sábado, 12 de março de 2011

Verdade provisória

Era dia do seu aniversário. Um dia estranho, no qual ela se obrigava a parar para pensar na passagem dos anos. Para concluir que era como se eles não passassem. Ela se sentia a mesma, exatamente o bebê que gostava de colo, a menina que gostava de doces, a adolescente que gostava de beijos, embora fosse agora a mulher que sentia algumas amarras aos seus desejos e o peso das rotinas.
Era igual também seu amor aos amigos, aos abraços, aos presentes, aos brindes. Há decadas os recebia das mesmas pessoas, com alegria e gratidão sinceras.
Mas naquele dia, entre tantos telefonemas, sentia falta de um. O mesmo que não viera no ano anterior. Ela olhava a caixa do correio, a caixa de e-mails, procurava uma chamada perdida no celular. Era a esperança de que a ausência do ano anterior tivesse sido um lapso. Um esquecimento perdoável. Embora, antes, ele nunca se esquecesse, mesmo que estivesse do outro lado do mundo.
O dia e a esperança acabaram. Ela se sentou sobre seus pensamentos, lembranças. Em sua memória, apareceram dois amigos que se abraçavam em frente a um portão. Ele disse: "Eu te amo". Ela se sentiu especial e eterna. Ela ainda não sabia que aquela era uma verdade provisória.
Mas agora ela entendia: quando ele disse "eu te amo", queria dizer "o que sou neste momento ama o você de agora". Ele não disse que amava seu vir-a-ser. Ele não disse que amaria a sua continuidade modificada. Como ser em transformação, ele deixou de amá-la.
Conclusão inútil, que não aliviava em sua teimosa mania de continuar amando...

terça-feira, 8 de março de 2011

A Mulher e os Dias

“Ele então pensou com admiração naquela moça que tinha a alma tão ao alcance dela mesma”.
(Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma).

Datas comemorativas, muitas vezes, são meio vazias, e não posso deixar de pensar nisso quando chega o Dia Internacional da Mulher e vejo propagandas institucionais dizendo sempre as mesmas coisas. Longe de mim achar que as mulheres não merecem homenagens. Sim, elas merecem - não por simplesmente terem nascido mulheres,  mas por terem se formado mulheres inconformadas com seu papel secundário num mundo masculino. 
Mas não é propriamente esse inconformismo que é homenageado nas propagandas. Geralmente, nos comerciais de TV, aparecem cenas de mulheres rindo entre amigas, entrando em igrejas vestidas de noiva, cozinhando ou embalando filhos - ou variações dos papeis de amiga, esposa, dona de casa e mãe. Essa é a imagem do ser mulher. Não que isso não faça parte das nossas vidas, mas mulheres também fazem vestibulares, entrevistas de empregos, pesquisas em universidades; também sobem em palanques, são aprovadas em concursos e eleições; são delegadas, juízas, caminhoneiras, mecânicas, engenheiras. Há mulheres de todos os tipos, e isso não inclui só as diferenças entre casar de véu e grinalda ou só no civil, ou apenas ir morar junto com o namorado - como sugere uma recente propaganda de uma loja de departamentos.
As mulheres fizeram muito no último século, no Ocidente: conquistamos direito ao voto, à escolha de nossos maridos, aos estudos, à vida profissional. Foram mudanças difíceis, lentas, fruto de luta daquelas que se opuseram a ser apenas um bibelot - bonito, mas oco e sem utilidade. Todas estas conquistas dão a alguns a impressão de que não há mais opressão às mulheres, que elas são tratadas com igualdade em nossa sociedade.
Basta olhar para além do dia 8 de março para perceber que isso não é verdade. Basta olhar o dia-a-dia, o cotidiano de milhares de mulheres, especialmente fora dos grandes centros urbanos, para ver que a realidade está muito distante desse patamar. É que as mulheres fizeram a revolução apenas da porta para fora.
Dentro dos lares, as coisas mudaram muito pouco. As mulheres continuam sendo as "rainhas do lar", que de fato deveriam ser chamadas de "plebéias do lar" porque trabalham insanamente dentro deles, mesmo que já tenham, assim como seus maridos, vivido um exaustivo dia de trabalho fora de casa. O trabalho doméstico e o cuidado com os filhos continua sendo visto como uma responsabilidade feminina na culltura brasileira, ainda que a mulher tenha também acumulado responsabilidades profissionais e financeiras.
Além disso, as coisas também mudaram muito pouco em relação à sexualidade. A mulher continua não sendo dona de seu corpo. Para que ela seja considerada decente, "honesta", como dizia o nosso antigo código penal, seu corpo precisa pertencer a um só homem. Ela não pode utilizá-lo simplesmente para o seu prazer, descompromissadamente, e continuar a ser tratada com respeito. E o mais curioso disso tudo é que as primeiras pessoas que irão desrespeitar uma mulher, caso ela resolva habitar a única propriedade real de um ser humano nessa vida - seu corpo! -, serão outras mulheres. Serão elas que jogarão os primeiros insultos (já que não se permite mais por lei jogar pedras): oferecida, sirigaita, vagabunda, piranha, puta... (se eu escrever todos os lisonjeiros adjetivos utilizados nesta situação, ficaria horas aqui).
As coisas não mudaram da porta para dentro porque as mulheres se oprimem entre si: continuam defendendo e difundindo ideias e comportamentos que reforçam sua dependência e menor capacidade em relação ao elemento masculino. Elas reforçam, por falta de consciência e reflexão, na maioria das vezes, seus menores direitos à liberdade, ao prazer, à igualdade, à plena realização como ser humano.
Muitas vezes eu já fui criticada por pensar e dizer as coisas que eu estou escrevendo agora. Eu já ouvi em tom muito pejorativo o adjetivo "feminista" dirigido a mim. Eu não gosto de rótulos. O que me considero é uma mulher que analisa o mundo em que vive, em muitos aspectos, inclusive este de que trata este texto. Se isso é ser feminista, obrigada. Mas creio que a imagem da feminista bigoduda, mal amada, fanática, inimiga dos homens é a mais comum. Felizmente, não me considero nada disso. Sou feminina, gosto de rosa, de sapato de salto, de maquiagem, de vestidos, de homens, mas também de livros, de finanças e de discussões políticas.  Será que denegrir a imagem de mulheres que refletem sobre seu lugar no mundo já não é uma forma de opressão das mulheres contra si próprias?
Eu me considero uma mulher que busca sua alma: quero, como a personagem Olga, de Lima Barreto, tê-la ao meu alcance. Para mim, isso significa me conhecer, estar ciente das minhas potencialidades e dos meus desejos, e realizá-los. É isso que eu desejo às mulheres nesse dia 8 de março de 2011, mas também em todos os outros dias: que busquem suas almas e a tenham ao alcance de si mesmas. Daí talvez alguém diga em relação a vocês uma frase de que tanto gosto, de uma canção popular: "Ela é livre e ser livre a faz brilhar". 
Em especial, gostaria de homenagear no fim deste texto algumas mulheres maravilhosas: Júlia (minha finada avó, que teve a coragem de se separar do marido ainda na década de 50!), Helena (minha mãe, que me educou para ser uma mulher independente), Neusa (minha tia, que não deixou que a idade e o julgamento alheio a impedissem de fazer planos de solteira aos 50 anos), Sara (minha irmã, que busca exaustivamente sua própria alma - não é fácil!), Ludmila (filósofa de longos cabelos, "a mulher que caminha sobre a copa das árvores"), Vanessa e Juliana Meirelles (amigas corajosas, inteligentes, donas de suas vidas). E muitas outras mulheres que eu gostaria de citar aqui, mas antes que esse post vire uma Bíblia, é melhor parar...
 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amanhecer

A manhã nasce e me comovo ao contemplar a cidade vazia e quieta. É domingo e todos dormem, exceto eu e os pássaros. O sol se deita devagar sobre os telhados, como se não quisesse fazer barulho, como se não quisesse brilhar demais e acordar os trabalhadores, deuses que constroem esse mundo e que merecem descansar no sétimo dia.
Apenas as árvores quebram a imobilidade da manhã, mexendo-se lentamente no vento fresco, se despedindo da madrugada. Não há nenhuma janela aberta, nenhuma luz acesa, nem os cães latem. Somente em minha cozinha o cheiro do café desperta os sentidos. O gosto amargo e quente, amigo de todas as manhãs, me acompanha na contemplação da cidade adormecida.
Mas de repente um carro passou na rua. Um carro veloz e barulhento. Depois um cão latiu. E finalmente uma janela se abriu.
E a manhã não era mais apenas minha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Reflexões a partir da minha janela - parte I

Um vento soprou bem forte e varreu a chuva que se formava. Ainda vejo pela janela os resquícios da ex-tempestade - algumas nuvens cinzas que ficaram para trás, insistindo ainda em ameaçar a tarde de sol que adentra a noite no horário de verão.
Penso que às vezes a vida é assim: grandes tempestades se anunciam. A gente sofre por antecipação, humanos tolos que somos. "Mas eis que vem a roda vida e carrega" a tempestade pra lá, parodiando Chico Buarque. Mesmo assim ficam as nuvenzinhas teimosas. Aquela sensação de que o problema não pode ser um aborto, morrer antes de nascer, se resolver antes mesmo de dar aquela dor de estômago. Aquela sensação de que o vento pode trazer a tempestade de volta.
Aí não se aproveita o sol que ainda resta, porque a gente fica pensando na tempestade que podia ter caído.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Refém das personagens

É sempre bom falar de literatura. Sempre! Hoje eu estava conversando com uma pessoa e me empolguei. Chegou uma hora que eu disse para ela: "Eu acho que esse asssunto está chato para você". Ela sorriu amareladamente e disse: "Só um pouquinho!". Ah, o diminutivo! Como um "inho" parece amenizar uma ofensa, uma palavra desagradável, uma situação assustadora. Enfim, sem diminutivos, eu disse: "Acho que é interessante só para mim!".
Interessante é pouco. É um assunto que me absorve completamente. Especialmente quando, além de ler, estou escrevendo. Agora estou criando uma peça de teatro. Na verdade, estou criando esta peça há anos. Há anos eu convivo com estas personagens. Mas é ao longo do tempo que elas me revelam seus dramas, seus segredos. É como se fosse um novo amigo que você encontra e que só aos poucos é que conhece. Uma personagem nunca se forma num único dia, para mim. As minhas (se é que posso chamar de minhas, às vezes tenho a impressão de que, assim como os filhos, nós parimos personagens para o mundo!) demoram anos se desenvolvendo. E num belo dia, olho para elas e me dou conta de que elas cresceram. Amadureceram e estão prontas para desempenhar seu papel.
E nesse dia elas me sequestram. Viro refém delas, que me atrapalham fazer absolutamente tudo a não ser escrever suas peripécias, seus sentimentos, suas falas, seus silêncios. Nesse momento é Malu - a personagem da peça. Ela não me deixa em paz, às vezes no meio de uma conversa me lembro de uma frase que Malu diria. Às vezes estou tomando banho e escuto Malu dizendo que seu segredo deve ser revelado no final do segundo ato, antes, é cedo demais...
Tenho certeza de que Malu está aqui agora me dizendo que, ao invés deste post, eu deveria estar finalizando o primeiro ato, depois da cena em que ela faz sua entrada, nada triunfal...

sábado, 8 de janeiro de 2011

O Big Brother, o sonho e a realidade

Nesta semana, achei notável o número de programas, artigos e posts sobre o programa "Big Brother Brasil". Na TV paga, programas de "aquecimento" para a nova edição, que estréia nesta terça feira, mostravam melhores momentos das edições passadas. Na internet, textos que apresentavam novos participantes e elogiavam o programa, sem dúvida um sucesso de audiência, mas não uma unanimidade, já que outros o criticavam. E ainda havia alguns textos interessantes que criticavam os críticos, chamando-os chatos, enrustidos - como se fosse impossível não apreciar um programa tão divertido e para alguns edificante, já que um dos posts afirmava que o BBB apenas "expõe o ser humano como ele é", o que instigaria a reflexão.
Particularmente, fico contente com as opiniões divididas. Polêmica significa que as pessoas ainda pensam (ai, que alívio!!!) e que o fazem de maneira diversa. Acho o BBB um fenômeno no mínimo interessante. O que leva as pessoas a se empolgarem tanto com ele? O que leva as pessoas a se envolverem apaixonadamente, gastarem tempo defendendo ou atacando participantes na internet, votarem milhares de vezes em seus "desafetos", assinarem canais para assistir horas e horas do cotidiano exposto das pessoas? Se a gente parar bem pra pensar, o adjetivo interessante pode ser substituído por bizarro.
Há algumas hipóteses que eu formulei para mim mesma - por favor, não sou socióloga e não estou fazendo grandes elucubrações acadêmicas! São hipóteses que eu penso aqui comigo mesma, sem citar Marx, Weber, Elias, Castel, Baumann ou Jesus Cristo!
Uma delas é que o Big Brother representa para milhões o sonho de fama e dinheiro imediatos. A primeira empolgação necessária é a dos participantes, que enviam seus perfis e vídeos à emissora. Creio que a maioria, senão a totalidadde deles já foi apenas um expectador empolgado, seduzido pela ideia de se tornar rico e famoso apenas expondo sua própria intimidade. Um trabalho considerado talvez fácil para muitos. O que o Big Brother expõe, além da vida de seus participantes, é um traço lamentável da nossa sociedade: a busca de fama e dinheiro acima do mérito, a confusão entre artista e celebridade. Dá-se atenção demais a pessoas que não deveriam ser notáveis porque não têm muito a acrescentar.
Essa exibição, chamariz do programa, que incita a curiosidade natural de todo ser humano pela vida alheia, não é, em minha opinião, o que há de pior, embora também não veja nada de positivo nisto. O pior é a crença das pessoas de que elas estão vendo "a realidade". O ser humano "como ele é". Essa é a minha segunda hipótese de sucesso do programa. Mas nunca deixo de pensar que, se aquelas pessoas foram tiradas de suas vidas pessoais, confinadas em uma casa e postas em frente a câmeras, já se constrói um contexto cênico. As pessoas se tornam atores, ou como elas gostam de dizer, jogadores. Elas criam um personagem (quanto mais bizarro ou polêmico, mais sucesso junto ao público) e atuam. E se alguns alegam que é um programa real porque não existe roteiro, personagens e enredo prévio, eles se definem ao longo do programa, já que há uma edição das cenas e até mesmo inserção de trilha sonora em alguns momentos. Em suma, há recursos da teledramaturgia no recorte que se faz da realidade.
E com essa conclusão chego à terceira e derradeira (sei que isso deveria ser um post, não uma tese!) das minhas hipóteses: o BBB faz sucesso porque, com esses recursos teledramatúrgicos, os expectadores estabelecem uma relação de indentidade com os participantes. Em quantas edições já não houve a constituição da "turma do bem" e da "turma do mal" dentro da casa? Esse maniqueísmo move as pessoas. Elas torcem pelo perfil que elas assumiriam se estivessem no jogo.
Eu não critico pessoas que assistem ao programa, embora eu não seja uma espectadora assídua nem o ache propriamente divertido. Tenho amigos inteligentes, que leem, pensam, são até intelectuais e pós-graduandos, e que assistem ao BBB e adoram. Para mim, isso não é sinônimo de burrice ou falta do que fazer. É só uma escolha. Então, por que criticar as pessoas que não gostam dele? E não é por causa das razões "sociológicas", nem porque eu critico sem nunca ter assitido. Eu não gosto pela mais simples das razões: há coisa mais tediosa do que a mesmice, a mediocridade exposta?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sem promessas

Ano novo! Nem sempre nossa vivência ao longo do ano justifica o uso desse maravilhoso adjetivo. Então porque insistimos tanto em usá-lo?
Uma pessoa me disse no dia 31 de dezembro: "É, mais um ano termina... A gente faz um monte de promessa pro ano que vem mas não cumpre nem metade do que pensou por ano novo. Continua tudo igual".
Achei esse comentário triste, não pelas promessas não cumpridas, mas pela sensação de que continua tudo igual. Mudar é tão importante...
E por mudança não estou me referindo a coisas apoteóticas, a reviravoltas radicais que só acontecem nas comédias românticas hollywoodianas e nas novelas globais. As mudanças podem ser muito pequenas e silenciosas. Às vezes a gente até demora para se dar conta delas, de tão discretas elas são - não chegam de salto alto mas de chinelas de quarto, de modo que não ouvimos seus passos e não vemos sua chegada, e só nos damos conta delas quando bem instaladas dentro de nós. São essas mudanças que eu desejo para 2011.
Em toda passagem de ano eu reverencio a vida: eu adoro os fogos, o champagne, as roupas brancas, as calcinhas de diferentes cores atraindo diferentes benefícios, a lentilha para trazer prosperidade (e milhares de outras simpatias para atrair a boa sorte), mas, mais do que tudo, o abraço longo das pessoas que eu amo e aquelas palavras repetidas de sempre - muita paz, muita saúde - que valem mais pelo calor, pelo sentimento do que propriamente pelo que significam.
Eu reverencio o ano que passou e tudo de doloroso, desafiante, delicioso e excitante que me foi permitido viver. E reverencio a aventura de mais um ano. Desejando que seja bom, que seja pleno. Sem promessas. Apenas me comprometendo comigo mesma em ser mais feliz, mais leve. Acho que essa foi a grande lição que 2010 (um ano fantástico!) me ensinou: felicidade é leveza...
Partilho com vocês algumas palavras do Drummond (grande poeta das Gerais). Que 2011 seja um ano realmente NOVO para todos!

Previsão do Tempo para 1967 (lê-se 2011!)

Bom, se o ajudarmos
a ser bom. Céu claro,
se nossos pensamentos forem claros.
A luz começa
na boa vontade da alma - e dos olhos.
Somos responsáveis
pelo bom tempo:
compreensão simpatia impulso de ajudar
tornam belas as manhãs
e embalam as noites
em casa e no mundo.

(Carlos Drummond de Andrade)