sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma tristeza ainda mais difícil

Há menos de uma semana fiz um post sobre as manifestações em São Paulo. É incrível como, em menos de uma semana, tantas coisas mudaram. Na sexta-feira passada, um pesar por ver a truculência com que a PM, apoiada pela mídia oficial, tratava os manifestantes, ativistas e jornalistas. Mas, ao mesmo tempo, uma alegria: a de ver que, depois de décadas, o povo brasileiro tomava as ruas para manifestar sua indignação e exigir melhores condições de transporte público, uma pauta tão importante e que influencia tanto na vida das cidades, na cadeia produtiva, no meio ambiente.
Mas agora, uma tristeza ainda mais difícil toma conta de mim, ou melhor, de nós que acompanhamos com atenção e desconfiança tudo o que tem acontecido. Diante das imagens e relatos transmitidos pela internet, a grande mídia não podia mais negar que era a PM quem estava tocando o terror nas manifestações. E uma grande mudança se operou no discursos. De vândalos e vagabundos, passaram a manifestantes. Grandes emissoras de TV, jornais e  revistas informativas de grande circulação repentinamente passaram a elogiar o movimento, incitando um nacionalismo ufanista que nada fica a dever para finais de copa do mundo. Transmitiram e ainda estão transmitindo à exaustão imagens do povo nas ruas como algo lindo e comovente, reforçando o caráter apartidário das manifestações e sempre reforçando que "alguns grupos isolados" cometiam atos de vandalismo a monumentos e instituições públicos e propriedades privadas.
Obviamente, tais veículos de comunicação dependem da adesão do público. Eles não iam querem ficar mal na foto e passarem por mentirosos e "manipuladores da verdade". Mostraram a truculência da PM e a reconheceram quando não era mais possível negá-la, a fim de se dizerem idôneos. Mas acho que a coisa vai além da mera audiência. O ser mineiro e desconfiado que vive em mim me diz que há algo de muito errado acontecendo.
A mudança súbita do discurso da grande mídia me soa a algo planejado e coeso, ao contrário do que se tornaram as manifestações. Afinal, qual a melhor maneira de desarticular um movimento social que poderia representar algum perigo ao status quo? Infiltrar-se nele, apropriar-se de seu discurso, confundi-lo. É isso que vejo: o Jornal Nacional destes últimos dias foi quase um convite para que os espectadores saíssem às ruas para participar desse "momento histórico". Sem bandeiras de partido, é claro, estamos fartos da política. E esse discurso é a grande sacada desses veículos, comprometida com os poderes vigentes, para desarticular qualquer movimento que possa efetivamente ameaçá-los.
Alimentar a recusa da classe média brasileira contemporânea pela política, com seus argumentos de que não quer se sujar com ela, é muito útil para que novas lideranças não surjam. Se essa classe média realmente acredita que vai se manter "limpa", sinto informar: estamos atolados nessa "sujeira" até o pescoço e nos atolamos ainda mais toda vez que nos omitimos diante dela. A omissão parece uma saída fácil: ao não carregar bandeiras de partidos, parece que o cidadão se exime de responsabilidades sobre os atos de qualquer um deles. Não sejamos ingênuos: a omissão é uma escolha política, é o apoio tácito ao poder já instituído.
Mas louvando as manifestações "sem partido e sem violência", carregando reportagens de um discurso emotivo e triunfante, a grande mídia conseguiu atrair para as manifestações um público afeito a seus propósitos: que se diz "sem ideologias", com pouco conhecimento das pautas que reivindica, e sem sequer noção de para quem deve reivindicá-las. O grito inócuo contra a corrupção aponta para Brasília, saindo da boca daqueles que não conseguem distinguir a esfera de atuação dos poderes federais, estaduais ou municipais e que, portanto, culpabiliza a presidenta de todo e qualquer problema. Que não conseguem perceber que o problema da corrupção está na sua naturalização nas mais diferentes classes sociais e esferas da sociedade.
Sem contar que as manifestações apartidárias proporciona que qualquer partido se aproprie delas em momentos posteriores. Já estamos vendo isso em propagandas na televisão. Oportunamente, o mesmo partido que governa o estado de São Paulo há praticamente duas décadas vai, provavelmente, fazer uso destas manifestações que tentou coibir com mão de ferro, ressuscitando práticas do tempo da ditadura militar, que nunca foram esquecidas nas terras paulistas.
Estou seriamente preocupada com a apropriação destas passeatas, inicialmente tão legítimas, pelos discursos de direita, autoritários e facistas. Esse excesso de bandeiras do Brasil e hinos nacionais cantados em uníssono me arrepiam, mas no mau sentido. É um nacionalismo que embota a reflexão dos problemas e de seus atores sociais. É a mesma estratégia patriótica que precedeu ditaduras em nosso país. Já vimos esse filme, em que muitos morreram no final. Mas por incrível que pareça, há aqueles que expressam saudades desses tempos de "ordem e progresso".
Enfim, não nos deixemos enganar de que vencemos porque prefeituras estão baixando as passagens de ônibus. Não existe mudança se, para isso, empresas estão recebendo isenção de impostos ou verbas de outros serviços estão sendo diminuídas. Quem continua pagando a conta é o povo e quem continua lucrando muito são as empresas de transporte público e pessoas que as favorecem nas licitações públicas. Vi posts no facebook que falavam em "revolução de 2013". E eu me pergunto: que revolução, cara pálida? Que revolução, se nada tem mudado, estruturalmente falando? Isso também me fez lembrar de outros períodos da nossa história que se disfarçaram com o rótulo revolução.

sábado, 15 de junho de 2013

Uma alegria difícil

Dias atrás reencontrei Clarice. Sim, a Lispector. Chamo-a assim, pelo primeiro nome, apesar do protesto de alguns colegas de universidade. E nesse reencontro, proporcionado por uma aluna, que está fazendo seu TCC sobre a renomada autora, me deparei com uma ideia maravilhosa: a da "alegria difícil". É o que declara sobre o que lhe trouxe a personagem G.H: "uma alegria difícil, mas chama-se alegria".
Só essa frase foi capaz de descrever os sentimentos contraditórios que tenho sentido quando vejo os jornais e leio notícias pela internet sobre os protestos em São Paulo. O que eu sinto quando vejo uma imagem como essa:



Enganam-se aqueles que pensam que essas pessoas estão protestando por conta de alguns centavos. Como diz o vulgo, o buraco é mais embaixo. Creio que o povo grita o que tem calado há tanto tempo - e aí está minha alegria. O grito. O grito que desperta. O grito que escancara as injustiças, que portanto não podem mais ser negadas. E por isso, o grito que assusta, amedontra, desconcerta àqueles que querem manter o estado de coisas, seus poderes e privilégios.
Entretanto, ainda há aqueles que insistem em negar: ontem assisti ao depoimento do governador Geraldo Alckmin aos jornalistas. Sobre a ação da PM: "A polícia acompanha as manifestações para proteger o cidadão". Sobre os protestos, afirmou que as manifestações teriam intuito político, não cívico - como se "apenas" protestar pelo aumento de um serviço público de péssima qualidade não fosse político.
Não me surpreenderam as afirmações do nosso digníssimo governador sobre a ação truculenta da PM. Afinal, a PM é subordinada ao poder do estado. O que me surpreende é ver pessoas acreditarem na versão de que os policiais só defenderam a população dos vândalos, dos vagabundos que, ao invés de trabalhar para fazer o país crescer, estão por aí quebrando a cidade. Valei-me, minha Nossa Senhora do Senso Crítico! Só apelando para o divino com essa gente, já que, nestes dias, sites, blogs e redes sociais têm difundido textos e imagens não só de manifestantes, mas de jornalistas que foram agredidos gratuitamente pela PM, que bateu e atirou primeiro. Só não enxerga quem não quer ver. E para quem não viu e quiser ver um pouco, recomendo a página:

http://www.melhorquebacon.com/24-momentos-protesto-sao-paulo/

Mas dizer que as manifestações têm intuito político é o óbvio ululante. Porque como disse Brecht, em seu famoso poema "O analfabeto político", o preço do feijão, e acrescento, da passagem de ônibus, tem tudo a ver com a política. Mas é claro que Alckmin não quiz ressaltar o quanto a população paulistana se tornou atuante; certamente se referiu a isso no mau sentido, como se fosse uma conspiração partidária para abalar o aparente inabalável governo de décadas de seu partido em nosso estado. O que as notícias, vídeos e depoimentos de manifestantes e jornalistas na web têm me mostrado é que podemos supor o oposto. A iniciativa de responder jogando a tropa de choque na população não é nada nova por aqui - haja vista quantas vezes o governo do estado fez isso com o professorado em greves e prostesto desde a época do finado Mário Covas, isso para só falar dos tempos de """""democracia""""". Mas agora a reação truculenta e extremamente autoritária me parece trazer algo de novo: não apenas o intuito de intimidar, de amedontrar, mas de depreciar, de levar ao descrédito. Afinal, manifestações que seguem em ordem e sem violência (como estavam acontecendo antes da chegada da tropa de choque) são perigosas. Podem levar as pessoas não apenas a pensar, mas a acreditar no poder de seus pensamentos e suas vozes unidas.
Acredito que a ação da PM não foi um descontrole de policiais isolados, como vão provavelmente alegar os comandantes da política e da polícia estadual. E sim uma estratégia para reforçar o que já está no imaginário brasileiro: que fazer protestos públicos é coisa de vândalos e de quem não tem o que fazer. E de que o brasileiro tem que continuar cordial e impotente diante das decisões políticas. Afinal, é útil ao poder instituído passar a ideia de que somos um bando de alienados e por isso não vale a pena fazer nada. E se convencidos de que somos vozes isoladas, a inação toma conta de nós.   
Estou triste ao ver e ouvir relatos de pessoas que foram seriamente agredidas e presas. Vi um post no Facebook da cantora Juliana Amaral, muito bonito, em que ela dizia que era impossível cantar diante de tanta violência. Eu também me calo às vezes, com a alma pesada. O silêncio da morte se apodera de mim, principalmente, quando vejo pessoas defendendo a ação da PM, a truculência e o autoritarismo. Mas ao mesmo tempo, eu me alegro ao ver as pessoas na rua. Ao ver jovens oferecendo flores à tropa de choque - como em outros momentos da história. Ao perceber que não somos marionetes.
É uma alegria difícil, mas chama-se alegria.

domingo, 19 de maio de 2013

Hóspede do tempo

Há tantos poemas, canções e filosofias sobre o tempo que escrever sobre nossa relação com ele parece redundante. Mas tenho refletido muito sobre o tempo. No quanto ele nos ultrapassa. No quanto eu me pego dizendo: "Queria ter mais tempo para escrever (ou qualquer outra atividade que me seja muito prazerosa)". E quantas vezes, neste tumultuado ano de 2013, eu ouvi pessoas falando sobre como o tempo está passando incrivelmente rápido - como se fosse ele, e não nós, que tivesse pressa...
A verdade é que brincamos com o tempo. Fazemos planos como se ele nos pertencesse. Adiamos coisas essenciais para a nossa felicidade, pensando que, em um "depois" - projeção de um futuro vago e indefinido - teremos tempo para dar atenção a nós mesmos e a quem amamos, para aprender algo que nos encanta, para dançar, cantar, descansar, em suma, procurar a alegria e a paz.
Adiamos sempre, crendo que nós temos o controle e resolveremos tudo. "Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá", como diz a maravilhosa canção de Chico Buarque.
Em menos de 7 dias vivi duas experiências opostas. Fui da extrema satisfação à extrema angústia. Em um domingo, eu estava cercada de pessoas queridas, numa linda manhã de maio, realizando algo há muito sonhado, conquistado com muito trabalho: a publicação do meu primeiro livro de ficção. No sábado seguinte, tudo voou pelos ares: um automóvel preto cortou a pista, capotou, caiu na ribanceira. Neste carro, as pessoas que mais amo na vida. Não só as rodas, mas de repente, o mundo de ponta-cabeça.
E então era como se o tempo tivesse parado. Tudo ficou em suspenso, na espera angustiosa do que aconteceria. Depois que a morte passou por nós e se foi sem levar ninguém, ficaram as dúvidas dos danos do acidente. Todos os planos perderam o sentido perto do que tem realmente importância: conseguir respirar, comer, andar...
É impressionante como precisamos que a vida nos chacoalhe violentamente para percebermos o que é essencial. Tenho aprendido muito nestes dias com minha mãe. Com sua imensa paciência diante da dor e da dependência de terceiros para fazer qualquer coisa. Com seu sorriso amável de agradecimento à vida por mais esta oportunidade de continuar no tempo. De se hospedar nesse mundo. Porque é isso que somos: hóspedes. Nada nos pertence: nossas casas, carros, celulares, nem sequer esse corpo que chamamos de nosso nos percente. E na nossa imensa arrogância, agimos como se tudo nos pertencesse, inclusive o tempo e a própria vida.
Eu agradeço ao tempo, um dos deuses mais lindos, como diz Caetano, por continuar sendo sua hóspede. E termino este post com a bela canção de Zélia Duncan. Porque o que vale é nossa atitude, a cada dia, que pode ou não ser o último.



  

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"O problema são estas biscatinhas..."

A palavra é a única coisa que me resta. Quando o mundo me cutuca, eu tenho que escrever. Mas quando ele esbofeteia, até as palavras fogem. Demora um tempo para digerir realidades tão cruéis e procurar as palavras para falar sobre elas. Mas precisamos falar. O silêncio é a pior coisa. O silêncio é companheiro da morte.
Há alguns anos tenho convivido com G., uma garota de 13 anos. Essa menina sempre me impressionou. Os olhos são de um negro denso e triste. Quando criança me chocava por proferir frases de um ceticismo impróprio para crianças de 8 anos. Foi rejeitada pelas pessoas que a trouxeram ao mundo e que teoricamente a amariam incondicionalmente e a protegeriam de tudo. Mas ao invés disso, foram eles mesmos que fizeram com que G. conhecesse a dor e a violência muito cedo.
Aos 10 anos, precocemente amadurecida, G. já era biologicamente mulher. Já menstruara, já tinha seios, era muito bonita. E aos 11 anos, ela começou a fugir da escola, a passar noites fora de casa. Também foi vista fumando e em companhia de homens. No fundo, penso que G. queria desesperadamente que alguém a percebesse. Quem sabe fazendo tolices? Quem sabe ameaçando ir embora para sempre? Mas só conseguiu mais algumas surras e o veredito, que ouvi dos lábios de pessoas de sua família: "G. se perdeu". Um fato consumado. Eu não me conformava de alguém selar assim o destino de uma criança, de alguém por quem havia tanto ainda para ser feito.
Aos 12 anos, G. engravidou. Agora, aos 13, deu à luz uma menina. Teve muitas complicações no parto por conta de seu corpo não estar ainda preparado para uma gravidez. Passou 10 dias na UTI. Por pouco não morreu. E agora tem uma vida em suas mãos: a pequena H. - o que será delas? eu me pergunto na minha angústia solitária. Quando as visitei no hospital, os olhos de G estavam ainda mais negros, mais densos, um olhar resignado, de quem não espera muito mais da vida.
Eu estava, na semana passada, comentando a história de G. com algumas pessoas. E caímos fatalmente nas estatísticas de meninas grávidas precocemente. E o comentário de umas das pessoas me incomodou muito: "O problema são estas biscatinhas de 10/11 anos que já querem dar nessa idade".
Imediatamente, eu argumentei que a maioria das crianças que manifestam desejo de consumar uma relação sexual adulta, em idade tão precoce, foram crianças erotizadas - ou por serem expostas a cenas de sexo ou vítimas de abuso sexual na infância. Estudos de psicologia afirmam que uma das consequências do abuso ou violência sexual é a hipersexualização das crianças agredidas. Também argumentei que essas meninas, muitas vezes desejadas por adultos, se deixam persuadir pela carência em que vivem: privadas de atenção, autoestima, afeto e carinho, procuram preencher essa lacuna na relação que lhes está sendo oferecida e que, longe de trazer isso, só lhes tirará proveito de seu jovem corpo.  
Mas minha interlocutora não se convenceu. Disse que a realidade não é bem essa. Longe de lhe dirigir uma crítica pessoal, o que faço neste texto é compreender suas opiniões, que creio ser uma visão meio generalizada sobre meninas precoces e seu incorrigível erro de engravidarem antes da hora (como se elas fizessem os filhos sozinhas, como se eles brotassem em seu ventre!).
Vivemos em uma sociedade em que o sexo é estampado na mídia de todas as formas. Longe de um discurso puritano que deseja censurar os meios de comunicação, não penso que o sexo deveria desaparecer como tema, mas penso sobretudo em com ele aparece atualmente. Além de ser banalizada, a sexualidade, sobretudo feminina, é colocada como moeda de troca. Condição de sobrevivência. E estamos falando de algo muito mais velado e perverso do que a prostituição (vista de forma folclórica e tão idealizada em novelas ou minisséries baseadas nas obras de Jorge Amado). Estamos falando de inúmeras novelas, filmes, propagandas em que se coloca o estereótipo da mulher bonita e gostosa, da mulher que consegue o que quer porque é sexy. Em outras palavras, o seu corpo continua sendo comprado, mesmo que ela seja rica, bem educada, que se case - invariavelmente, com um homem rico, bem sucedido, ou ao menos com grandes chances de se tornar assim.
Além disso, no pacote de "como se ensina a ser menina", entra o critério "atrair o macho". Desde crianças, meninas são ensinadas, explícita ou implicitamente, a se vestir, se pentear, se maquiar, se comportar de forma a atrair a atenção do sexo oposto e agradá-lo. Uma análise de alguns brinquedos infantis direcionados às meninas confirmam isso. Cada vez mais cedo, as meninas se parecem mini-mulheres. E nos últimos anos, cada vez mais as roupas para essas crianças (às vezes bem pequenas) se parecem com miniaturas de roupas para mulheres. Não aquelas roupas da minha infância, em que meninos e meninas se pareciam quando vestiam bermudinhas e camisetas, que precisavam acima de tudo ser duráveis e confortáveis, pois eram feitos para crianças que subiam em árvores, jogavam queimada, se ralavam descendo "de bunda" o gramadão da quadra da escola. A gente até colocava vestidos (em dias de festa, principalmente), mas eram vestidos mais parecidos com os das nossas bonecas do que com o da gostosa da novela das nove.
Então eu me pergunto: será que essas "biscatinhas de 10/11 anos" se sexualizaram precocemente sozinhas? Não são elas um produto dessa sociedade que, na falácia da quebra de todos os tabus, não sabe lidar com a sexualidade?
E talvez a pergunta que mais me doa: ao taxá-las de "biscatinhas", não estamos novamente culpabilizando a vítima? Não seria uma variação da perversa ideia de que a mulher abusada é quem provocou o abuso? Não estamos reforçando o que nos foi ensinado desde o mito de Eva: de que a mulher - com seus desejos, sua impureza - é a culpada?
E a derradeira das perguntas: não seria hora de mudar essa mentalidade e, assim, termos um alento de esperança de mudar histórias como a de G.?   

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Planta passeadeira

  "Como dizer ao doutor Czerwenka que já não sei onde os meus pés descansam? Os tijolos do que chamo de casa são de outra matéria, delicada demais, multiplicando endereços no que o tempo fez de mim. Eu não conseguiria dizer ao doutor Czerwenka que depois que a minha raiz foi arrancada eu virei planta passeadeira, sempre a caminho".
(Gislaine Widmer, "Crônica de dores e amores crônicos").


Hoje está uma manhã de maio, embora o calendário diga outubro, sua analfabeta! Não importa. O céu de um azul denso, uniforme, sem nuvens; um vento suave e frio e um sentimento de saudade que se apodera de mim trazem maio aos meus olhos. Que se danem os calendários...
Além disso, li hoje uma bela crônica sobre a saudade, escrita por minha querida Gislaine Widmer, presente sempre embora esteja a léguas e léguas daqui. É que o amor tem destas artimanhas, não só rasga calendários mas atravessa oceanos. Hoje, que amanheço em casa depois de passar uma semana fora, Gislaine me fez pensar em lar, em família, em identidade, e sentir uma satisfação de olhar pela minha janela e reconhecer na paisagem tantas vezes já vista uma beleza ímpar.
Estive em Goiás por sete dias - fora de casa, mas em casa. Estava com a minha família. Com a pequena Ana Luíza - a mais jovem do clã das Júlias, essas mulheres encantadoras, mas fortes e voluntariosas. Com dois anos, Analu sabe dizer não com uma teimosia capaz de enlouquecer os adultos mais pacientes que tentam explicar que ela tem que tomar o remédio, que ela tem que dar a mão para atravessar a rua, que ela precisa tomar banho para dormir. Mas como é encantadora quando inventa. Se transforma em borboleta quando percorre a casa com os braços abertos, ao passar pela cozinha, uma tábua de carne vira um violão e ela toca e canta os hits da escolinha maternal: a dona aranha sobe pela parede, baratinhas vestem saias e o galo, paletó. 
Eu me deliciei nestes dias todos com o riso fácil e a leveza que só uma criança tem, com as comidas maravilhosas que minha mãe faz, com as conversas com minhas irmãs. Estava em casa - porque o lar não é um conjunto de paredes, e sim os ruídos que denunciam a vida em seu ritmo, o cheiro de banho recém-tomado, de comida sendo preparada, a  presença em torno da mesma mesa.
Mas eu senti falta de estar ausente. Do silêncio em que passo os meus dias. Hoje acordei sabendo que não haveria outras vozes no decorrer das horas. Abri as janelas e a luz de maio entrou no meu 15 de outubro. Senti saudade da Analu me acordando de manhã, de minhas irmãs conversando no café, porém, um conforto de estar quieta e contemplar. Do que concluo que a saudade para mim é um estado permanente. E que, assim como Gislaine, eu me sinto uma planta passeadeira.    

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Da incapacidade de não escrever

Ontem estava uma tarde cinza e fui tomar um café com poemas com meu amigo Pedro Marques. Nada mais apropriado a uma tarde em que o tempo parecia estar mais lento. Eu me sentei ao lado das janelas amplas do café e lá fora, o movimento dos carros era incessante, mas as árvores estavam estáticas. O ar parado, os troncos das árvores elevados em alerta, mas sem acenos para mim. Deixei-me ficar simplesmente, queria ficar estática como as árvores, em profundo estado de inércia, mas a poesia veio:

Na janela o refúgio
temor de paredes esmagadoras
procuro a moldura luminosa
braços de árvores
não me acenam
verdes dedos
imaturidade ou esperança
apontam o céu cinza
espectadores da rua
dos passos dos garotos
da corrida dos carros
do sono dos cães.

Depois veio o poeta e a conversa sempre boa sobre literatura, versos e toda a vida neles contida... Em um momento, eu disse "Continuo a escrever pela incapacidade de não fazê-lo". Recentemente, um amigo, Pandiá Mendes, me perguntou como/quando escolhi ser uma escritora. Acho que ao invés de escolher, eu não fui capaz de não ser... Confuso, assim...
E já que este post está pingando confessionalismo (tende paciência comigo, pobres e seletos leitores!), vou colocar mais do meu credo pessoal da poesia. Pedro me disse ontem que a poesia para ele não deve reforçar o mundo como ele é, nem as coisas como são comumente vistas, mas o contrário disso. Então fiquei ontem ruminando como eu penso e vivencio a poesia e cheguei a estas ideias:

1. Poesia não se conforma em ser só texto impresso: quer ganhar a boca, os ares, ser lida e cantada em alto e bom som.
2. Versos foram feitos pra dançar: poesia tem corpo, substância; relaciona-se com o tempo como todos os bailados.
3. Poesia não dorme. Não está no limbo esperando, está no movimento, na vida. A gente é que, às vezes, não consegue ver nem ouvir porque não presta atenção.

São 3, mas estão longe da perfeição cósmica, podem e devem mudar muitas vezes, nesse fervilhar constante que sou/estou...

terça-feira, 17 de julho de 2012

A poesia está viva, apesar dos inimigos de plantão

O inverno resolveu dar as caras em Campinas. Mas nem a chuva, nem o céu cinza, nem o ar gelado desanimaram os destemidos professores, escritores e apaixonados pela literatura e pela educação a irem até a Unicamp para mais um COLE (Congresso de Leitura do Brasil).
Ainda bem que as palavras aquecem o corpo, ainda mais quando literalmente ganham corpo. Hoje tive um momento raro de fruição da poesia. Mais do que voz, a poesia ganhou gesto. Os versos de Jeová Santana se levantaram da página com uma força incrível, através de Eliana Kefalás. Há tempos vivo essa verdade: versos foram feitos para dançar. E quando vi esta mulher mais do que declamando, mas vivendo com todos os músculos a poesia de Jeová Santana, não pude me conter em abraçá-la ao final do sarau e dizer: você realizou meu delírio mais profundo como poeta e professora de literatura. Quem dera um verso meu fosse assim tirado de sua casca de papel e tinta, e nascesse para os ares. Quem dera as escolas nos dessem espaço para fazer com que os alunos fruíssem o texto assim, que tivessem "no seio da palavra literária, o gozo", na expressão da própria Eliana, que hoje lançou seu livro: "Corpo a corpo com o texto na formação do leitor literário".
E foi também um grande prazer reencontrar Jeová Santana, esse escritor sergipano que, depois de boas incursões pela prosa, caiu nos braços da poesia - mas penso eu que ele já flertava com ela há muito tempo, pelo que pude conferir dos poemas do livro "Poemas Passageiros", também lançado hoje. Conheci Jeová por uma destas coincidências felizes. Estava sozinha numa livraria da Avenida Paulista, no lançamento de um livro de outro poeta, Fábio Weintraub. Estava na companhia apenas do livro de Fábio quando Jeová puxou conversa, e eu logo percebi que ele não era um paulistano. Não, não foi o sotaque, foi mesmo o gesto de conversar com um "estranho", tão incomum em uma cidade tão grande e tão apressada. Com a mesma simpatia e generosidade desta conversa, Jeová me enviou seus livros, "A Ossatura" e "Inventário de Ranhuras", meses depois. Agora estou aqui com "Poemas passageiros" em mãos, mas como uma criança que come um doce bem devagar para durar bastante, quero ler bem lentamente, um poema por dia. A poesia desacelera a gente. Pede tempo, atenção aos seus detalhes, seus caprichos. Não se pode ler poesia com pressa. A pressa é inimiga da diversão.
Para quem perdeu o lançamento hoje, vocês ainda tem uma chance de conhecer o poeta antes de que ele volte para as terras nordestinas. No sábado, 21/07, haverá o "lançamento paulistano" do livro, na Livraria da Vila. O convite está aí. Não percam!


Como disse Jeová, declamando seu mais recente poema (ainda inédito), "a poesia não corre risco de vida ou de morte, apesar dos inimigos de plantão". Então vamos ao encontro dela, sempre!