segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Havemos de amanhecer?

Já escrevi neste blog que quando a realidade me cutuca, eu preciso escrever. Mas tem dias que a realidade me esmaga - o peso da fatalidade, o fato consumado que repete o que parece não mudar nunca... É assim que eu tenho me sentido todas as vezes que leio as notícias sobre os conflitos entre Israel e a Palestina, ou melhor dizendo, sobre o massacre cruel que Israel está comandando sobre uma população indefesa.
Há dias tenho pensado e tentado escrever sobre isso, mas foi em uma sala de aula que consegui partilhar minhas ideias e angústias sobre o assunto. Ser professora me dá muitas oportunidades - não apenas de falar de literatura, de partilhar meu conhecimento sobre algo que é tão vital para mim, mas sobretudo de ter o consolo de, através de versos e poemas lidos e compartilhados, encontrar ao menos um alívio para as minhas tantas indagações.
Na semana passada, eu estava no 3º ano do Colégio Dom Barreto e começamos a ler Drummond, mais especificamente os poemas de "Sentimento do Mundo" e "A Rosa do Povo". E de repente, o espanto: não parecia que o poeta mineiro escrevia em meados da década de 40. Quando comecei a declamar "A noite dissolve os homens", quase pude imaginar o risco das palavras no papel naquele exato momento:

A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...

O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.


Pensei nas imagens vistas no dia anterior, de crianças palestinas mortas, de hospitais e escolas bombardeados. A noite cai, tremenda, sem esperança, neste exato momento. A noite, a escuridão da violência, do ódio, da intolerância dissolve os homens, dissolve sua humanidade e não se vê mais irmãos - são todos inimigos. Uma noite completa e sem reticências - apenas um ponto que finaliza tudo, que inutiliza até o sofrimento. Os suicidas têm razão.
Senti que muitos alunos se deixavam levar pelo peso das palavras, pela minha voz também pesada. E interrompi a leitura do poema e perguntei a eles: "Não parece que a humanidade anda em círculos"?
Alguns assentiram imediatamente com a cabeça, outros me dirigiram os olhos interrogativos. Então expus meu pensamento: quando Drummond escreveu estes versos, a noite caía especialmente sobre a comunidade judaica. Milhares de judeus indefesos foram mortos no maior genocídio da história. E agora, décadas depois, a nação criada para eles no pós Segunda Guerra Mundial, como forma de indenizar tantos sofrimentos, é que comanda o genocídio. Sim, genocídio, esta palavra assustadora, tenebrosa. Ontem, vítimas; hoje, algozes. Mas independente de nacionalidades ou orientações religiosas (não é este o ponto da reflexão), parece-me que a humanidade tem sempre girado nesta roda-viva, em que alternam-se vítimas e algozes, mas eles sempre existem, reproduzindo eternamente a violência extrema de que o ser humano é capaz.
Aí eu percebi o desalento no olhar de alguns, a perplexidade no de outros, em um silêncio raro nas salas de aula atuais. Aí senti que era o momento de terminar minha leitura:


Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
Os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para cobrir tuas pálidas faces, Aurora.


Eu me envolvi tanto na declamação destes versos que não me contive e, em um gesto espontâneo, abracei o livro que tinha nas mãos e disse: "Obrigada, Drummond". Alguns alunos sorriram, aquele riso complacente de aluno que acha a professora louca. Mas foi essa a minha reação mais sincera, agradecer ao poeta que me convidava a acreditar na  Aurora, ainda que seja tímida e inexperiente. Perguntei aos alunos o que eles pensavam sobre esta segunda estrofe, e muitos citaram palavras como "fim da guerra", "esperança", "reconciliação entre os povos". 
O mais bonito, para mim, é que Drummond não faz uma oposição entre a noite e o dia. Ele sabia que o dia e sua claridade, sua alegria, sua certeza ainda estavam distantes. Mas ele fala da aurora, essa promessa da manhã de paz que se estende sobre o mundo. Uma aurora que transforma o sangue da violência no tom rubro do céu que anuncia a chegada do sol. Uma aurora em que a fadiga cessa, em que o perdão e sua maciez se concretizam nas mãos que se enlaçam. 
Obrigada, Drummond! É tudo que sei dizer. Minha carne também estremece na certeza da vinda desta aurora, embora a manhã tarde há tantas décadas, talvez desde sempre. E esta demora muitas vezes me faz estremecer na dúvida: havemos mesmo de amanhecer? 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Eles passarão, eu passarinho"

Última semana de julho - despedida das férias escolares, um novo semestre que chega já com os cansaços acumulados do primeiro, especialmente porque a palavra férias, para a maioria dos professores, não deixa de ser entre aspas... Eu mesma, neste mês, li, pensei, escrevi, e nesta semana, lá estava entre tantos professores no COLE - o Congresso de Leitura do Brasil, que ocorre na Unicamp bienalmente. Um evento querido, que sempre renova minhas energias e esperanças na docência ao ver tantos professores inquietos, relatando suas experiências, projetos, dúvidas e angústias, mas também seus muitos acertos e delícias nessa aventura que é formar leitores na realidade contemporânea.
Mas algo singular marcou o COLE deste ano de 2014: a despedida de autores reconhecidos e queridos. Atipicamente, a Academia Brasileira de Letras está com 3 cadeiras vagas: Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna deixaram este mundo - ou como melhor diria um outro acadêmico famoso, Guimarães Rosa, encantaram-se - nos últimos dois meses. Rubem Alves, falecido no último fim de semana, foi lembrado e reverenciado pelos poetas e amigos Severino Antônio, Régis de Morais e Carlos Brandão. E algo mais especial ainda, para mim, foi minha primeira participação neste evento como escritora.
Além do privilégio de lançar meu livro Embaixo da cama em Campinas, ao lado dos já referidos poetas, de Margareth Park e Tarcísio Bregalda, no dia 23/07, ontem, no dia 24, pela manhã, tive a oportunidade de conversar com o público e contar histórias. Foi um momento muito especial para mim. Comecei, como os poetas no dia anterior, com uma homenagem, mas não para estes escritores que morreram nestes últimos meses. Eu quis homenagear uma contadora de histórias bem menos famosa e muito importante para minha formação: minha avó, Júlia Silvério Correia. Neste mesmo blog, eu já escrevi sobre sua influência sobre meu amor pelas histórias numa crônica denominada "Meu primeiro aprendizado da poesia", lida ontem no COLE.
Tenho em minha sala um daguerreótipo dos meus avós maternos. Para quem não sabe, trata-se daqueles retratos antigos, geralmente colocados em molduras ovais, que eram retocados depois pelo retratista, para inserir cores, e que ficavam com uma coloração meio cinza, meio azulada, muito peculiar. Se minha avó estivesse viva, teria completado, nesta semana, 110 anos. Há 20 anos ela encantou-se. Mas olho sempre para aquele retrato na minha parede, às vezes buscando a coragem que me falta, às vezes imaginando seu olhar de aprovação às minhas lutas e muitas vezes com gratidão. Por ela ter gerado minha mãe e indiretamente, a mim. E por ela ter nos alimentado. Não apenas com o caldo de fubá com couve, os bolinhos de polvilho, os bolos de caçarola - mas por ter nos alimentado com a poesia tão cotidiana das colchas de retalho, dos pontos de crochê e das histórias que ela contava. Minha avó Júlia, minhas tias Teresa, Maria e Manuela me ensinaram a ouvir histórias, e assim ler um pouquinho esse bicho estranho e fascinante que é o ser humano. Por que é isso que está por trás das histórias, sejam elas cantadas, contadas ou escritas; sejam elas boas ou ruins; famosas ou anônimas.
Escrevemos porque somos humanos e porque transbordamos pela palavra. Às vezes, nos bancos das universidades, envergonhamo-nos desta verdade porque nos parece piegas e pouco científica. Queremos nos convencer talvez que a literatura é nosso objeto. Talvez seja para quem não a tem nas entranhas, para quem apenas a analisa e não a vivencia em seu modo de dizer-se e dizer o mundo.
Escrevemos porque nossa humanidade nos faz limitados, e transbordar-se pela palavra talvez nos engrandeça, talvez nos ajude na ilusão que permaneceremos. Júlia, Manuela, Maria e Teresa estão mortas, mas suas histórias - e até o timbre de suas vozes - ecoam no meu pensamento. Rubem, João, Ivan, Ariano (e agora seus sobrenomes não lhes valem, nem quaisquer outras convenções deste mundo) também, mas seus tantos versos, e contos e causos ficarão ecoando no pensamento de alguém, voando por este mundo... Pois como disse outro poeta já falecido, Mário Quintana, "eles passarão, eu passarinho".
Não consigo imaginar o voo que não seja pela palavra.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O maravilhoso-terrível: a maternidade

Não, meu texto não está atrasado. Eu propositadamente deixei passar o chamado Dia das Mães para escrever este texto. Deixei passar o afã da data, os comerciais fofos e todo o apelo comercial para escrever estas ideias que rumino há muito tempo.
Primeiramente porque não deveria ser preciso um dia no calendário para que a gente se lembrasse de expressar gratidão, admiração e afeto; mas, atualmente, infelizmente, tem sido assim para todos nós. E o pior, como temos consciência disso, a indústria e o comércio não deixam de explorar nossa culpa. A mensagem subentendida em muitas propagandas é: "como você não tem tempo para estar com sua mãe o quanto deveria, dê um grande presente para demonstrar o quanto você a ama" - pois nessa sociedade em que números valem tanto, é necessário quantificar o amor. E lembro-me de uma crônica do Veríssimo que coloca de forma hilária este aspecto: "O dia da amante". No início do conto, considerando os lucros do Natal, mas lamentando haver apenas um Jesus Cristo, um grupo de comerciantes resolve criar o Dia das Mães - afinal, quem se oporia? Ser contra o Dia das Mães seria ser contra a própria Mãe, com maiúsculo mesmo, ou seja, contra essa "instituição"!
Mais do que refletir sobre os apelos comerciais dos "Dias do/da ...", eu quero mesmo é falar da "instituição".  Perceba que a palavra instituição, embora sonoramente semelhante, é diferente de instinto. Portanto, a expressão instinto materno revela uma visão da maternidade que me parece equivocada: a ideia de que toda mulher quer ser mãe porque isso faz parte da natureza, é um instinto da fêmea. Se analisarmos os seres humanos como animais que somos, podemos pensar no instinto de procriação, pela necessidade de toda espécie de se perpetuar, mas não necessariamente de ser mãe - o que excede a biologia e se configura em um papel social, construído através da tempo e variável conforme a sociedade, o período histórico, etc.
Desculpem-me, leitores, especialmente leitoras, se esta afirmação é chocante para vocês. Eu entendo, afinal, somos educadas para acreditar que a maternidade é nosso destino natural, se não o essencial. Que sem filhos uma mulher não é completa. E, em uma visão cristã, que lhe estabelece uma "aura de santidade", a mãe é aquela que é só amor, perdão, abnegação: tudo suporta, tudo entrega, nunca pensa em si mesma e sorri com tudo isso. E para terminar essa lista: no imaginário geral, a mãe é vista como um ser assexuado - sua sexualidade já cumpriu sua principal função que é procriar, e sua sensualidade deve ficar oculta, até mesmo porque agora ela tem esse papel de "santa". Mas as mães não são (e talvez não devam) ser assim.
Não quero, com estas afirmações, negar a generosidade, o altruísmo, a responsabilidade que uma mãe (assim como um pai) deve ter para com seus filhos. E isso requer algumas renúncias, obviamente, pois crianças precisam daquilo de que hoje muitos de nós menos dispõem: nosso tempo e nossa atenção. Mas a minha análise discute exatamente o que, na minha visão, oprime as mulheres e as impede de curtirem mais a condição de mães: a idealização da maternidade como a melhor experiência da vida de uma mulher, e da mãe como esse ser sobre humano que descrevi acima. Quantas mulheres não caem nessa armadilha? Diante das propagandas, filmes, novelas que mostram mães embevecidas com bebês bonitos, saudáveis, carinhosos e sorridentes; diante de depoimentos comovidos sobre "ser mãe é a melhor coisa do mundo", algumas mulheres engravidam sem refletir no quanto, a partir deste momento, a sociedade lhe cobrará, quantos problemas ela vai ter que enfrentar e quantos momentos de conflito vai viver na construção de uma relação com esse outro ser que virá dela. Sim, construção, pois, contrariando a ideia de que uma mãe conhece seu filho desde que ele foi concebido, esse ser que habita seu ventre por nove meses é um ser diferente, com desejos, necessidades, personalidade próprios. Quanto mais ele cresce, mais isso se evidencia.
E muito além dos sofrimentos físicos das mães (o bombardeio de hormônios, o parto, a amamentação), há a já referida cobrança. Pois a mãe de verdade, a mãe com M maiúsculo eram as de antigamente, as que viviam para o lar. Antes que os leitores me acusem de exagero, pensem em quantas vezes, em conversas cotidianas e informais, se menciona o fato de tal criança estar aprontando muito, ou estar indo mal na escola, porque a mãe trabalha fora e, portanto, não dispensa o tempo necessário para educar, corrigir, orientar o filho. Percebam: raramente se fala que é o pai que não cumpre seu papel. Por quê? Porque ainda reina na mentalidade das pessoas que esse papel é da mulher. Nunca se exigiu de pais que renunciassem sua vida profissional e social para cuidar dos filhos. Sua obrigação era apenas prover. Hoje, a maioria dos lares brasileiros têm uma mulher como provedora. Mas, se observamos nas últimas décadas essa mudança do papel da mulher na família, o contrário não se observa: no geral, pais não passaram a ser mais responsáveis pelos trabalhos domésticos e pela educação dos filhos já que eles não são mais os únicos provedores da família. Há, sim, homens que assumem estes papéis, mas curiosamente, eles são aplaudidos como os maridos "que ajudam as esposas" - ou seja, o verbo revela que a responsabilidade continua sendo delas: o homem apenas ajuda por generosidade.
A mulher que não renuncia de seus interesses acadêmicos, profissionais e pessoais paga um preço alto por isso - não apenas a cobrança da sociedade, da mídia, da família, mas de si mesma. É nesse ponto que eu afirmo que a idealização da maternidade evita uma vivência feliz da mesma. A mulher que estuda, trabalha ou mantém atividades que não se relacionam com seus filhos diretamente sente culpa, pois, afinal, ela aprendeu e internalizou que deveria ser a mãe perfeita. Ainda que não pense isso conscientemente, ela se pergunta o tempo todo se é uma boa mãe, se o que faz é suficiente e correto para que seu filho seja saudável e feliz. Essas mulheres se exigem muito, e exatamente por não terem optado pela maternidade como full time job (considerando ainda que muitas nem tem essa opção, pois precisam de dinheiro para sustentar seus filhos), precisam provar para elas mesmas e para a sociedade que são boas mães e que fizeram a escolha certa. Isso gera uma ansiedade enorme, e também grandes doses de frustração, pois nem maridos, nem filhos, nem mães são perfeitos. São simplesmente humanos. E o dia a dia das famílias vai muito além daquele divertido comercial de margarina.
Além disso, há ainda outro ponto da idealização das mães que me incomoda: a não percepção de seu papel de opressão em relação às suas próprias filhas, de seu papel de omissão em relação a seus próprios filhos e, consequentemente, em seu papel fundamental na manutenção de uma sociedade androcêntrica e violenta para com as mulheres. É bizarro, mas muito comum, ouvir mães repetindo que dois filhos foram "criados igualzinho, mas são tão diferentes!". Bizarro porque relações interpessoais são únicas - ou seja, a relação que eu tenho com uma pessoa nunca será igual à que eu tenho com outra, pois as afinidades, os sentimentos, as rixas, as relações de poder são únicas em cada relação. Mas quando estas pessoas são filhos, e de sexos diferentes, as diferenças em sua educação, no Brasil, são muito visíveis. Já vi pessoas comemorando por estarem grávidas "de menino" ou frustradas por não estarem; outras falando "Que sorte!" para mães que só têm filhos homens. Já presenciei mães mandando filhas limparem a bagunça que seus irmãos fizeram, enquanto justificavam que "menino é assim mesmo, é mais bagunceiro, né?". Já ouvi mães dizendo para as filhas "se darem ao respeito" e até condenando sua sensualidade, enquanto sorriam ao ouvir que seus filhos eram "terríveis", que "não perdoavam uma", que "pegavam todas as meninas da escola" e pior, já vi mães culparem as namoradas dos seus filhos quando havia uma gravidez precoce, afinal, "como ela não se cuidou?" ou "ela fez de propósito para acabar com a vida do meu filho".
São tantos os exemplos que eu ficaria horas aqui escrevendo essas cenas que parecem do século XIX, mas que acontecem agora, quiçá neste momento em que escrevo. E volto à minha questão: essa diferença de tratamento entre meninos e meninas por suas próprias famílias ensina, nas entrelinhas, o valor de cada um na sociedade, mantendo a baixa auto-estima das meninas, que um dia serão mulheres e, talvez, mães. E que provavelmente, como mães, vão perpetuar essa visão depreciativa das mulheres e sua opressão. Recentemente, em conversa com uma amiga, ela me disse que, quando sua mãe faleceu, ela viu no caixão uma mulher real, enquanto que, para seus irmãos, havia morrido uma santa. E eu desconfio que isso não é prioridade da família dela: conheço homens inteligentes que estudam, leem e analisam criticamente tudo, mas são incapazes de fazer uma reflexão racional sobre suas mães, especialmente sobre como eles foram (e são) tratados de forma tão mais amorosa e benevolente por suas mães do que suas irmãs.
Freud, misógino que era, falava da necessidade de matar o pai simbolicamente em um processo de desenvolvimento saudável, na passagem para a fase adulta. Ele não percebeu talvez que, especialmente para nós mulheres, é mais difícil e importante matar a mãe. E isso não significa não amá-la, não reconhecer sua generosidade, suas renúncias, seus ensinamentos, seu amor. Ao contrário: é perceber que na sua humanidade, e na fragilidade inerente a essa condição, ela significou e significa muito, para o que há de melhor e de pior em nós. É preciso que uma mulher mate o machismo, a subserviência, as neuroses, a depreciação do ser mulher que provavelmente sua mãe, indiretamente, ensinou-lhe. E sobretudo, matar a idealização da maternidade, que impede tantas mulheres de viverem algo tão maravilhoso, mas tão terrível, com mais leveza, mais alegria, e menos culpa. Para que o primeiro adjetivo seja mais forte que o segundo.
 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A falácia da simplificação

Segundas-feiras são tradicionalmente lamentosas - por que o fim de semana passou tão depressa? Imagine-se então uma segunda-feira pós feriado prolongado. Comecei o dia com um certo mau humor, ainda que seja maio, o mês mais lindo do ano, com suas manhãs frescas, azul denso no céu, luminosidade única.
Mas nem o azul de maio me trouxe consolo e liguei o computador para começar meus trabalhos, quando me deparei com uma notícia triste: "Escritora muda a obra de Machado de Assis para facilitar a leitura" (disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cidadona/2014/05/1445858-escritora-muda-obra-de-machado-de-assis-para-facilitar-a-leitura.shtml). Os leitores podem alegar que há coisas muito mais tristes acontecendo agora e que me entristecer com isso parece fútil diante das guerras e das mazelas terríveis pelas quais passa a humanidade. Mas eu explico porque essa notícia é digna de tristeza, já que interrompi outros trabalhos para escrever este texto e partilhar as ideias que começaram a me cutucar sem trégua.
Não é mistério para ninguém que sou apaixonada pela literatura, como escritora e como docente. E amo muito a obra de Machado de Assis. Sem dúvidas, este é um dos maiores autores do nosso país, quiçá de nosso continente e da literatura universal, embora pouco reconhecido internacionalmente. Mas não pensem que o meu texto vai na direção do "é um sacrilégio adaptar o grande Machado". Não se trata disso. Não se trata de incensar um autor canônico, dizendo que, depois dele, não há nada de bom a ser escrito. Nem condenar o autor que "aceita esse trabalho sujo" (conforme eu li em um comentário no Facebook), ou seja, o de adaptar uma obra clássica.
O que me incomodou nesta notícia foi a ideia leviana de que é possível "simplificar um autor", sem "mudar o que ele disse" - afirmações da escritora Patrícia Secco, que lançará em junho uma "versão simplificada" de O alienista. Elas demonstram que Secco não compreendeu muito do fazer literário. Afinal, se ela acredita que, tornando as frases mais curtas e trocando palavras difíceis por sinônimos ela estará, ainda assim, apresentando aos leitores um texto de Machado de Assis, e não de Patrícia Secco, ela não se deu conta ainda de seu ofício. Literatura não admite copidesque (salvo se feito pelo próprio autor, ou com a anuência deste, e preferencialmente antes da publicação): cada palavra tem seu peso, sua substância, seu sentido naquele texto que é único não necessariamente por suas ideias, mas por sua forma. E isso ocorre não apenas em textos de autores canônicos, mas em textos de autores jovens e pouco conhecidos que fazem literatura sem nenhum prestígio, nenhum glamour...
Então o problema não é "profanar" o Machado de Assis, mas a visão rasa, equivocada do conceito de autoria e de construção literária que Secco deixa transparecer em sua fala. Talvez ela não tenha percebido, ao ler Dom Casmurro, que seu enredo, ou seja, os fatos relatados no livro não são inovadores: um homem, ao considerar seu filho parecido com seu melhor amigo, considera sua esposa adúltera; eles se separam e, na velhice solitária, ele escreve um livro para relatar como ela sempre fora dissimulada e interesseira. Quase poderia ser transformado em um twitter, só para lembrar outra bobagem proferida, não há muito tempo, sobre outro clássico da literatura. Mas o que importa neste livro não são as ideias, ou "o que ele disse", mas como disse. O que faz deste livro um dos mais interessantes que já li é a personalidade de seu narrador-personagem, que sutilmente deixa transparecer que o foco daquele livro não é o adultério, mas o ciúme, tão intenso que ultrapassa a própria passagem do tempo (outro tema fundamental da obra). Há formas de simplificar isso? Se os nossos alunos não entendem que a palavra ressaca pode ter mais de um sentido, então o jeito é modificar a célebre expressão "olhos de ressaca", que caracteriza Capitu? Secco realmente acredita que fazer isso não seria "mudar o que ele [Machado de Assis] disse"?
Entretanto, gostaria de ressaltar, de forma bem clara, que não sou contra adaptações. E não estou me contradizendo, conforme os leitores perceberão. Minhas pesquisas, desde o mestrado, trabalham com adaptações, que não considero, necessariamente, como mutilações de obras literárias. O que eu quero dizer é que o juízo de valor não está necessariamente atrelado ao fato de uma obra ser ou não uma adaptação de outra obra anterior, mas na sua qualidade, na sua relevância em si. Obviamente, há adaptações muito ruins, que se constituem em paráfrases simplistas e mal feitas de obras que, no original, são riquíssimas, verdadeiros patrimônios da arte nacional e universal. Essas sim são meras mutilações. Em contrapartida, há adaptações (não apenas literárias, mas plásticas, cinematográficas) que dialogam com as obras primeiras (isto é, àquelas a que fazem referência) - configuram-se em objetos literários, que, embora tenham parte de seu sentido atrelado a uma obra que os antecede, tem autonomia e qualidade artísticas.
Esclareço esse ponto de vista muito particular, ao qual cheguei depois de anos trabalhando como professora e como pesquisadora de literatura infanto-juvenil, para dizer que não acho que fazer adaptação de uma obra clássica é "um trabalho sujo". O problema é a falácia da simplificação, isto é, a crença equivocada de que temos que tornar tudo fácil e divertido para os nossos alunos. A falácia consiste exatamente na ideia de que a diversão só acontece com o que é fácil, e que só faremos nossos alunos gostarem de ler se oferecermos a eles textos que eles compreendam imediatamente. O que não é verdade: crianças e adolescentes são muito espertos, e detestam textos bobos. Na maioria das vezes, eles percebem rápido quando os consideramos ingênuos e pouco capazes e usam isto quando lhes é conveniente. Mas quando os tratamos como pessoas pensantes e apresentamos um livro mais denso, dizendo que ele é maravilhoso, um pouco difícil, mas que confiamos na inteligência e coragem deles para lê-lo, a relação com o livro, com a literatura e com a escola muda.
Outra falácia da simplificação é que ela parece "boazinha", comprometida com a educação, mas, indiretamente, subestima nossos alunos e alcança efeitos inversos aos que propõe. Ouve-se tanto que os adolescentes leem cada vez menos e que, quando o fazem, não alcançam os níveis de compreensão leitora necessários à sua faixa etária e escolar. E como vamos melhorar isso? Oferecendo aos nossos alunos textos cada vez mais simples, com frases curtas e palavras que eles já conhecem? Ou o papel do professor de língua portuguesa e literatura não é ampliar o conhecimento de vocabulário, de estrutura textual, e consequentemente, da capacidade de reflexão e expressão?
Sinceramente, não creio que isso se alcance com o "Eu simplifico isso" de Patrícia Secco. Especialmente porque é ingênuo demais acreditar que é possível simplificar obras que não são complexas apenas na linguagem - esta apenas reflete a complexidade do próprio ser humano e de sua vida em sociedade, temas não só de Machado de Assis, mas de outros grandes autores da literatura nacional, clássicos ou contemporâneos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vias de encontro

Falar de encontros e desencontros é um lugar comum da poesia e da canção, desde que Vinícius (sim, temos intimidade para que eu o chame assim, pelo primeiro nome) popularizou o tema nos famosos versos "A vida é a arte do encontro/ Embora haja tantos desencontros pela vida". Mas a expressão "lugar comum" não deve ser vista em seu prisma negativo. Se para alguns ele remete ao clichê, para mim remete aos temas comuns a todas as épocas e todas as sociedades, por não se esgotarem nunca. Há como não falar do encontro? Com a arte, consigo mesmo, com o outro?
A música, sem dúvida, é uma das maiores vias de encontro do ser humano, tanto consigo mesmo quanto com o outro. Pela música, transcendemos, abandonamos a língua aprendida de nossas mães por uma linguagem que, me parece, não se explica, mas todos entendem. Através da música, pessoas se encontram - sejam porque compartilham o gosto por estilos, compositores e cantores, sejam pela reunião prazerosa de ouví-los ao vivo, e até mesmo - o encontro com o corpo - dançá-los. Não há portanto título mais bonito para um CD do que Vias de encontro - que será lançado pelo compositor Rodrigo Duarte no próximo sábado, dia 26 de abril de 2014, às 17 hs, na Livraria Cultura de Campinas.


Conheci Rodrigo e sua música há uns bons anos (está bem, confesso, há mais de uma década), quando ainda era estudante de graduação na Unicamp. Lembro-me de inúmeras apresentações na universidade, de shows do Quarteto de Cordas Vocais (ainda firme e forte com seu samba de qualidade), de uma montagem da Ópera do Malandro, no Centro de Convivência Cultural de Campinas, no final dos anos 1990, em que Rodrigo interpretou "Pedaço de Mim", de Chico Buarque. Sempre me agradaram sua bela voz  e a sensibilidade que imprime à interpretação de clássicos da MPB, o que podemos notar nesta interpretação de "Resposta ao Tempo", de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos (com a presença do último, com quem Rodrigo fez uma apresentação em dezembro do ano passado, na Praça Carlos Gomes):

https://www.youtube.com/watch?v=Tms-808IEfY


Vias de encontro é o primeiro trabalho autoral de Rodrigo, que atua também como compositor. Generosamente, ele me enviou a letra de uma das canções do disco, para que os leitores tivessem um gostinho:



Quadro da Noite
(Rodrigo Duarte)

Por entre os dedos da noite,
Branca luz no céu aparece,
Pérola astral que, em nuas águas,
Reflete.

Suave é a brisa da noite,
Percorre a pele que veste
Átomo astral, que atroz,
Vibra Celeste.

Negro é o quadro da noite,
Mil olhos solares, abraça,
Constelações em estado
De Graça.

Serena dama da noite,
Doce é o aroma que despe
Pétala astral que aflora
E enlouquece.

Raio que irrompe em açoite,
Louco farol transparece,
Ápice astral reluz e o breu
Fenece.



Fiquei com vontade de conhecer todas as canções. Vocês também? Então anotem aí na agenda:

POCKET SHOW DE LANÇAMENTO - CD "VIAS DE ENCONTRO" - RODRIGO DUARTE & GRUPO
ONDE: LIVRARIA CULTURA, SHOPPING IGUATEMI CAMPINAS
QUANDO: DIA 26/04/2014, SÁBADO, ÀS 17 HS

A gente se encontra por lá, porque a vida é a arte do encontro...


sábado, 29 de março de 2014

Sobre cantinas, direitos e ditaduras

Depois de mais de uma década, entrar nas mesmas salas de aula - agora com outro mobiliário, computadores, datashow, ar condicionado... Eram as mesmas salas de aula do IEL, o Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, mas ao mesmo tempo, não eram mais! E essa contradição se explica: não eram só os móveis que estavam diferentes, não era apenas eu que não era mais a mesma (seres mutantes que somos nesse fluxo contínuo do tempo), mas tenho a sensação também de que a universidade mudou.
Não, esse não é apenas um post nostálgico, que vai concluir que "o passado é uma roupa que já não te serve mais", como diria o sábio Belchior. Também não vou enveredar pelo clichê "na minha época era melhor", e sim compartilho algumas reflexões que me assaltam nestes dias em que vemos notícias surpreendentes (ou nem tanto, infelizmente) de pessoas saírem às ruas e se manifestarem na web pedindo a volta de uma ditadura, ou de uma tropa de choque ser acionada dentro de uma universidade pública, a saber, a UFSC, para tratar estudantes como inimigos e criminosos.
Antes que algum leitor pense que a coerência me abandonou de vez, explico-me: entre as mudanças que tenho notado na Universidade Estadual de Campinas, chamou-me a atenção a diminuição significativa do números de cantinas na universidade. Particularmente, chocou-me o fechamento da cantina do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), pela ligação deste lugar com minha história pessoal e acadêmica. Foram muitos os dias em que, sentados nesta cantina, eu e meus colegas não apenas almoçamos e tomamos café, mas lemos textos, discutimos ideias, concebemos projetos que se materializaram em aulas, artigos, dissertações, teses, poemas, contos... Neste lugar, muitas reivindicações tomaram corpo, muitas lideranças se encontraram. E isso me leva a concluir que o fechamento de tantas cantinas (sobretudo na área de humanas e artes do campus) pode ter trazido o bônus de evitar alguns problemas como estes jovens desocupados que iam à Universidade só para fumar maconha, planejar greves e ficar perturbando a ordem.
Como escolhas lexicais não são aleatórias (momento análise do discurso), o pode ter trazido o bônus revela que eu já sei das justificativas oficiais para o fechamento destas cantinas, especialmente a do IFCH: questões sanitárias e estruturais foram levantadas, mas curiosamente não me parece ter havido muita tolerância para que estes locais se adequassem às novas condições. De qualquer forma, o que salta aos meus olhos toda vez que caminho até a cantina da Física para tomar um cafezinho, e vejo vazios aqueles espaços que antes aglomeravam tantos estudantes, é que a Universidade tem deixado, cada vez mais, de ser esse espaço de encontro e debate de ideias para ser um lugar onde as pessoas chegam, assistem suas aulas, e vão para a biblioteca, para o trabalho ou para casa.
Há boatos de que a intenção do fechamento das cantinas é a criação de uma praça de alimentação no Ciclo Básico (praça localizada no centro do campus). Isso me fez lembrar que, no ano em que entrei na Universidade, a cantina do IEL fechou e abriram-se licitações; o então diretor, o prof. Wanderley Geraldi, recusou uma proposta do Mc Donalds, dizendo que fast-food não era o perfil de uma cantina universitária, em que as pessoas não vão só para comer, mas também para estudar e conversar. E depois de tantos anos, parece que esse perfil será esquecido ao se colocar dentro da universidade uma praça de alimentação aos moldes de um shopping center.
Mas o que tudo isso tem a ver com a nova Marcha da Família ou a invasão da UFSC pela Polícia Federal e a tropa de choque? Eu creio que são fatos que revelam a mesma onda neoconservadora que estamos presenciando. Qual a principal bandeira dos que, neste fim de março de 2014, clamam a volta dos militares ao poder (em um anacronismo que dói aos ouvidos, já que eu questiono se as Forças Armadas teriam condições para isso na atual conjuntura)? Eles clamam pela ordem. Diante da corrupção e da ineficiência da educação e da saúde pública, eles clamam pela volta de uma ditadura militar, sem refletir no quanto esta contribuiu para a construção deste estado (e Estado) lamentável. É uma ingenuidade (na melhor das hipóteses) que beira ao risível, pois a qualidade da educação e da saúde pública já não era exemplar entre 1964 e 1985, quando ela atingia bem menos pessoas e não era um direito universal (como foi garantido depois pela constituição de 1988). Da corrupção então, nem se fala! É claro que não havia escândalos de corrupção naquela época, com a existência de um AI-5, uma imprensa calada e um governo que podia, portanto, fazer absolutamente tudo o que quisesse, inclusive prender, torturar e matar pessoas!
 De uma forma messiânica, os que clamam a "volta dos militares" acreditam que haverá um poder ditatorial que será capaz de resolver miraculosamente todos os problemas da nação, do dia para a noite. É notável que a ascensão de governos totalitários tenha se dado em momentos de crise, pois o ser humano adora alguém que resolva seus problemas sem ele precisar ter trabalho (e a democracia dá muito trabalho!!!). Mas a que custo? E aí chegamos no ponto mais perverso: as justificativas para a dissolução de direitos individuais, as torturas e as mortes. Em depoimento dado nesta quarta-feira, o coronel reformado Paulo Malhães disse que o regime militar torturou e matou "tantos quantos foram necessários". Confessou a prática de mutilação dos corpos despejados em mares e rios para, se encontrados, não serem identificados por suas famílias. Seu depoimento é chocante, mas ainda mais chocantes são os comentários que o seguem na página da BBC (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140326_depoimento_coronel_ditadura_jc.shtml).
Comentários que afirmam que estas pessoas torturadas e mortas eram criminosas, inimigas da ordem e da nação, que reproduzem a lógica do próprio coronel: "Não foram presos porque jogavam bolinha de gude ou soltavam pipa". Mas os comentários expostos na webpage não são de pessoas dos anos 1960! São comentários análogos aos que ouvimos hoje de pessoas jovens, para justificar qualquer ato de violência contra os que são considerados indesejáveis ou inadequados ao sistema. Assim, os que se sentem dentro da ordem não se importam que os que estejam fora dela sejam privados de direitos, da liberdade ou até da própria vida, já que eles não são pessoas de bem: não trabalham de forma remunerada de 8 a 10 horas por dia, são os vagabundos que querem discutir política nas cantinas universitárias, são os maconheiros. Se estivessem trabalhando, estariam contribuindo muito mais para que o Brasil se tornasse um país competitivo. Essa última frase, eu ouvi literalmente de um professor de uma faculdade privada a respeito de alguns alunos que se organizavam em um movimento pela melhoria da qualidade do ensino na própria instituição.
E eu me pergunto: é isso que queremos: um país competitivo, com um governo forte? É melhor tomar cuidado com aquilo que se deseja...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A dádiva do imprevisto

Faz quase 3 semanas que estou fora de casa. Uma longa viagem, para um país distante - outro clima, outra geografia, outra língua, que embora eu tenha estudado um pouco, a cada dia se mostra mais desconhecida, com gírias, expressões populares, entonações peculiares.
Não me considero uma pessoa viajada, mas creio que já fiz mais de uma dezena de viagens, algumas curtas, outras mais longas. Depois de um tempo, a gente começa a perceber o tipo de viajante que é. Sim, para mim o termo é este: viajante, não turista. Explico-me: para mim, não interessa só o que sai no guia turístico (com todo respeito a estas publicações tão úteis), ou os lugares mais pitorescos, bonitinhos ou arrumadinhos. Quando eu viajo, gosto de conhecer as cidades que visito, andando a pé, de ônibus, de trem, nunca em um táxi que me leve de um ponto turístico a outro. Gosto de escolher meus trajetos e às vezes me perder neles para descobrir uma rua muito legal, com aquele barzinho despretensioso, onde talvez você vai comer o melhor P. F. da sua vida. T'aí: achei uma expressão para me definir: sou uma viajante P. F. : gosto do prato feito, completo, que é cada cidade, com suas muitas cores e sabores diversos. Não sou do tipo alta gastronomia. E gosto de gente, de falar com quem vive ali, com quem vivencia a cidade sem as lentes às vezes glamourosas, e sempre comerciais, do turismo.
Outra peculiaridade de parte desta viagem é opção de viajar sozinha. Descobre-se muito sobre si mesmo nestas ocasiões. Não é minha primeira vez nesta experiência, sei que ela produz efeitos e deixa marcas interessantes. Descobrimos que somos capazes de chegar sozinhos a um país estrangeiro, de dividir quartos com pessoas que nunca vimos, de cozinhar com temperos e alimentos desconhecidos, de pedir o sacarolhas emprestado ao vizinho de mesa sem saber falar a língua dele. Passeamos, conversamos intimamente com pessoas que encontramos pelo caminho e que talvez nunca mais veremos, e ficamos tão gratos por compartilhar com alguém a vista daquela montanha, daquela praia, daquele monumento...
Esta é a verdadeira viagem. É sair do que a gente conhece, deixar a zona de conforto, e abrir espaço para o imprevisto. Só assim a gente descobre que não apenas o mundo é grande: nós também somos!