segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vias de encontro

Falar de encontros e desencontros é um lugar comum da poesia e da canção, desde que Vinícius (sim, temos intimidade para que eu o chame assim, pelo primeiro nome) popularizou o tema nos famosos versos "A vida é a arte do encontro/ Embora haja tantos desencontros pela vida". Mas a expressão "lugar comum" não deve ser vista em seu prisma negativo. Se para alguns ele remete ao clichê, para mim remete aos temas comuns a todas as épocas e todas as sociedades, por não se esgotarem nunca. Há como não falar do encontro? Com a arte, consigo mesmo, com o outro?
A música, sem dúvida, é uma das maiores vias de encontro do ser humano, tanto consigo mesmo quanto com o outro. Pela música, transcendemos, abandonamos a língua aprendida de nossas mães por uma linguagem que, me parece, não se explica, mas todos entendem. Através da música, pessoas se encontram - sejam porque compartilham o gosto por estilos, compositores e cantores, sejam pela reunião prazerosa de ouví-los ao vivo, e até mesmo - o encontro com o corpo - dançá-los. Não há portanto título mais bonito para um CD do que Vias de encontro - que será lançado pelo compositor Rodrigo Duarte no próximo sábado, dia 26 de abril de 2014, às 17 hs, na Livraria Cultura de Campinas.


Conheci Rodrigo e sua música há uns bons anos (está bem, confesso, há mais de uma década), quando ainda era estudante de graduação na Unicamp. Lembro-me de inúmeras apresentações na universidade, de shows do Quarteto de Cordas Vocais (ainda firme e forte com seu samba de qualidade), de uma montagem da Ópera do Malandro, no Centro de Convivência Cultural de Campinas, no final dos anos 1990, em que Rodrigo interpretou "Pedaço de Mim", de Chico Buarque. Sempre me agradaram sua bela voz  e a sensibilidade que imprime à interpretação de clássicos da MPB, o que podemos notar nesta interpretação de "Resposta ao Tempo", de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos (com a presença do último, com quem Rodrigo fez uma apresentação em dezembro do ano passado, na Praça Carlos Gomes):

https://www.youtube.com/watch?v=Tms-808IEfY


Vias de encontro é o primeiro trabalho autoral de Rodrigo, que atua também como compositor. Generosamente, ele me enviou a letra de uma das canções do disco, para que os leitores tivessem um gostinho:



Quadro da Noite
(Rodrigo Duarte)

Por entre os dedos da noite,
Branca luz no céu aparece,
Pérola astral que, em nuas águas,
Reflete.

Suave é a brisa da noite,
Percorre a pele que veste
Átomo astral, que atroz,
Vibra Celeste.

Negro é o quadro da noite,
Mil olhos solares, abraça,
Constelações em estado
De Graça.

Serena dama da noite,
Doce é o aroma que despe
Pétala astral que aflora
E enlouquece.

Raio que irrompe em açoite,
Louco farol transparece,
Ápice astral reluz e o breu
Fenece.



Fiquei com vontade de conhecer todas as canções. Vocês também? Então anotem aí na agenda:

POCKET SHOW DE LANÇAMENTO - CD "VIAS DE ENCONTRO" - RODRIGO DUARTE & GRUPO
ONDE: LIVRARIA CULTURA, SHOPPING IGUATEMI CAMPINAS
QUANDO: DIA 26/04/2014, SÁBADO, ÀS 17 HS

A gente se encontra por lá, porque a vida é a arte do encontro...


sábado, 29 de março de 2014

Sobre cantinas, direitos e ditaduras

Depois de mais de uma década, entrar nas mesmas salas de aula - agora com outro mobiliário, computadores, datashow, ar condicionado... Eram as mesmas salas de aula do IEL, o Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, mas ao mesmo tempo, não eram mais! E essa contradição se explica: não eram só os móveis que estavam diferentes, não era apenas eu que não era mais a mesma (seres mutantes que somos nesse fluxo contínuo do tempo), mas tenho a sensação também de que a universidade mudou.
Não, esse não é apenas um post nostálgico, que vai concluir que "o passado é uma roupa que já não te serve mais", como diria o sábio Belchior. Também não vou enveredar pelo clichê "na minha época era melhor", e sim compartilho algumas reflexões que me assaltam nestes dias em que vemos notícias surpreendentes (ou nem tanto, infelizmente) de pessoas saírem às ruas e se manifestarem na web pedindo a volta de uma ditadura, ou de uma tropa de choque ser acionada dentro de uma universidade pública, a saber, a UFSC, para tratar estudantes como inimigos e criminosos.
Antes que algum leitor pense que a coerência me abandonou de vez, explico-me: entre as mudanças que tenho notado na Universidade Estadual de Campinas, chamou-me a atenção a diminuição significativa do números de cantinas na universidade. Particularmente, chocou-me o fechamento da cantina do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), pela ligação deste lugar com minha história pessoal e acadêmica. Foram muitos os dias em que, sentados nesta cantina, eu e meus colegas não apenas almoçamos e tomamos café, mas lemos textos, discutimos ideias, concebemos projetos que se materializaram em aulas, artigos, dissertações, teses, poemas, contos... Neste lugar, muitas reivindicações tomaram corpo, muitas lideranças se encontraram. E isso me leva a concluir que o fechamento de tantas cantinas (sobretudo na área de humanas e artes do campus) pode ter trazido o bônus de evitar alguns problemas como estes jovens desocupados que iam à Universidade só para fumar maconha, planejar greves e ficar perturbando a ordem.
Como escolhas lexicais não são aleatórias (momento análise do discurso), o pode ter trazido o bônus revela que eu já sei das justificativas oficiais para o fechamento destas cantinas, especialmente a do IFCH: questões sanitárias e estruturais foram levantadas, mas curiosamente não me parece ter havido muita tolerância para que estes locais se adequassem às novas condições. De qualquer forma, o que salta aos meus olhos toda vez que caminho até a cantina da Física para tomar um cafezinho, e vejo vazios aqueles espaços que antes aglomeravam tantos estudantes, é que a Universidade tem deixado, cada vez mais, de ser esse espaço de encontro e debate de ideias para ser um lugar onde as pessoas chegam, assistem suas aulas, e vão para a biblioteca, para o trabalho ou para casa.
Há boatos de que a intenção do fechamento das cantinas é a criação de uma praça de alimentação no Ciclo Básico (praça localizada no centro do campus). Isso me fez lembrar que, no ano em que entrei na Universidade, a cantina do IEL fechou e abriram-se licitações; o então diretor, o prof. Wanderley Geraldi, recusou uma proposta do Mc Donalds, dizendo que fast-food não era o perfil de uma cantina universitária, em que as pessoas não vão só para comer, mas também para estudar e conversar. E depois de tantos anos, parece que esse perfil será esquecido ao se colocar dentro da universidade uma praça de alimentação aos moldes de um shopping center.
Mas o que tudo isso tem a ver com a nova Marcha da Família ou a invasão da UFSC pela Polícia Federal e a tropa de choque? Eu creio que são fatos que revelam a mesma onda neoconservadora que estamos presenciando. Qual a principal bandeira dos que, neste fim de março de 2014, clamam a volta dos militares ao poder (em um anacronismo que dói aos ouvidos, já que eu questiono se as Forças Armadas teriam condições para isso na atual conjuntura)? Eles clamam pela ordem. Diante da corrupção e da ineficiência da educação e da saúde pública, eles clamam pela volta de uma ditadura militar, sem refletir no quanto esta contribuiu para a construção deste estado (e Estado) lamentável. É uma ingenuidade (na melhor das hipóteses) que beira ao risível, pois a qualidade da educação e da saúde pública já não era exemplar entre 1964 e 1985, quando ela atingia bem menos pessoas e não era um direito universal (como foi garantido depois pela constituição de 1988). Da corrupção então, nem se fala! É claro que não havia escândalos de corrupção naquela época, com a existência de um AI-5, uma imprensa calada e um governo que podia, portanto, fazer absolutamente tudo o que quisesse, inclusive prender, torturar e matar pessoas!
 De uma forma messiânica, os que clamam a "volta dos militares" acreditam que haverá um poder ditatorial que será capaz de resolver miraculosamente todos os problemas da nação, do dia para a noite. É notável que a ascensão de governos totalitários tenha se dado em momentos de crise, pois o ser humano adora alguém que resolva seus problemas sem ele precisar ter trabalho (e a democracia dá muito trabalho!!!). Mas a que custo? E aí chegamos no ponto mais perverso: as justificativas para a dissolução de direitos individuais, as torturas e as mortes. Em depoimento dado nesta quarta-feira, o coronel reformado Paulo Malhães disse que o regime militar torturou e matou "tantos quantos foram necessários". Confessou a prática de mutilação dos corpos despejados em mares e rios para, se encontrados, não serem identificados por suas famílias. Seu depoimento é chocante, mas ainda mais chocantes são os comentários que o seguem na página da BBC (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140326_depoimento_coronel_ditadura_jc.shtml).
Comentários que afirmam que estas pessoas torturadas e mortas eram criminosas, inimigas da ordem e da nação, que reproduzem a lógica do próprio coronel: "Não foram presos porque jogavam bolinha de gude ou soltavam pipa". Mas os comentários expostos na webpage não são de pessoas dos anos 1960! São comentários análogos aos que ouvimos hoje de pessoas jovens, para justificar qualquer ato de violência contra os que são considerados indesejáveis ou inadequados ao sistema. Assim, os que se sentem dentro da ordem não se importam que os que estejam fora dela sejam privados de direitos, da liberdade ou até da própria vida, já que eles não são pessoas de bem: não trabalham de forma remunerada de 8 a 10 horas por dia, são os vagabundos que querem discutir política nas cantinas universitárias, são os maconheiros. Se estivessem trabalhando, estariam contribuindo muito mais para que o Brasil se tornasse um país competitivo. Essa última frase, eu ouvi literalmente de um professor de uma faculdade privada a respeito de alguns alunos que se organizavam em um movimento pela melhoria da qualidade do ensino na própria instituição.
E eu me pergunto: é isso que queremos: um país competitivo, com um governo forte? É melhor tomar cuidado com aquilo que se deseja...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A dádiva do imprevisto

Faz quase 3 semanas que estou fora de casa. Uma longa viagem, para um país distante - outro clima, outra geografia, outra língua, que embora eu tenha estudado um pouco, a cada dia se mostra mais desconhecida, com gírias, expressões populares, entonações peculiares.
Não me considero uma pessoa viajada, mas creio que já fiz mais de uma dezena de viagens, algumas curtas, outras mais longas. Depois de um tempo, a gente começa a perceber o tipo de viajante que é. Sim, para mim o termo é este: viajante, não turista. Explico-me: para mim, não interessa só o que sai no guia turístico (com todo respeito a estas publicações tão úteis), ou os lugares mais pitorescos, bonitinhos ou arrumadinhos. Quando eu viajo, gosto de conhecer as cidades que visito, andando a pé, de ônibus, de trem, nunca em um táxi que me leve de um ponto turístico a outro. Gosto de escolher meus trajetos e às vezes me perder neles para descobrir uma rua muito legal, com aquele barzinho despretensioso, onde talvez você vai comer o melhor P. F. da sua vida. T'aí: achei uma expressão para me definir: sou uma viajante P. F. : gosto do prato feito, completo, que é cada cidade, com suas muitas cores e sabores diversos. Não sou do tipo alta gastronomia. E gosto de gente, de falar com quem vive ali, com quem vivencia a cidade sem as lentes às vezes glamourosas, e sempre comerciais, do turismo.
Outra peculiaridade de parte desta viagem é opção de viajar sozinha. Descobre-se muito sobre si mesmo nestas ocasiões. Não é minha primeira vez nesta experiência, sei que ela produz efeitos e deixa marcas interessantes. Descobrimos que somos capazes de chegar sozinhos a um país estrangeiro, de dividir quartos com pessoas que nunca vimos, de cozinhar com temperos e alimentos desconhecidos, de pedir o sacarolhas emprestado ao vizinho de mesa sem saber falar a língua dele. Passeamos, conversamos intimamente com pessoas que encontramos pelo caminho e que talvez nunca mais veremos, e ficamos tão gratos por compartilhar com alguém a vista daquela montanha, daquela praia, daquele monumento...
Esta é a verdadeira viagem. É sair do que a gente conhece, deixar a zona de conforto, e abrir espaço para o imprevisto. Só assim a gente descobre que não apenas o mundo é grande: nós também somos!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mudez de adeus

Vez em quando morte visita minha morada.
Chega sem sapatos lentos passos sem foice nem negras vestes
chega mansa como mãe que leva filhos ao sono
sem diagnósticos sem tiros nem catástrofes
entra serena com sua mudez de adeus para sempre.

Nem sempre há velas flores cruzes tumbas ou cinzas
nem sempre há corpos.
Às vezes velamos sonhos
ficções de vida a dois
pessoas queridas ainda vivas
mas que partiram de nós
velamos o que fomos

e jamais seremos novamente.

John Everett Millais, Morte de Ofélia, 1851.

sábado, 7 de setembro de 2013

De como nasci

Havia sol no dia em que nasci. Lembro-me bem: o lápis pequenino de tão usado e repetidamente apontado; em uma das extremidades, as marcas dos dentes na espera ansiosa das palavras. Havia vento também: um vento de tarde de outono, morno mas com o frescor de maio. A varanda vazia e o papel apoiado no piso, à espera do parto. Então, nasci: veio o primeiro verso, não sem alguma dor, que sem ela nunca se faz poema, não sem alguma alegria, não sem algum tremor de expectativa - tudo isso misturado naquele inebriamento que envolve os nascimentos de homens, de bichos, de canções, enfim, de tudo que pulsa.
Escrevi um poema de 12 versos - no despropósito, um para cada ano que até então eu tinha vivido. Mais 2 e eu teria estreado com um soneto, o que talvez marcasse uma trajetória regrada e clássica, mas algo me desviou desde o início para a desmedida. Para as palavras e emoções sem peias, sem mapas nem roteiros. Depois copiei o poema, com cuidado e caneta preta, em um caderno de capa amarela.
Fiquei contemplando as três quadras sobre o fim da página, carente de uma assinatura. Ali eu devia pôr meu nome, não como proprietária, mas como pertencimento. Mas eu não queria assinar o meu nome, aquele que eu usava desde sempre.
É que eu sabia-me nascendo. Intuitivamente, eu sabia que uma outra existência começara depois daqueles 12 anos e 12 versos. Eu tinha o corpo franzino, o coração confuso e uma mente que tentava colocar alguma ordem entre eles e o mundo lá fora, então eu não podia pensar isso conscientemente; mas eu sentia que, assim como os jovens índios que se tornavam guerreiros, eu precisava de um novo nome. Um nome que marcasse minha nova condição.
Então fiz minha certidão de nascimento: assinei nesta página um novo nome, um nome que eu me dei, e não o nome que tinham me dado. Eu não tinha a pele pintada, mas sabia que isso me paramentava para as batalhas que eu começaria a partir de então. Ninguém sabia, mas o pseudônimo não era meu nome falso - era, de fato, o mais verdadeiro.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A filosofia do chá de gengibre

Desde quarta-feira estou confinada em casa. Não, não estou em prisão domiciliar. Também não foi o meu marido que resolveu se tornar um ciumento compulsivo e psicótico e me trancou em casa. Estou me permitindo estar doente, só isso.
Se a frase causa estranheza à maioria das pessoas, explico-me: é que eu estou doente faz um tempinho. Mas eu não estava me permitindo ficar doente, porque afinal de contas, eu tenho que trabalhar, eu tenho meus alunos me esperando, eu tenho um livro para divulgar, eu tenho que escrever um texto encomendado por uma editora, eu tenho que estudar francês, eu tenho que faxinar a casa, eu tenho... Como esse "eu tenho que" assombra a nossa vida, especialmente a das mulheres!Como ele aprisiona, como ele faz com que a gente se violente, se obrigue a fazer coisas mesmo sem saúde para elas.
E não me permitindo ficar doente, tomando um comprimido aqui e outro lá, continuei naquele ritmo intenso, até que meu corpinho mostrou quem é que manda. Ele me mandou calar a boca, me fez ficar no cantinho da disciplina, para pensar... Principalmente em como eu o tenho tratado mal. 
Pois é, então desta vez, meio na marra, eu me permiti ficar doente e até fui ao médico. Vejam só que progresso! E estou aqui em casa há dias com meus lenços de papel, meus antibióticos e chás de gengibre com limão. Acho que esse post inteiro deve ser efeito de tanto chá... Há muita filosofia no chá de gengibre.
Penso seriamente que a doença às vezes chega para nos mostrar que estamos nos cuidando mal, para nos alertar que tem algo errado na nossa maneira de viver a vida. E como a gente se faz de surdo nessa hora! A gente insiste em não entender o que o corpo fala. Insiste em não lembrar que quando ele vai mal, tudo vai mal.
Levanto minha xícara como se eu fosse fazer um brinde. É, estou celebrando este momento em que eu me permiti ficar doente. Bebo mais um golinho do meu chá de gengibre, que está bem quente, picante e vai aliviar a dor que eu estou sentindo na garganta. E quiçá me inspirar outro post, depois que eu me livrar do sono que o antitérmico começa me dar.  E que me vence completamente. Às vezes, é bom se deixar vencer...
 

sábado, 3 de agosto de 2013

Habitar a cidade

Julho passou como um sopro, ora frio, ora morno, em seus dias curtos. Houve muita vontade de escrever, mas fiquei distante de computadores, empenhada que estava em apenas contemplar paisagens, as conhecidas e as novas.
De férias da sala de aula, resolvi conhecer Campinas. Sim, eu moro em Campinas, há anos, quase décadas. Então parece estranho dizer que resolvi conhecê-la agora. Mas é que não a conheço tanto assim, confesso. Havia muitos lugares ainda por serem conhecidos. E muitos cujo conhecimento ainda foi adiado.
A verdade é que muitos de nós não habitamos as cidades onde vivemos. Habitamos nossas casas, nossos apartamentos, nossos locais de trabalho e estudo, nossos shopping-centers e supermercados, mas não habitamos nossas ruas, praças, prédios públicos. Não caminhamos devagar observando, sentindo o ritmo da cidade, como ela respira. Eu me peguei pensando isso em uma das caminhadas que fazia entre o bairro do Bonfim, onde moro, e o centro de Campinas.
Passei pelo Botafogo, por ruas de casas antigas, com jardins de rosas à frente e senhoras varrendo as calçadas. Passei por praças escondidas no bairro do Guanabara, com crianças brincando e pequenos restaurantes agradáveis onde se podia comer uma comida caprichada por um preço justo. Cheguei ao centro e o ritmo da respiração era outro: muitas pessoas andando, comprando, falando. Na praça em frente à catedral metropolitana, sindicalistas faziam discursos. Alheios, os anjos da fachada em sua imobilidade que se sobrepõe a todas as preocupações mundanas. Descendo um pouco, o Mercado Campineiro, com suas bancas de frutas e um bar delicioso, onde se podia provar chopps de lugares distantes e encontrar os amigos. A conversa sempre boa com a amiga e historiadora Juliana Meirelles foi tão longa que acabou no Café Regina, lugar querido a todos que habitam o centro da cidade. Estar lá é uma experiência que começa pelo olfato: sentir o cheiro delicioso do café torrado ali mesmo. E depois bebê-lo, é claro, bem devagar. A pressa é sempre inimiga da diversão. Depois saímos a caminhar pela praça do Carmo, um céu de azul muito macio envolvia a tarde de sábado. E como se as pessoas todas se soubessem envolvidas por ele, um clima de tranquilidade pairava sobre as mesas, nas calçadas, com pessoas de todas as idades e estilos.
Diante de tantas notícias que nos bombardeiam todos os dias sobre os males da cidade e da a violência urbana, deixamo-nos invadir por  uma insegurança constante, quando não por uma sensação de pânico.  E uma das consequências disso é que deixamos de habitar a cidade. Deixamos de ocupar seus espaços, que são nossos, e com isso, ela se torna cada vez mais degradada e à mercê daqueles que as usam como palco da criminalidade e do vandalismo. Eu adoro andar pela cidade. Ver as pessoas nas ruas, nos lugares públicos, porque isso é que dá alma à cidade. Só o ser humano pode dar sentido a paredes de concreto, a estruturas de aço e vidro.