, e também grandes doses de frustração, pois nem maridos, nem filhos, nem mães são perfeitos. São simplesmente humanos. E o dia a dia das famílias vai muito além daquele divertido comercial de margarina.
Além disso, há ainda outro ponto da idealização das mães que me incomoda: a não percepção de seu papel de opressão em relação às suas próprias filhas, de seu papel de omissão em relação a seus próprios filhos e, consequentemente, em seu papel fundamental na manutenção de uma sociedade androcêntrica e violenta para com as mulheres. É bizarro, mas muito comum, ouvir mães repetindo que dois filhos foram "criados igualzinho, mas são tão diferentes!". Bizarro porque relações interpessoais são únicas - ou seja, a relação que eu tenho com uma pessoa nunca será igual à que eu tenho com outra, pois as afinidades, os sentimentos, as rixas, as relações de poder são únicas em cada relação. Mas quando estas pessoas são filhos, e de sexos diferentes, as diferenças em sua educação, no Brasil, são muito visíveis. Já vi pessoas comemorando por estarem grávidas "de menino" ou frustradas por não estarem; outras falando "Que sorte!" para mães que só têm filhos homens. Já presenciei mães mandando filhas limparem a bagunça que seus irmãos fizeram, enquanto justificavam que "menino é assim mesmo, é mais bagunceiro, né?". Já ouvi mães dizendo para as filhas "se darem ao respeito" e até condenando sua sensualidade, enquanto sorriam ao ouvir que seus filhos eram "terríveis", que "não perdoavam uma", que "pegavam todas as meninas da escola" e pior, já vi mães culparem as namoradas dos seus filhos quando havia uma gravidez precoce, afinal, "como ela não se cuidou?" ou "ela fez de propósito para acabar com a vida do meu filho".
São tantos os exemplos que eu ficaria horas aqui escrevendo essas cenas que parecem do século XIX, mas que acontecem agora, quiçá neste momento em que escrevo. E volto à minha questão: essa diferença de tratamento entre meninos e meninas por suas próprias famílias ensina, nas entrelinhas, o valor de cada um na sociedade, mantendo a baixa auto-estima das meninas, que um dia serão mulheres e, talvez, mães. E que provavelmente, como mães, vão perpetuar essa visão depreciativa das mulheres e sua opressão. Recentemente, em conversa com uma amiga, ela me disse que, quando sua mãe faleceu, ela viu no caixão uma mulher real, enquanto que, para seus irmãos, havia morrido uma santa. E eu desconfio que isso não é prioridade da família dela: conheço homens inteligentes que estudam, leem e analisam criticamente tudo, mas são incapazes de fazer uma reflexão racional sobre suas mães, especialmente sobre como eles foram (e são) tratados de forma tão mais amorosa e benevolente por suas mães do que suas irmãs.
Freud, misógino que era, falava da necessidade de matar o pai simbolicamente em um processo de desenvolvimento saudável, na passagem para a fase adulta. Ele não percebeu talvez que, especialmente para nós mulheres, é mais difícil e importante matar a mãe. E isso não significa não amá-la, não reconhecer sua generosidade, suas renúncias, seus ensinamentos, seu amor. Ao contrário: é perceber que na sua humanidade, e na fragilidade inerente a essa condição, ela significou e significa muito, para o que há de melhor e de pior em nós. É preciso que uma mulher mate o machismo, a subserviência, as neuroses, a depreciação do ser mulher que provavelmente sua mãe, indiretamente, ensinou-lhe. E sobretudo, matar a idealização da maternidade, que impede tantas mulheres de viverem algo tão maravilhoso, mas tão terrível, com mais leveza, mais alegria, e menos culpa. Para que o primeiro adjetivo seja mais forte que o segundo.
 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A falácia da simplificação

Segundas-feiras são tradicionalmente lamentosas - por que o fim de semana passou tão depressa? Imagine-se então uma segunda-feira pós feriado prolongado. Comecei o dia com um certo mau humor, ainda que seja maio, o mês mais lindo do ano, com suas manhãs frescas, azul denso no céu, luminosidade única.
Mas nem o azul de maio me trouxe consolo e liguei o computador para começar meus trabalhos, quando me deparei com uma notícia triste: "Escritora muda a obra de Machado de Assis para facilitar a leitura" (disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cidadona/2014/05/1445858-escritora-muda-obra-de-machado-de-assis-para-facilitar-a-leitura.shtml). Os leitores podem alegar que há coisas muito mais tristes acontecendo agora e que me entristecer com isso parece fútil diante das guerras e das mazelas terríveis pelas quais passa a humanidade. Mas eu explico porque essa notícia é digna de tristeza, já que interrompi outros trabalhos para escrever este texto e partilhar as ideias que começaram a me cutucar sem trégua.
Não é mistério para ninguém que sou apaixonada pela literatura, como escritora e como docente. E amo muito a obra de Machado de Assis. Sem dúvidas, este é um dos maiores autores do nosso país, quiçá de nosso continente e da literatura universal, embora pouco reconhecido internacionalmente. Mas não pensem que o meu texto vai na direção do "é um sacrilégio adaptar o grande Machado". Não se trata disso. Não se trata de incensar um autor canônico, dizendo que, depois dele, não há nada de bom a ser escrito. Nem condenar o autor que "aceita esse trabalho sujo" (conforme eu li em um comentário no Facebook), ou seja, o de adaptar uma obra clássica.
O que me incomodou nesta notícia foi a ideia leviana de que é possível "simplificar um autor", sem "mudar o que ele disse" - afirmações da escritora Patrícia Secco, que lançará em junho uma "versão simplificada" de O alienista. Elas demonstram que Secco não compreendeu muito do fazer literário. Afinal, se ela acredita que, tornando as frases mais curtas e trocando palavras difíceis por sinônimos ela estará, ainda assim, apresentando aos leitores um texto de Machado de Assis, e não de Patrícia Secco, ela não se deu conta ainda de seu ofício. Literatura não admite copidesque (salvo se feito pelo próprio autor, ou com a anuência deste, e preferencialmente antes da publicação): cada palavra tem seu peso, sua substância, seu sentido naquele texto que é único não necessariamente por suas ideias, mas por sua forma. E isso ocorre não apenas em textos de autores canônicos, mas em textos de autores jovens e pouco conhecidos que fazem literatura sem nenhum prestígio, nenhum glamour...
Então o problema não é "profanar" o Machado de Assis, mas a visão rasa, equivocada do conceito de autoria e de construção literária que Secco deixa transparecer em sua fala. Talvez ela não tenha percebido, ao ler Dom Casmurro, que seu enredo, ou seja, os fatos relatados no livro não são inovadores: um homem, ao considerar seu filho parecido com seu melhor amigo, considera sua esposa adúltera; eles se separam e, na velhice solitária, ele escreve um livro para relatar como ela sempre fora dissimulada e interesseira. Quase poderia ser transformado em um twitter, só para lembrar outra bobagem proferida, não há muito tempo, sobre outro clássico da literatura. Mas o que importa neste livro não são as ideias, ou "o que ele disse", mas como disse. O que faz deste livro um dos mais interessantes que já li é a personalidade de seu narrador-personagem, que sutilmente deixa transparecer que o foco daquele livro não é o adultério, mas o ciúme, tão intenso que ultrapassa a própria passagem do tempo (outro tema fundamental da obra). Há formas de simplificar isso? Se os nossos alunos não entendem que a palavra ressaca pode ter mais de um sentido, então o jeito é modificar a célebre expressão "olhos de ressaca", que caracteriza Capitu? Secco realmente acredita que fazer isso não seria "mudar o que ele [Machado de Assis] disse"?
Entretanto, gostaria de ressaltar, de forma bem clara, que não sou contra adaptações. E não estou me contradizendo, conforme os leitores perceberão. Minhas pesquisas, desde o mestrado, trabalham com adaptações, que não considero, necessariamente, como mutilações de obras literárias. O que eu quero dizer é que o juízo de valor não está necessariamente atrelado ao fato de uma obra ser ou não uma adaptação de outra obra anterior, mas na sua qualidade, na sua relevância em si. Obviamente, há adaptações muito ruins, que se constituem em paráfrases simplistas e mal feitas de obras que, no original, são riquíssimas, verdadeiros patrimônios da arte nacional e universal. Essas sim são meras mutilações. Em contrapartida, há adaptações (não apenas literárias, mas plásticas, cinematográficas) que dialogam com as obras primeiras (isto é, àquelas a que fazem referência) - configuram-se em objetos literários, que, embora tenham parte de seu sentido atrelado a uma obra que os antecede, tem autonomia e qualidade artísticas.
Esclareço esse ponto de vista muito particular, ao qual cheguei depois de anos trabalhando como professora e como pesquisadora de literatura infanto-juvenil, para dizer que não acho que fazer adaptação de uma obra clássica é "um trabalho sujo". O problema é a falácia da simplificação, isto é, a crença equivocada de que temos que tornar tudo fácil e divertido para os nossos alunos. A falácia consiste exatamente na ideia de que a diversão só acontece com o que é fácil, e que só faremos nossos alunos gostarem de ler se oferecermos a eles textos que eles compreendam imediatamente. O que não é verdade: crianças e adolescentes são muito espertos, e detestam textos bobos. Na maioria das vezes, eles percebem rápido quando os consideramos ingênuos e pouco capazes e usam isto quando lhes é conveniente. Mas quando os tratamos como pessoas pensantes e apresentamos um livro mais denso, dizendo que ele é maravilhoso, um pouco difícil, mas que confiamos na inteligência e coragem deles para lê-lo, a relação com o livro, com a literatura e com a escola muda.
Outra falácia da simplificação é que ela parece "boazinha", comprometida com a educação, mas, indiretamente, subestima nossos alunos e alcança efeitos inversos aos que propõe. Ouve-se tanto que os adolescentes leem cada vez menos e que, quando o fazem, não alcançam os níveis de compreensão leitora necessários à sua faixa etária e escolar. E como vamos melhorar isso? Oferecendo aos nossos alunos textos cada vez mais simples, com frases curtas e palavras que eles já conhecem? Ou o papel do professor de língua portuguesa e literatura não é ampliar o conhecimento de vocabulário, de estrutura textual, e consequentemente, da capacidade de reflexão e expressão?
Sinceramente, não creio que isso se alcance com o "Eu simplifico isso" de Patrícia Secco. Especialmente porque é ingênuo demais acreditar que é possível simplificar obras que não são complexas apenas na linguagem - esta apenas reflete a complexidade do próprio ser humano e de sua vida em sociedade, temas não só de Machado de Assis, mas de outros grandes autores da literatura nacional, clássicos ou contemporâneos.

sábado, 29 de março de 2014

Sobre cantinas, direitos e ditaduras

Depois de mais de uma década, entrar nas mesmas salas de aula - agora com outro mobiliário, computadores, datashow, ar condicionado... Eram as mesmas salas de aula do IEL, o Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, mas ao mesmo tempo, não eram mais! E essa contradição se explica: não eram só os móveis que estavam diferentes, não era apenas eu que não era mais a mesma (seres mutantes que somos nesse fluxo contínuo do tempo), mas tenho a sensação também de que a universidade mudou.
Não, esse não é apenas um post nostálgico, que vai concluir que "o passado é uma roupa que já não te serve mais", como diria o sábio Belchior. Também não vou enveredar pelo clichê "na minha época era melhor", e sim compartilho algumas reflexões que me assaltam nestes dias em que vemos notícias surpreendentes (ou nem tanto, infelizmente) de pessoas saírem às ruas e se manifestarem na web pedindo a volta de uma ditadura, ou de uma tropa de choque ser acionada dentro de uma universidade pública, a saber, a UFSC, para tratar estudantes como inimigos e criminosos.
Antes que algum leitor pense que a coerência me abandonou de vez, explico-me: entre as mudanças que tenho notado na Universidade Estadual de Campinas, chamou-me a atenção a diminuição significativa do números de cantinas na universidade. Particularmente, chocou-me o fechamento da cantina do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), pela ligação deste lugar com minha história pessoal e acadêmica. Foram muitos os dias em que, sentados nesta cantina, eu e meus colegas não apenas almoçamos e tomamos café, mas lemos textos, discutimos ideias, concebemos projetos que se materializaram em aulas, artigos, dissertações, teses, poemas, contos... Neste lugar, muitas reivindicações tomaram corpo, muitas lideranças se encontraram. E isso me leva a concluir que o fechamento de tantas cantinas (sobretudo na área de humanas e artes do campus) pode ter trazido o bônus de evitar alguns problemas como estes jovens desocupados que iam à Universidade só para fumar maconha, planejar greves e ficar perturbando a ordem.
Como escolhas lexicais não são aleatórias (momento análise do discurso), o pode ter trazido o bônus revela que eu já sei das justificativas oficiais para o fechamento destas cantinas, especialmente a do IFCH: questões sanitárias e estruturais foram levantadas, mas curiosamente não me parece ter havido muita tolerância para que estes locais se adequassem às novas condições. De qualquer forma, o que salta aos meus olhos toda vez que caminho até a cantina da Física para tomar um cafezinho, e vejo vazios aqueles espaços que antes aglomeravam tantos estudantes, é que a Universidade tem deixado, cada vez mais, de ser esse espaço de encontro e debate de ideias para ser um lugar onde as pessoas chegam, assistem suas aulas, e vão para a biblioteca, para o trabalho ou para casa.
Há boatos de que a intenção do fechamento das cantinas é a criação de uma praça de alimentação no Ciclo Básico (praça localizada no centro do campus). Isso me fez lembrar que, no ano em que entrei na Universidade, a cantina do IEL fechou e abriram-se licitações; o então diretor, o prof. Wanderley Geraldi, recusou uma proposta do Mc Donalds, dizendo que fast-food não era o perfil de uma cantina universitária, em que as pessoas não vão só para comer, mas também para estudar e conversar. E depois de tantos anos, parece que esse perfil será esquecido ao se colocar dentro da universidade uma praça de alimentação aos moldes de um shopping center.
Mas o que tudo isso tem a ver com a nova Marcha da Família ou a invasão da UFSC pela Polícia Federal e a tropa de choque? Eu creio que são fatos que revelam a mesma onda neoconservadora que estamos presenciando. Qual a principal bandeira dos que, neste fim de março de 2014, clamam a volta dos militares ao poder (em um anacronismo que dói aos ouvidos, já que eu questiono se as Forças Armadas teriam condições para isso na atual conjuntura)? Eles clamam pela ordem. Diante da corrupção e da ineficiência da educação e da saúde pública, eles clamam pela volta de uma ditadura militar, sem refletir no quanto esta contribuiu para a construção deste estado (e Estado) lamentável. É uma ingenuidade (na melhor das hipóteses) que beira ao risível, pois a qualidade da educação e da saúde pública já não era exemplar entre 1964 e 1985, quando ela atingia bem menos pessoas e não era um direito universal (como foi garantido depois pela constituição de 1988). Da corrupção então, nem se fala! É claro que não havia escândalos de corrupção naquela época, com a existência de um AI-5, uma imprensa calada e um governo que podia, portanto, fazer absolutamente tudo o que quisesse, inclusive prender, torturar e matar pessoas!
 De uma forma messiânica, os que clamam a "volta dos militares" acreditam que haverá um poder ditatorial que será capaz de resolver miraculosamente todos os problemas da nação, do dia para a noite. É notável que a ascensão de governos totalitários tenha se dado em momentos de crise, pois o ser humano adora alguém que resolva seus problemas sem ele precisar ter trabalho (e a democracia dá muito trabalho!!!). Mas a que custo? E aí chegamos no ponto mais perverso: as justificativas para a dissolução de direitos individuais, as torturas e as mortes. Em depoimento dado nesta quarta-feira, o coronel reformado Paulo Malhães disse que o regime militar torturou e matou "tantos quantos foram necessários". Confessou a prática de mutilação dos corpos despejados em mares e rios para, se encontrados, não serem identificados por suas famílias. Seu depoimento é chocante, mas ainda mais chocantes são os comentários que o seguem na página da BBC (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140326_depoimento_coronel_ditadura_jc.shtml).
Comentários que afirmam que estas pessoas torturadas e mortas eram criminosas, inimigas da ordem e da nação, que reproduzem a lógica do próprio coronel: "Não foram presos porque jogavam bolinha de gude ou soltavam pipa". Mas os comentários expostos na webpage não são de pessoas dos anos 1960! São comentários análogos aos que ouvimos hoje de pessoas jovens, para justificar qualquer ato de violência contra os que são considerados indesejáveis ou inadequados ao sistema. Assim, os que se sentem dentro da ordem não se importam que os que estejam fora dela sejam privados de direitos, da liberdade ou até da própria vida, já que eles não são pessoas de bem: não trabalham de forma remunerada de 8 a 10 horas por dia, são os vagabundos que querem discutir política nas cantinas universitárias, são os maconheiros. Se estivessem trabalhando, estariam contribuindo muito mais para que o Brasil se tornasse um país competitivo. Essa última frase, eu ouvi literalmente de um professor de uma faculdade privada a respeito de alguns alunos que se organizavam em um movimento pela melhoria da qualidade do ensino na própria instituição.
E eu me pergunto: é isso que queremos: um país competitivo, com um governo forte? É melhor tomar cuidado com aquilo que se deseja...

sábado, 3 de agosto de 2013

Habitar a cidade

Julho passou como um sopro, ora frio, ora morno, em seus dias curtos. Houve muita vontade de escrever, mas fiquei distante de computadores, empenhada que estava em apenas contemplar paisagens, as conhecidas e as novas.
De férias da sala de aula, resolvi conhecer Campinas. Sim, eu moro em Campinas, há anos, quase décadas. Então parece estranho dizer que resolvi conhecê-la agora. Mas é que não a conheço tanto assim, confesso. Havia muitos lugares ainda por serem conhecidos. E muitos cujo conhecimento ainda foi adiado.
A verdade é que muitos de nós não habitamos as cidades onde vivemos. Habitamos nossas casas, nossos apartamentos, nossos locais de trabalho e estudo, nossos shopping-centers e supermercados, mas não habitamos nossas ruas, praças, prédios públicos. Não caminhamos devagar observando, sentindo o ritmo da cidade, como ela respira. Eu me peguei pensando isso em uma das caminhadas que fazia entre o bairro do Bonfim, onde moro, e o centro de Campinas.
Passei pelo Botafogo, por ruas de casas antigas, com jardins de rosas à frente e senhoras varrendo as calçadas. Passei por praças escondidas no bairro do Guanabara, com crianças brincando e pequenos restaurantes agradáveis onde se podia comer uma comida caprichada por um preço justo. Cheguei ao centro e o ritmo da respiração era outro: muitas pessoas andando, comprando, falando. Na praça em frente à catedral metropolitana, sindicalistas faziam discursos. Alheios, os anjos da fachada em sua imobilidade que se sobrepõe a todas as preocupações mundanas. Descendo um pouco, o Mercado Campineiro, com suas bancas de frutas e um bar delicioso, onde se podia provar chopps de lugares distantes e encontrar os amigos. A conversa sempre boa com a amiga e historiadora Juliana Meirelles foi tão longa que acabou no Café Regina, lugar querido a todos que habitam o centro da cidade. Estar lá é uma experiência que começa pelo olfato: sentir o cheiro delicioso do café torrado ali mesmo. E depois bebê-lo, é claro, bem devagar. A pressa é sempre inimiga da diversão. Depois saímos a caminhar pela praça do Carmo, um céu de azul muito macio envolvia a tarde de sábado. E como se as pessoas todas se soubessem envolvidas por ele, um clima de tranquilidade pairava sobre as mesas, nas calçadas, com pessoas de todas as idades e estilos.
Diante de tantas notícias que nos bombardeiam todos os dias sobre os males da cidade e da a violência urbana, deixamo-nos invadir por  uma insegurança constante, quando não por uma sensação de pânico.  E uma das consequências disso é que deixamos de habitar a cidade. Deixamos de ocupar seus espaços, que são nossos, e com isso, ela se torna cada vez mais degradada e à mercê daqueles que as usam como palco da criminalidade e do vandalismo. Eu adoro andar pela cidade. Ver as pessoas nas ruas, nos lugares públicos, porque isso é que dá alma à cidade. Só o ser humano pode dar sentido a paredes de concreto, a estruturas de aço e vidro.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

As suspeitas intenções (e consequências) do imediatismo

Sente-se um clima de vitória em vários discursos. Depois do povo ter ido às ruas, ter gritado contra o aumento das tarifas dos transportes, dezenas de cidades anunciaram uma pequena redução no valor das passagens de ônibus. Nesta semana, a famigerada PEC-37 foi finalmente vetada por nossos parlamentares, aprovou-se a destinação dos royalties do petróleo para a área da educação e da saúde, anunciou-se a realização próxima de um plebiscito para a tão almejada reforma política e estamos perto de tornar a corrupção um crime hediondo.
Diante de tudo isso, tomadas de otimismo, algumas pessoas declaram que o Brasil mudou, que agora o povo não aceita mais a corrupção e a manipulação, que agora o futebol não é mais o ópio do povo, como sugere a charge abaixo.

Charge publicada na Suíça sobre as manifestações no Brasil. O texto do balão diz: "Isso não funciona mais".


O Brasil tem se transformado, sim. Mas isso não aconteceu em duas semanas, por conta do povo ter "tomado as ruas". Isso vem de um longo processo de educação política, no qual somos ainda tão iniciantes, em uma República de pouco mais de 100 anos que, ainda por cima, passou praticamente 50 deles em regimes ditatoriais.
Digo isso porque a aprovação de tantas demandas públicas nesse curto espaço de tempo me sugere apenas o imediatismo de quem teme o resultado das urnas nos próximos anos (já que agora o brasileiro, de repente, pode passar a ter memória política e levar isso em conta na hora de votar). Figuras públicas e partidos políticos se adiantam em declarar que "finalmente faremos a reforma política", como se eles estivessem lutando por isso há anos. Seria cômico, se não fosse trágico, ver Renan Calheiros e Aécio Neves parabenizando o povo brasileiro por conquistas que eles sempre se esforçaram por impedir ou adiar.
Nada cômico, e também muito trágico, é ver pessoas atacando Lula e sua administração por não ter realizado tais reformas, acusando-o de não ter feito absolutamente nada pelo país. Lula não é santo nem herói, mas é muita falta de conhecimento (ou cegueira ideológica) ignorar as conquistas sociais alcançadas nos últimos 10 anos. Além disso, os presidentes anteriores (não nos esqueçamos que houve 3 mandatos presidenciais antes de Lula chegar à presidência) também não fizeram esforços no sentido de aumentar recursos destinados à educação, muito menos acenaram com a possibilidade de uma reforma política. Ao contrário disso, FHC articulou sua continuidade no poder, comprando votos de parlamentares com dinheiro público para aprovar a lei da reeleição, mas ninguém deu um nome interessante (do tipo "Mensalão") para isso, nem investigou, nem puniu. Então, não sejamos ingênuos. A César o que é de César: um partido que está há 10 anos no governo federal não pode ser exclusivamente culpabilizado por séculos de corrupção e pela manutenção dos privilégios políticos. Nem acusado de não ter feito milagres - já que apenas poderes sobrenaturais seriam capazes de mudar em 10 anos a maioria de sociedade que fez e faz política de maneira escusa ao longo destes séculos, ou seus governantes que, sim, infelizmente, a representa.
E em se tratando deste assunto, talvez o grande câncer da nação, a transformação da corrupção em um crime hediondo, em si, não vai extirpá-la. A maioria da população brasileira, com seu precário conhecimento da nossa legislação, tem o hábito de dizer que, no Brasil, existe criminalidade porque as leis são brandas. O problema não são as leis, em si, mas aqueles que todos os dias buscam maneiras de burlá-las. Aqueles que acham que as regras existem para os outros, e não para eles, que só possuem direitos, e não deveres. E quando digo isso, não me refiro aos deputados, aos peixes grandes, mas a qualquer cidadão.
Não vai adiantar transformar a corrupção em crime hediondo, ou aumentar os recursos destinados à educação, se não houver uma transformação da mentalidade brasileira, ou para ser mais específica, na dimensão que temos da esfera privada e da esfera pública, dos direitos pessoais e dos direitos coletivos. Os primeiros ainda prevalecem sobre os segundos, tanto em nossos pensamentos quanto em nossas ações. E isso faz com que os problemas referentes aos serviços públicos, no Brasil, não sejam apenas de repasse de verbas, mas sobretudo um problema de gestão destas verbas. Aí chegamos naquele ponto que não depende só do presidente, do deputado, do governador, do prefeito, mas das milhares de pessoas que estão transformando as leis e o dinheiro público em serviços. E nesse quesito, estamos mal, muito mal. Vemos pessoas sem gana, que fizeram um concurso público não em busca de um trabalho, mas de um salário. Acho legítimo que as pessoas sejam bem remuneradas por seu trabalho, mas acho triste que alguém almeje um cargo no serviço público não porque ele se relacione com sua área de formação ou de atuação, mas porque ele "paga tantos mil reais". Mais lamentável ainda é alguém que, estando nesse grupo, nem se esforça por fazer com competência e compromisso o seu trabalho, mas faz menos que o mínimo, porque sabe que suas chances de ser demitido são mínimas, quando não são inexistentes.
Esse comportamente dificilmente é taxado como corrupto pela maioria das pessoas com que convivo. Ao contrário, é visto como algo normal, o que me desperta revolta ou desânimo. Uma vez, um servidor da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo me relatou que os diretores das escolas públicas dispõem de uma verba anual para pequenas reformas nas escolas, mas que, visitando uma determinada escola que era famosa por suas péssimas estalações, ele se surpreendeu com a sala da diretora. Em uma escola que tinha goteiras nas salas de aula e na biblioteca, carteiras velhas e desconfortáveis, paredes descascando e problemas no encanamento, a sala da diretora era digna de sair em uma revista de decoração. É um exemplo que diz muito sobre as considerações que fiz anteriormente sobre os direitos pessoais e coletivos.
Longe de mim dizer que a verba destinada à educação é suficiente, óbvio que é preciso fazer maiores investimentos em educação (aumentando o salário do professorado, sobretudo, pois não adianta investir em lousa eletrônica se não há bons profissionais nas escolas). Mas, se não houver uma profunda mudança que faça com que as pessoas enxerguem verbas governamentais como dinheiro público, ou seja, de todos; enquanto as pessoas que lidam com esse dinheiro não se sentirem responsáveis por todos os donos desse dinheiro (em suma, toda uma cidade, estado ou nação), as coisas tendem a continuar iguais.
É por isso que eu penso que, embora as demandas sejam urgentes, as soluções não são imediatas, pois envolvem toda a formação cultural e política de um povo. Incomoda-me o aparente apaziguamento que as resoluções mencionadas no início deste texto podem trazer, ao nos dar a sensação de que vencemos. De jeito nenhum: apenas começamos. A maior criminalização da corrupção, a conquista de mais verbas para educação e saúde são resultados positivos, mas para consolidadar mudanças é preciso que cada cidadão, em sua pequena esfera de atuação, se envolva ativamente. Isso sim é fazer política, com ou sem partido. Vai além das siglas e da culpabilização maniqueísta de algumas figuras públicas.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma tristeza ainda mais difícil

Há menos de uma semana fiz um post sobre as manifestações em São Paulo. É incrível como, em menos de uma semana, tantas coisas mudaram. Na sexta-feira passada, um pesar por ver a truculência com que a PM, apoiada pela mídia oficial, tratava os manifestantes, ativistas e jornalistas. Mas, ao mesmo tempo, uma alegria: a de ver que, depois de décadas, o povo brasileiro tomava as ruas para manifestar sua indignação e exigir melhores condições de transporte público, uma pauta tão importante e que influencia tanto na vida das cidades, na cadeia produtiva, no meio ambiente.
Mas agora, uma tristeza ainda mais difícil toma conta de mim, ou melhor, de nós que acompanhamos com atenção e desconfiança tudo o que tem acontecido. Diante das imagens e relatos transmitidos pela internet, a grande mídia não podia mais negar que era a PM quem estava tocando o terror nas manifestações. E uma grande mudança se operou no discursos. De vândalos e vagabundos, passaram a manifestantes. Grandes emissoras de TV, jornais e  revistas informativas de grande circulação repentinamente passaram a elogiar o movimento, incitando um nacionalismo ufanista que nada fica a dever para finais de copa do mundo. Transmitiram e ainda estão transmitindo à exaustão imagens do povo nas ruas como algo lindo e comovente, reforçando o caráter apartidário das manifestações e sempre reforçando que "alguns grupos isolados" cometiam atos de vandalismo a monumentos e instituições públicos e propriedades privadas.
Obviamente, tais veículos de comunicação dependem da adesão do público. Eles não iam querem ficar mal na foto e passarem por mentirosos e "manipuladores da verdade". Mostraram a truculência da PM e a reconheceram quando não era mais possível negá-la, a fim de se dizerem idôneos. Mas acho que a coisa vai além da mera audiência. O ser mineiro e desconfiado que vive em mim me diz que há algo de muito errado acontecendo.
A mudança súbita do discurso da grande mídia me soa a algo planejado e coeso, ao contrário do que se tornaram as manifestações. Afinal, qual a melhor maneira de desarticular um movimento social que poderia representar algum perigo ao status quo? Infiltrar-se nele, apropriar-se de seu discurso, confundi-lo. É isso que vejo: o Jornal Nacional destes últimos dias foi quase um convite para que os espectadores saíssem às ruas para participar desse "momento histórico". Sem bandeiras de partido, é claro, estamos fartos da política. E esse discurso é a grande sacada desses veículos, comprometida com os poderes vigentes, para desarticular qualquer movimento que possa efetivamente ameaçá-los.
Alimentar a recusa da classe média brasileira contemporânea pela política, com seus argumentos de que não quer se sujar com ela, é muito útil para que novas lideranças não surjam. Se essa classe média realmente acredita que vai se manter "limpa", sinto informar: estamos atolados nessa "sujeira" até o pescoço e nos atolamos ainda mais toda vez que nos omitimos diante dela. A omissão parece uma saída fácil: ao não carregar bandeiras de partidos, parece que o cidadão se exime de responsabilidades sobre os atos de qualquer um deles. Não sejamos ingênuos: a omissão é uma escolha política, é o apoio tácito ao poder já instituído.
Mas louvando as manifestações "sem partido e sem violência", carregando reportagens de um discurso emotivo e triunfante, a grande mídia conseguiu atrair para as manifestações um público afeito a seus propósitos: que se diz "sem ideologias", com pouco conhecimento das pautas que reivindica, e sem sequer noção de para quem deve reivindicá-las. O grito inócuo contra a corrupção aponta para Brasília, saindo da boca daqueles que não conseguem distinguir a esfera de atuação dos poderes federais, estaduais ou municipais e que, portanto, culpabiliza a presidenta de todo e qualquer problema. Que não conseguem perceber que o problema da corrupção está na sua naturalização nas mais diferentes classes sociais e esferas da sociedade.
Sem contar que as manifestações apartidárias proporciona que qualquer partido se aproprie delas em momentos posteriores. Já estamos vendo isso em propagandas na televisão. Oportunamente, o mesmo partido que governa o estado de São Paulo há praticamente duas décadas vai, provavelmente, fazer uso destas manifestações que tentou coibir com mão de ferro, ressuscitando práticas do tempo da ditadura militar, que nunca foram esquecidas nas terras paulistas.
Estou seriamente preocupada com a apropriação destas passeatas, inicialmente tão legítimas, pelos discursos de direita, autoritários e facistas. Esse excesso de bandeiras do Brasil e hinos nacionais cantados em uníssono me arrepiam, mas no mau sentido. É um nacionalismo que embota a reflexão dos problemas e de seus atores sociais. É a mesma estratégia patriótica que precedeu ditaduras em nosso país. Já vimos esse filme, em que muitos morreram no final. Mas por incrível que pareça, há aqueles que expressam saudades desses tempos de "ordem e progresso".
Enfim, não nos deixemos enganar de que vencemos porque prefeituras estão baixando as passagens de ônibus. Não existe mudança se, para isso, empresas estão recebendo isenção de impostos ou verbas de outros serviços estão sendo diminuídas. Quem continua pagando a conta é o povo e quem continua lucrando muito são as empresas de transporte público e pessoas que as favorecem nas licitações públicas. Vi posts no facebook que falavam em "revolução de 2013". E eu me pergunto: que revolução, cara pálida? Que revolução, se nada tem mudado, estruturalmente falando? Isso também me fez lembrar de outros períodos da nossa história que se disfarçaram com o rótulo revolução.

sábado, 15 de junho de 2013

Uma alegria difícil

Dias atrás reencontrei Clarice. Sim, a Lispector. Chamo-a assim, pelo primeiro nome, apesar do protesto de alguns colegas de universidade. E nesse reencontro, proporcionado por uma aluna, que está fazendo seu TCC sobre a renomada autora, me deparei com uma ideia maravilhosa: a da "alegria difícil". É o que declara sobre o que lhe trouxe a personagem G.H: "uma alegria difícil, mas chama-se alegria".
Só essa frase foi capaz de descrever os sentimentos contraditórios que tenho sentido quando vejo os jornais e leio notícias pela internet sobre os protestos em São Paulo. O que eu sinto quando vejo uma imagem como essa:



Enganam-se aqueles que pensam que essas pessoas estão protestando por conta de alguns centavos. Como diz o vulgo, o buraco é mais embaixo. Creio que o povo grita o que tem calado há tanto tempo - e aí está minha alegria. O grito. O grito que desperta. O grito que escancara as injustiças, que portanto não podem mais ser negadas. E por isso, o grito que assusta, amedontra, desconcerta àqueles que querem manter o estado de coisas, seus poderes e privilégios.
Entretanto, ainda há aqueles que insistem em negar: ontem assisti ao depoimento do governador Geraldo Alckmin aos jornalistas. Sobre a ação da PM: "A polícia acompanha as manifestações para proteger o cidadão". Sobre os protestos, afirmou que as manifestações teriam intuito político, não cívico - como se "apenas" protestar pelo aumento de um serviço público de péssima qualidade não fosse político.
Não me surpreenderam as afirmações do nosso digníssimo governador sobre a ação truculenta da PM. Afinal, a PM é subordinada ao poder do estado. O que me surpreende é ver pessoas acreditarem na versão de que os policiais só defenderam a população dos vândalos, dos vagabundos que, ao invés de trabalhar para fazer o país crescer, estão por aí quebrando a cidade. Valei-me, minha Nossa Senhora do Senso Crítico! Só apelando para o divino com essa gente, já que, nestes dias, sites, blogs e redes sociais têm difundido textos e imagens não só de manifestantes, mas de jornalistas que foram agredidos gratuitamente pela PM, que bateu e atirou primeiro. Só não enxerga quem não quer ver. E para quem não viu e quiser ver um pouco, recomendo a página:

http://www.melhorquebacon.com/24-momentos-protesto-sao-paulo/

Mas dizer que as manifestações têm intuito político é o óbvio ululante. Porque como disse Brecht, em seu famoso poema "O analfabeto político", o preço do feijão, e acrescento, da passagem de ônibus, tem tudo a ver com a política. Mas é claro que Alckmin não quiz ressaltar o quanto a população paulistana se tornou atuante; certamente se referiu a isso no mau sentido, como se fosse uma conspiração partidária para abalar o aparente inabalável governo de décadas de seu partido em nosso estado. O que as notícias, vídeos e depoimentos de manifestantes e jornalistas na web têm me mostrado é que podemos supor o oposto. A iniciativa de responder jogando a tropa de choque na população não é nada nova por aqui - haja vista quantas vezes o governo do estado fez isso com o professorado em greves e prostesto desde a época do finado Mário Covas, isso para só falar dos tempos de """""democracia""""". Mas agora a reação truculenta e extremamente autoritária me parece trazer algo de novo: não apenas o intuito de intimidar, de amedontrar, mas de depreciar, de levar ao descrédito. Afinal, manifestações que seguem em ordem e sem violência (como estavam acontecendo antes da chegada da tropa de choque) são perigosas. Podem levar as pessoas não apenas a pensar, mas a acreditar no poder de seus pensamentos e suas vozes unidas.
Acredito que a ação da PM não foi um descontrole de policiais isolados, como vão provavelmente alegar os comandantes da política e da polícia estadual. E sim uma estratégia para reforçar o que já está no imaginário brasileiro: que fazer protestos públicos é coisa de vândalos e de quem não tem o que fazer. E de que o brasileiro tem que continuar cordial e impotente diante das decisões políticas. Afinal, é útil ao poder instituído passar a ideia de que somos um bando de alienados e por isso não vale a pena fazer nada. E se convencidos de que somos vozes isoladas, a inação toma conta de nós.   
Estou triste ao ver e ouvir relatos de pessoas que foram seriamente agredidas e presas. Vi um post no Facebook da cantora Juliana Amaral, muito bonito, em que ela dizia que era impossível cantar diante de tanta violência. Eu também me calo às vezes, com a alma pesada. O silêncio da morte se apodera de mim, principalmente, quando vejo pessoas defendendo a ação da PM, a truculência e o autoritarismo. Mas ao mesmo tempo, eu me alegro ao ver as pessoas na rua. Ao ver jovens oferecendo flores à tropa de choque - como em outros momentos da história. Ao perceber que não somos marionetes.
É uma alegria difícil, mas chama-se alegria.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"O problema são estas biscatinhas..."

A palavra é a única coisa que me resta. Quando o mundo me cutuca, eu tenho que escrever. Mas quando ele esbofeteia, até as palavras fogem. Demora um tempo para digerir realidades tão cruéis e procurar as palavras para falar sobre elas. Mas precisamos falar. O silêncio é a pior coisa. O silêncio é companheiro da morte.
Há alguns anos tenho convivido com G., uma garota de 13 anos. Essa menina sempre me impressionou. Os olhos são de um negro denso e triste. Quando criança me chocava por proferir frases de um ceticismo impróprio para crianças de 8 anos. Foi rejeitada pelas pessoas que a trouxeram ao mundo e que teoricamente a amariam incondicionalmente e a protegeriam de tudo. Mas ao invés disso, foram eles mesmos que fizeram com que G. conhecesse a dor e a violência muito cedo.
Aos 10 anos, precocemente amadurecida, G. já era biologicamente mulher. Já menstruara, já tinha seios, era muito bonita. E aos 11 anos, ela começou a fugir da escola, a passar noites fora de casa. Também foi vista fumando e em companhia de homens. No fundo, penso que G. queria desesperadamente que alguém a percebesse. Quem sabe fazendo tolices? Quem sabe ameaçando ir embora para sempre? Mas só conseguiu mais algumas surras e o veredito, que ouvi dos lábios de pessoas de sua família: "G. se perdeu". Um fato consumado. Eu não me conformava de alguém selar assim o destino de uma criança, de alguém por quem havia tanto ainda para ser feito.
Aos 12 anos, G. engravidou. Agora, aos 13, deu à luz uma menina. Teve muitas complicações no parto por conta de seu corpo não estar ainda preparado para uma gravidez. Passou 10 dias na UTI. Por pouco não morreu. E agora tem uma vida em suas mãos: a pequena H. - o que será delas? eu me pergunto na minha angústia solitária. Quando as visitei no hospital, os olhos de G estavam ainda mais negros, mais densos, um olhar resignado, de quem não espera muito mais da vida.
Eu estava, na semana passada, comentando a história de G. com algumas pessoas. E caímos fatalmente nas estatísticas de meninas grávidas precocemente. E o comentário de umas das pessoas me incomodou muito: "O problema são estas biscatinhas de 10/11 anos que já querem dar nessa idade".
Imediatamente, eu argumentei que a maioria das crianças que manifestam desejo de consumar uma relação sexual adulta, em idade tão precoce, foram crianças erotizadas - ou por serem expostas a cenas de sexo ou vítimas de abuso sexual na infância. Estudos de psicologia afirmam que uma das consequências do abuso ou violência sexual é a hipersexualização das crianças agredidas. Também argumentei que essas meninas, muitas vezes desejadas por adultos, se deixam persuadir pela carência em que vivem: privadas de atenção, autoestima, afeto e carinho, procuram preencher essa lacuna na relação que lhes está sendo oferecida e que, longe de trazer isso, só lhes tirará proveito de seu jovem corpo.  
Mas minha interlocutora não se convenceu. Disse que a realidade não é bem essa. Longe de lhe dirigir uma crítica pessoal, o que faço neste texto é compreender suas opiniões, que creio ser uma visão meio generalizada sobre meninas precoces e seu incorrigível erro de engravidarem antes da hora (como se elas fizessem os filhos sozinhas, como se eles brotassem em seu ventre!).
Vivemos em uma sociedade em que o sexo é estampado na mídia de todas as formas. Longe de um discurso puritano que deseja censurar os meios de comunicação, não penso que o sexo deveria desaparecer como tema, mas penso sobretudo em com ele aparece atualmente. Além de ser banalizada, a sexualidade, sobretudo feminina, é colocada como moeda de troca. Condição de sobrevivência. E estamos falando de algo muito mais velado e perverso do que a prostituição (vista de forma folclórica e tão idealizada em novelas ou minisséries baseadas nas obras de Jorge Amado). Estamos falando de inúmeras novelas, filmes, propagandas em que se coloca o estereótipo da mulher bonita e gostosa, da mulher que consegue o que quer porque é sexy. Em outras palavras, o seu corpo continua sendo comprado, mesmo que ela seja rica, bem educada, que se case - invariavelmente, com um homem rico, bem sucedido, ou ao menos com grandes chances de se tornar assim.
Além disso, no pacote de "como se ensina a ser menina", entra o critério "atrair o macho". Desde crianças, meninas são ensinadas, explícita ou implicitamente, a se vestir, se pentear, se maquiar, se comportar de forma a atrair a atenção do sexo oposto e agradá-lo. Uma análise de alguns brinquedos infantis direcionados às meninas confirmam isso. Cada vez mais cedo, as meninas se parecem mini-mulheres. E nos últimos anos, cada vez mais as roupas para essas crianças (às vezes bem pequenas) se parecem com miniaturas de roupas para mulheres. Não aquelas roupas da minha infância, em que meninos e meninas se pareciam quando vestiam bermudinhas e camisetas, que precisavam acima de tudo ser duráveis e confortáveis, pois eram feitos para crianças que subiam em árvores, jogavam queimada, se ralavam descendo "de bunda" o gramadão da quadra da escola. A gente até colocava vestidos (em dias de festa, principalmente), mas eram vestidos mais parecidos com os das nossas bonecas do que com o da gostosa da novela das nove.
Então eu me pergunto: será que essas "biscatinhas de 10/11 anos" se sexualizaram precocemente sozinhas? Não são elas um produto dessa sociedade que, na falácia da quebra de todos os tabus, não sabe lidar com a sexualidade?
E talvez a pergunta que mais me doa: ao taxá-las de "biscatinhas", não estamos novamente culpabilizando a vítima? Não seria uma variação da perversa ideia de que a mulher abusada é quem provocou o abuso? Não estamos reforçando o que nos foi ensinado desde o mito de Eva: de que a mulher - com seus desejos, sua impureza - é a culpada?
E a derradeira das perguntas: não seria hora de mudar essa mentalidade e, assim, termos um alento de esperança de mudar histórias como a de G.?   

terça-feira, 17 de julho de 2012

A poesia está viva, apesar dos inimigos de plantão

O inverno resolveu dar as caras em Campinas. Mas nem a chuva, nem o céu cinza, nem o ar gelado desanimaram os destemidos professores, escritores e apaixonados pela literatura e pela educação a irem até a Unicamp para mais um COLE (Congresso de Leitura do Brasil).
Ainda bem que as palavras aquecem o corpo, ainda mais quando literalmente ganham corpo. Hoje tive um momento raro de fruição da poesia. Mais do que voz, a poesia ganhou gesto. Os versos de Jeová Santana se levantaram da página com uma força incrível, através de Eliana Kefalás. Há tempos vivo essa verdade: versos foram feitos para dançar. E quando vi esta mulher mais do que declamando, mas vivendo com todos os músculos a poesia de Jeová Santana, não pude me conter em abraçá-la ao final do sarau e dizer: você realizou meu delírio mais profundo como poeta e professora de literatura. Quem dera um verso meu fosse assim tirado de sua casca de papel e tinta, e nascesse para os ares. Quem dera as escolas nos dessem espaço para fazer com que os alunos fruíssem o texto assim, que tivessem "no seio da palavra literária, o gozo", na expressão da própria Eliana, que hoje lançou seu livro: "Corpo a corpo com o texto na formação do leitor literário".
E foi também um grande prazer reencontrar Jeová Santana, esse escritor sergipano que, depois de boas incursões pela prosa, caiu nos braços da poesia - mas penso eu que ele já flertava com ela há muito tempo, pelo que pude conferir dos poemas do livro "Poemas Passageiros", também lançado hoje. Conheci Jeová por uma destas coincidências felizes. Estava sozinha numa livraria da Avenida Paulista, no lançamento de um livro de outro poeta, Fábio Weintraub. Estava na companhia apenas do livro de Fábio quando Jeová puxou conversa, e eu logo percebi que ele não era um paulistano. Não, não foi o sotaque, foi mesmo o gesto de conversar com um "estranho", tão incomum em uma cidade tão grande e tão apressada. Com a mesma simpatia e generosidade desta conversa, Jeová me enviou seus livros, "A Ossatura" e "Inventário de Ranhuras", meses depois. Agora estou aqui com "Poemas passageiros" em mãos, mas como uma criança que come um doce bem devagar para durar bastante, quero ler bem lentamente, um poema por dia. A poesia desacelera a gente. Pede tempo, atenção aos seus detalhes, seus caprichos. Não se pode ler poesia com pressa. A pressa é inimiga da diversão.
Para quem perdeu o lançamento hoje, vocês ainda tem uma chance de conhecer o poeta antes de que ele volte para as terras nordestinas. No sábado, 21/07, haverá o "lançamento paulistano" do livro, na Livraria da Vila. O convite está aí. Não percam!


Como disse Jeová, declamando seu mais recente poema (ainda inédito), "a poesia não corre risco de vida ou de morte, apesar dos inimigos de plantão". Então vamos ao encontro dela, sempre!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O fantástico (?) depoimento de Xuxa

Disseram os astrólogos que a posição dos planetas e um eclipse solar trariam a este domingo, 20/05/12, uma energia muito forte e singular. Teria sido isso que o levou a apresentadora Xuxa a revelar em cadeia nacional, depois de décadas, os abusos sexuais que sofrera na infância? Provavelmente, a declaração da ex-rainha dos baixinhos afetou mais os lares brasileiros do que o contexto astrológico, mas, brincadeiras à parte, o episódio levanta discussões sérias. 
A figura da apresentadora é bastante controversa. Suas declarações geram desconfianças: seriam um golpe de marketing para trazer a figura de Xuxa para as manchetes, agora que sua popularidade declina gradativamente? Seria um golpe da imprensa para afastar a opinião pública dos escândalos políticos atuais?
Entre as controvérsias, temos que considerar o caminho longo entre Maria da Graça e Xuxa, talvez cheio de concessões éticas em nome da conquista da fama e do enriquecimento (tão comuns a tantas pessoas, mas nem todas malhadas pela opinião pública). Iniciando sua carreira como modelo, Xuxa estrelou filmes eróticos e posou nua para revistas. Ainda quando se tornara apresentadora do programa infantil "Xou da Xuxa" (para engulhos dos defensores da boa ortografia), permaneceu um grande apelo erótico sobre sua imagem, em figurinos que aliavam shorts curtíssimos a botas de cano longo; em capas de discos em que a apresentadora aparecia numa piscina com pétalas de rosas, com ombros nus, ou em posições que evidenciavam seu traseiro ou suas belas pernas.
Não, longe de mim querer apedrejar uma mulher por usar seu próprio corpo (afinal, ele lhe pertence) para seu usufruto e sustento. Para mim, o que gera desconfiança mesmo é o fato de Xuxa e a TV Globo terem tentado apagar esse passado. Erotizar sutilmente a figura da apresentadora para aumentar a audiência do programa e a venda de discos, tudo bem, mas filme pornô é demais. Porém, apesar dos esforços para fazerem todas as cópias do famigerado "Amor, estranho amor" desaparecerem, todos eles se tornaram inúteis depois que o Youtube e outros sites de compartilhamento de vídeos passaram a existir.
Este filme, sobretudo, causa polêmica porque Xuxa contracena com um menor de idade. Cenas de conteúdo erótico com menores são qualificadas como crime pela lei brasileira. E também como pedofilia (embora essa questão é mais complexa: pode se considerar um garoto de 16 anos, na contemporânea sociedade brasileira urbana, uma criança?). E aí está a grande controvérsia: a "rainha dos baixinhos", benfeitora da infância, protetora das crianças... pedófila? E agora, vítima de abuso sexual na infância e adolescência?
É fácil atirar pedras em alguém com essa biografia, e foi o que mais vi em blogs, sites e redes sociais nesta semana, depois do depoimento de Xuxa ao programa Fantástico, um clássico de domingo nos lares brasileiros. Mas o que mais me chamou a atenção nestes comentários foi a lógica de que ela não tinha qualquer moral para falar de abuso sexual, pois ela havia feito filmes pornográficos. Um pensamento perigoso, que mais uma vez evidencia um valor arraigado em nossa sociedade: a de que a mulher que expõe seu corpo e que o usa como bem entender perde o direito de exigir respeito a ele. Em outras palavras: se ela usa roupas curtas, é "fácil", então qualquer um pode pegar, usar, sem precisar de autorização. Se ela estiver bêbada e embaixo de um edredom, então, nem se fala (só para lembrar outro lamentável episódio envolvendo a rede Globo neste ano...).
Não sou fã de Xuxa e, ao contrário, considero sua atuação na televisão e na cultura brasileira em geral lamentável. Nunca entendi como uma pessoa com voz tão irritante pôde gravar e vender tantos discos. Mas, apesar disso, acho ainda mais lamentável que, diante de uma denúncia pública de abuso sexual (sem entrar no mérito da veracidade ou não deste depoimento, nem de suas supostas intenções mercadológicas ou políticas), pessoas venham a dizer que ela não tem o direito de se sentir violentada por ter sempre sido uma pessoa imoral (lê-se sexualmente apelativa). Quantas atrizes no Brasil não fizeram pornochanchadas entre a década de 70 e 80? Cláudia Raia, Maitê Proença e tantas outras fizeram tais filmes e nem por isso devem ter menos direitos e menos respeito como cidadãs.
Enfim, há de se levar em consideração um aspecto positivo: quando uma pessoa pública, uma celebridade, aparece na televisão denunciando crimes sexuais, isso serve como exemplo para que outras mulheres o façam. Sabemos como essa questão é difícil e delicada: a vergonha e o medo ainda silenciam milhares de mulheres que sofrem violência doméstica todos os dias. Ainda que seja encenação, o depoimento de Xuxa trouxe uma frase relevante: Não contei para o meu pai porque ele não acreditaria em mim (ou algo assim, não lembro da frase ipsis litteris). Quem sabe isso não sirva como um alerta para pais prestarem mais atenção em seus filhos, averiguarem melhor o que ocorre dentro de suas próprias casas? 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Suporta-se com paciência a cólica da próxima

O dia 12 de abril de 2012 deverá ficar marcado no calendário das conquistas dos direitos das mulheres neste país: ontem, depois de 8 anos em tramitação na justiça, a interrupção da gravidez de feto anencéfalo deixou de ser considerado como aborto e, portanto, como crime. A decisão obteve 8 votos a favor e 2 votos contra, no STF.
Particularmente, considero muito fácil compreender o quanto essa decisão é justa, já que livra mulheres do que pode ser considerado uma tortura. Os incômodos e sacrifícios de uma gravidez são suportados por uma mulher como sacrifício em prol de outra vida, acalentado pela esperança de ver nascer o filho (quando desejado, obviamente). Exigir de uma mulher que carregue em seu ventre, durante nove meses, com os riscos inerentes de qualquer gravidez, um ser fadado à morte é torturá-la. Como bem disse o ministro Ayres Brito, isso seria martírio, e martírios são voluntários. Não devem ser impostos por lei.
E por falar nas declarações dos ministros ao justificarem seus votos contra ou a favor, chama a atenção uma outra frase do próprio Brito: se os homens engravidassem, a interrupção da gestação de fetos anencéfalos estaria autorizada "desde sempre". Ela me remete ao famoso dito popular "Pimenta nos olhos dos outros é refresco". Ou como diria Brás Cubas, de forma mais sofisticada, "Suporta-se com paciência a cólica do próximo". Neste caso, da próxima: considerando que a maioria dos legisladores são homens, era simples que eles exigissem que as mulheres se sacrificassem e levassem adiante a gestação de um feto praticamente natimorto, o que certamente gera danos emocionais indeléveis. Não doía no corpo deles. Talvez isso também explique, ao lado das crenças androcêntricas e cristãs arraigadas em nossa sociedade, a morosidade que envolve qualquer votação que envolva questões relacionadas à descriminalização do aborto.
Mas os leitores podem alegar que muitas mulheres são contra a decisão do STF; que muitas delas se deslocaram à Brasília para fazer passeatas, protestos, sem falar daquelas que, em suas comunidades e pela internet, fizeram inumeráveis petições públicas e abaixo-assinados em repúdio à possibilidade da "legalização do aborto de anencéfalos" - expressão que por si já expressa a visão destas pessoas sobre o caso. Respeito essas mulheres heroicas, a maioria religiosas, que acham que levar a gravidez até o fim é um destino, é uma missão. Elas têm o direito de pensar e vivenciar isso, bem como defender publicamente suas posturas. Entretanto, como vivemos num Estado laico e democrático (ao menos na teoria), elas não podem, por conta de suas crenças, impedir que outras mulheres tomem uma outra decisão, a fim de pouparem-se, a si e a suas famílias, de um grande sofrimento.
Mas os grupos religiosos não têm voz apenas fora do Congresso Nacional, ou do próprio STF - eles se fazem ouvir dentro destas instituições (e de forma que julgo cada vez mais perigosa). Não reforço o chavão marxista de que "a religião é o ópio do povo", mas é preciso que as instituições religiosas percebam os limites dos seus templos, que reconheçam que nosso país é diverso: possui pessoas de inúmeros credos e até de nenhuma crença. A decisão do ministro Marco Aurélio de negar a participação de grupos religiosos no plenário do STF durante o julgamento foi, a meu ver, muito sábia. Plenário não é púlpito. Neste sim as religiões devem afirmar seus dogmas e princípios para condenar a prática do aborto (como o fazem, independente da circunstância em que ele ocorre).
Lamentável o argumento de Gilmar Mendes ao condenar essa decisão, considerando-a como "faniquito anti-clerical", sugerindo que, daqui a pouco, talvez tenhamos a "supressão do Natal do nosso calendário". O Natal é uma unanimidade, ministro, inclusive porque alavanca o comércio. Podemos dizer que, por parte dos grupos religiosos, a recusa cega e indiscutível da descriminalização do aborto também é. Portanto, para que chamar ao debate um grupo que não quer debater? Que considera a bandeira da "Defesa da vida" sem questionar o que é vida, de quem é a vida e de que forma e para que ela está sendo "valorizada"?

quinta-feira, 8 de março de 2012

Homenagens

Hoje à tarde, quando passei pela portaria do prédio onde moro, o porteiro, Seu Jair, super gente boa, veio me dar um abraço e disse "Parabéns!". E eu respondi, realmente surpresa: "Parabéns por quê, seu Jair?". Ele sorriu e disse: "Porque você é mulher, hoje é o seu dia". E eu, contrariando toda a sua gentileza, respondi: "Que bobagem, seu Jair. Eu nasci assim, então isso é mérito da natureza, e não meu".
Desculpa, seu Jair, o senhor foi muito gentil, e sei que ficou espantado com a minha resposta. Uma vizinha que passava também olhou estranho. Afinal, as mulheres adoram ser elogiadas e ganharem flores nessa data. Mas eu não me derreto, não. O que adianta ganhar flores e elogios (a maioria tão clichês que dá náusea) e não ter a resolução dos velhos problemas? Ainda ganhamos menos do que os homens para exercermos as mesmas funções. Os níveis de violência contra a mulher ainda são chocantes (segundo Organizações Internacionais, de cada 4 mulheres, uma já foi ou será vítima de violência sexual durante sua vida). A distribuição de riqueza entre homens e mulheres, ao redor do mundo, ainda é extremamente desigual. E, dentro dos lares, mulheres acumulam jornadas de trabalho, se desdobram para sustentar e educar os filhos e, se estes se disvirtuam e se tornam pessoas de índole duvidosa, todos se lembram de cobrar a mãe que criou mal, mas dificilmente se lembram do pai que abandonou, ou negligenciou a educação dos filhos.
Desculpem o post meio mal humorado, mas não estou vendo muitos motivos para comemoração.
Mas deixo aqui um poema para as minhas companheiras - poema este que foi compartilhado no facebook por um homem, meu amigo Pedro Marques, que, acredito, é um verdadeiro admirador das mulheres: