segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tenho sonhado com estradas

Tenho sonhado com estradas
só o vento limpa as remelas da inércia
sol de madrugada resiste em não nascer
parto longo tingindo o céu ainda não anil
pés descalços no traço 
ébrio de paralelepípedos
meus olhos cegos às placas
coração ritmando a caminhada
pulmões cheios de desejo
de nunca mais voltar
e nunca mais chegar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sociedade dos poetas vivos


Neste último sábado, a sala Carlos Gomes da Livraria Saraiva, em Campinas, foi sacudida por calorosa discussão, na 3ª edição do Projeto 1001 Leituras. O poeta, ficcionista e dramaturgo premiado, Marco Catalão (autor de livros como Cânone Acidental, A face neutra e Agro Negócio) chegava com uma afirmação polêmica: a de que não existe, na literatura ou em qualquer outra arte, o talento inato. Afirmação às vezes incômoda para uma sociedade que, influenciada pelos ideais cristãos (sobretudos protestantes), e mais recentemente, pela ideologia estadunidense (propagada à exaustão pelo cinema hollywoodiano), espera pelos eleitos: aqueles que teriam sido agraciados com o dom. Ou, em uma linguagem menos mítica, os que nasceram mais inteligentes ou com mais aptidão que a maioria para determinadas atividades ou áreas do conhecimento ou da arte.
Catalão afirma categoricamente que não existem eleitos, e sim, pessoas que foram expostas a determinadas condições que favoreceram seu aprendizado, sua pesquisa, sua assimilação tão profunda de um conhecimento ou linguagem a ponto de se tornar um especialista, um campeão, um vencedor de prêmio Nobel. Obviamente, a afirmação gera questionamentos: se qualquer um pode ser um escritor, artista ou cientista por ter sido exposto a tais condições, por que então alguns se destacam? O poeta, também doutor em Letras pela Unicamp, atribui isto às diferenças individuais: não somos todos iguais e não reagiríamos da mesma forma aos mesmos estímulos. Não se trata de determinismo, não somos meros joguetes do meio. Mas sem ele, jamais desenvolveríamos qualquer talento, ele afirma com convicção.
Concordar ou não com estas afirmações não vem ao caso: o que nos interessa é onde Marco pretende chegar em sua tentativa de desconstruir um valor tão arraigado em nossa sociedade. Voltando seu discurso exclusivamente para a criação literária, ele aponta uma das consequências da crença no talento inato: o não investimento na formação do escritor. Afinal, se alguém nasce com o talento, não é preciso passar horas lendo e discutindo textos literários, nem dias e dias escrevendo e reescrevendo textos, nem conhecendo seus pares e o que eles escrevem e publicam. Para Catalão, seria esse o empecilho para que chegássemos a um nível internacional de excelência e reconhecimento na literatura, conforme aconteceu há pouco com a matemática, com a nomeação de Arthur Ávila para a Medalha Fields.
Os que não foram perderam uma acirrada discussão sobre a necessidade ou não de estudos (sejam de natureza teórica ou prática) de forma institucionalizada para a formação de um escritor, haja vista que tantos bons escritores brasileiros constituíram suas obras sem um estudo institucionalizado e muitas vezes conciliando a atividade criativa com outras atividades profissionais. O que importa, de fato, não são as conclusões às quais chegamos, mas a pergunta lançada, o incômodo da indagação.
Toda mudança começa com um incômodo - e é sobre ele que quero falar, na esperança de que algo mude. A fala de Catalão me provoca dúvidas, mas também algumas luzes. Como escritora e, sobretudo, como professora de literatura, estou sempre refletindo em como as pessoas concebem e consomem a literatura, e um fato nas últimas semanas me fez voltar a imagens e ideias já visitadas: a morte, há cerca de uma semana, do ator Robin Williams. Um dos papéis mais famosos deste ator é o de um professor de literatura, no filme Sociedade dos poetas mortos. Assisti a este filme, muito famoso nos final dos anos 80 e começo dos 90, aos 12 anos. Estava começando a escrever meus primeiros versos. O filme me encantou, como a muitos da minha geração, que colocaram algumas suas cenas no Facebook em homenagem póstuma ao ator.
Neste filme, o professor entusiasta procura levar seus alunos a perceberem que a literatura não é algo a ser estudado com gráficos, mas algo a ser sentido intensamente, quase visceralmente. Se durante a adolescência esse filme representou minhas próprias ideias sobre a literatura, eu que delirava com a então recente descoberta pessoal de Castro Alves, Manuel Bandeira e Emily Dickinson, depois de me tornar professora e escritora, comecei a vê-lo com outros olhos. A pensá-lo em suas entrelinhas, nas quais vejo algumas ideias questionáveis sobre a literatura e seu ensino. A pensar que precisa existir um meio termo entre o gráfico e as vísceras.
Sim, literatura é arte, e enquanto arte, constrói-se por caminhos marcados pela subjetividade. Em outro post deste blog, eu afirmo que escrevemos para iludir o tempo, para driblar a morte. Já escrevi por diversão, já escrevi por amor, já escrevi por exasperação, por raiva e por vingança. Quem me leu, lê e lerá, sentirá tudo isto? Não sei - o espaço interativo da leitura também é marcado por subjetividades. Mas uma coisa eu posso afirmar com certeza: não foram meus sentimentos que foram escritos sobre o papel. Como disse o poeta Drummond, em "Procura da Poesia":

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


O que escrevi foram palavras. E foi o longo aprendizado das palavras, a longa convivência com a palavra escrita e literária que fez com que eu me tornasse escritora. Talvez se, desde minha infância, eu tivesse feito aulas de balé, eu seria bailarina, eu materializaria algo destes sentimentos no movimento e não na palavra.
Mas, neste filme, este professor de literatura apresenta-a como mera emoção condensada. É memorável, para mim, uma cena em que o professor incita um dos alunos, que não tinha feito a tarefa de escrever um poema, a compô-lo instantaneamente, de olhos fechados. Segue-se uma espécie de transe em que o garoto declama uma torrente de palavras poéticas. O poema surge, brota magicamente, lindo, perfeito, surreal. Porque já estava ali, no ser que o profere, aparentemente, desde sempre.
Isso seria possível? Talvez. Já tive a felicidade de escrever um poema em um momento que poderia ser chamado de "inspiração". Um momento em que as palavras vieram e as escrevi como vieram e daí surgiu aquele que considero um dos meus melhores poemas, "Mnemoteca". Mas ele não surgiu magicamente na minha mente quando eu tinha 12 anos, mas praticamente aos 30, quando eu já havia acumulado quase duas décadas de leituras e de escrita de textos literários. O que parece um "transe" pode ser visto como um transbordamento de uma linguagem internalizada, com a qual convivi de tal forma que ela passou a fazer parte da minha identidade.
Lembrei-me num flash da cena fílmica que descrevi acima, quando Catalão, em sua palestra, falou das consequências da ideia do talento inato no ensino de literatura, no qual privilegiamos os autores canônicos e os reverenciamos como se eles tivessem produzido toda sua obra em um transe, e não em um processo repleto de questionamentos, hesitações, tentativas e erros. Assim, não damos espaço aos escritores contemporâneos, que estão em processo. E assim reforçamos a imagem da literatura como algo distante, restrito a poucos iluminados, portanto inacessível a nossos alunos. E, por conseguinte, desinteressante à maioria.
Voltei para casa com a sensação de que urge formarmos a sociedade dos poetas vivos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Todo mundo tem a sua cachaça



Sabe aqueles quadros compartilhados à exaustão no Facebook, que colocam “Como meus amigos me veem”, “Como minha família me vê”, “Como eu me vejo” para várias profissões ou situações? Fiquei pensando em como seria um quadro destes que retratasse o escritor.
Há reações diversas quando declaramos para alguém sermos escritores, mas frequentemente ocorre uma certa perplexidade – para não dizer mesmo que alguns se sentem diante de um E.T.. Às vezes, percebe-se alguma deferência: as pessoas nos parabenizam, e não raro falam que gostam de ler, ou sobre a importância da leitura, mas se esquivam delicadamente quando  mostramos um exemplar do livro, com medo de que sejam obrigados a comprá-lo.
Outra reação comum é um olhar de piedade, de complacência, como se dissesse “Puxa, coitado de você que sonha em viver de literatura”. Foi esse o olhar de um professor de ensino médio, quando eu lhe disse, um dia, que eu escrevia poemas e queria ser escritora. Não contente com o olhar e para não deixar dúvidas, ele completou: “Você tem vocação para faquir?”.
Frequentemente, também escuto, ao dizer que sou escritora: “Que legal! Eu faço oficina de origami e dança de salão.” E então você delicadamente explica que não se trata de um hobby, de um passatempo. Nos últimos meses, fui chamada a dar palestras para jovens e professores e uma pergunta que apareceu bastante foi: “Além de escrever, você trabalha?” E as pessoas perguntam isso a sério, porque no imaginário geral da nação, escrever não é um trabalho, nem ser escritor é profissão.
E na contramão deste pensamento, estão aquelas pessoas que acham que você está ganhando muito dinheiro. Aquelas que acham o livro uma fortuna, mas não pensam que, para que ele chegue à estante da livraria, além do escritor, várias pessoas trabalharam: o editor, o ilustrador, o diagramador, o revisor, funcionários da gráfica, o divulgador, o distribuidor, o vendedor... Aquelas que reclamam que seu livro está muito caro, mas que gastam o dobro sem reclamar para comprar qualquer outra coisa. Isso quando elas não pedem um livro de graça, sem pensar que o autor, muitas vezes, está pagando para trabalhar, pois, além de escrever seu livro, custeou sua edição do próprio bolso. Ou, se não o fez, não está ganhando mais do que alguns centavos por exemplar vendido.
E para terminar com a “pureza das respostas das crianças”, uma vez eu estava fazendo contação de histórias em uma escola, e um menino me perguntou se eu estava ganhando bastante dinheiro com o meu livro. Eu disse: “Não, apenas escritores que são celebridades e vendem muitos livros conseguem realmente se sustentar com isso”. Ele me olhou estupefato e disse: “Uai, então por que você escreve livro?”.
Essa é uma pergunta que eu já me fiz muitas vezes. Diante da pouca valorização do escritor pela sociedade (e não me venham com aquele blábláblá de que você valoriza o escritor se você vai ao lançamento do livro, mas não compra porque vai tentar fazer o download de graça depois); diante da dificuldade de publicar em um mercado editorial que frequentemente vai pensar primeiro na vendagem do livro e depois na sua qualidade artística; diante da aventura de ter que conciliar a criação e a escrita com tantos outros afazeres que pagam as minhas contas, eu já me questionei em por que continuar escrevendo.

Mas não parei. E só Drummond conseguiu me dar uma resposta. É que meu verso (ou minha crônica, meu conto, meu romance) é minha cachaça. E todo mundo tem a sua cachaça.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Havemos de amanhecer?

Já escrevi neste blog que quando a realidade me cutuca, eu preciso escrever. Mas tem dias que a realidade me esmaga - o peso da fatalidade, o fato consumado que repete o que parece não mudar nunca... É assim que eu tenho me sentido todas as vezes que leio as notícias sobre os conflitos entre Israel e a Palestina, ou melhor dizendo, sobre o massacre cruel que Israel está comandando sobre uma população indefesa.
Há dias tenho pensado e tentado escrever sobre isso, mas foi em uma sala de aula que consegui partilhar minhas ideias e angústias sobre o assunto. Ser professora me dá muitas oportunidades - não apenas de falar de literatura, de partilhar meu conhecimento sobre algo que é tão vital para mim, mas sobretudo de ter o consolo de, através de versos e poemas lidos e compartilhados, encontrar ao menos um alívio para as minhas tantas indagações.
Na semana passada, eu estava no 3º ano do Colégio Dom Barreto e começamos a ler Drummond, mais especificamente os poemas de "Sentimento do Mundo" e "A Rosa do Povo". E de repente, o espanto: não parecia que o poeta mineiro escrevia em meados da década de 40. Quando comecei a declamar "A noite dissolve os homens", quase pude imaginar o risco das palavras no papel naquele exato momento:

A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...

O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.


Pensei nas imagens vistas no dia anterior, de crianças palestinas mortas, de hospitais e escolas bombardeados. A noite cai, tremenda, sem esperança, neste exato momento. A noite, a escuridão da violência, do ódio, da intolerância dissolve os homens, dissolve sua humanidade e não se vê mais irmãos - são todos inimigos. Uma noite completa e sem reticências - apenas um ponto que finaliza tudo, que inutiliza até o sofrimento. Os suicidas têm razão.
Senti que muitos alunos se deixavam levar pelo peso das palavras, pela minha voz também pesada. E interrompi a leitura do poema e perguntei a eles: "Não parece que a humanidade anda em círculos"?
Alguns assentiram imediatamente com a cabeça, outros me dirigiram os olhos interrogativos. Então expus meu pensamento: quando Drummond escreveu estes versos, a noite caía especialmente sobre a comunidade judaica. Milhares de judeus indefesos foram mortos no maior genocídio da história. E agora, décadas depois, a nação criada para eles no pós Segunda Guerra Mundial, como forma de indenizar tantos sofrimentos, é que comanda o genocídio. Sim, genocídio, esta palavra assustadora, tenebrosa. Ontem, vítimas; hoje, algozes. Mas independente de nacionalidades ou orientações religiosas (não é este o ponto da reflexão), parece-me que a humanidade tem sempre girado nesta roda-viva, em que alternam-se vítimas e algozes, mas eles sempre existem, reproduzindo eternamente a violência extrema de que o ser humano é capaz.
Aí eu percebi o desalento no olhar de alguns, a perplexidade no de outros, em um silêncio raro nas salas de aula atuais. Aí senti que era o momento de terminar minha leitura:


Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
Os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para cobrir tuas pálidas faces, Aurora.


Eu me envolvi tanto na declamação destes versos que não me contive e, em um gesto espontâneo, abracei o livro que tinha nas mãos e disse: "Obrigada, Drummond". Alguns alunos sorriram, aquele riso complacente de aluno que acha a professora louca. Mas foi essa a minha reação mais sincera, agradecer ao poeta que me convidava a acreditar na  Aurora, ainda que seja tímida e inexperiente. Perguntei aos alunos o que eles pensavam sobre esta segunda estrofe, e muitos citaram palavras como "fim da guerra", "esperança", "reconciliação entre os povos". 
O mais bonito, para mim, é que Drummond não faz uma oposição entre a noite e o dia. Ele sabia que o dia e sua claridade, sua alegria, sua certeza ainda estavam distantes. Mas ele fala da aurora, essa promessa da manhã de paz que se estende sobre o mundo. Uma aurora que transforma o sangue da violência no tom rubro do céu que anuncia a chegada do sol. Uma aurora em que a fadiga cessa, em que o perdão e sua maciez se concretizam nas mãos que se enlaçam. 
Obrigada, Drummond! É tudo que sei dizer. Minha carne também estremece na certeza da vinda desta aurora, embora a manhã tarde há tantas décadas, talvez desde sempre. E esta demora muitas vezes me faz estremecer na dúvida: havemos mesmo de amanhecer? 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Eles passarão, eu passarinho"

Última semana de julho - despedida das férias escolares, um novo semestre que chega já com os cansaços acumulados do primeiro, especialmente porque a palavra férias, para a maioria dos professores, não deixa de ser entre aspas... Eu mesma, neste mês, li, pensei, escrevi, e nesta semana, lá estava entre tantos professores no COLE - o Congresso de Leitura do Brasil, que ocorre na Unicamp bienalmente. Um evento querido, que sempre renova minhas energias e esperanças na docência ao ver tantos professores inquietos, relatando suas experiências, projetos, dúvidas e angústias, mas também seus muitos acertos e delícias nessa aventura que é formar leitores na realidade contemporânea.
Mas algo singular marcou o COLE deste ano de 2014: a despedida de autores reconhecidos e queridos. Atipicamente, a Academia Brasileira de Letras está com 3 cadeiras vagas: Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna deixaram este mundo - ou como melhor diria um outro acadêmico famoso, Guimarães Rosa, encantaram-se - nos últimos dois meses. Rubem Alves, falecido no último fim de semana, foi lembrado e reverenciado pelos poetas e amigos Severino Antônio, Régis de Morais e Carlos Brandão. E algo mais especial ainda, para mim, foi minha primeira participação neste evento como escritora.
Além do privilégio de lançar meu livro Embaixo da cama em Campinas, ao lado dos já referidos poetas, de Margareth Park e Tarcísio Bregalda, no dia 23/07, ontem, no dia 24, pela manhã, tive a oportunidade de conversar com o público e contar histórias. Foi um momento muito especial para mim. Comecei, como os poetas no dia anterior, com uma homenagem, mas não para estes escritores que morreram nestes últimos meses. Eu quis homenagear uma contadora de histórias bem menos famosa e muito importante para minha formação: minha avó, Júlia Silvério Correia. Neste mesmo blog, eu já escrevi sobre sua influência sobre meu amor pelas histórias numa crônica denominada "Meu primeiro aprendizado da poesia", lida ontem no COLE.
Tenho em minha sala um daguerreótipo dos meus avós maternos. Para quem não sabe, trata-se daqueles retratos antigos, geralmente colocados em molduras ovais, que eram retocados depois pelo retratista, para inserir cores, e que ficavam com uma coloração meio cinza, meio azulada, muito peculiar. Se minha avó estivesse viva, teria completado, nesta semana, 110 anos. Há 20 anos ela encantou-se. Mas olho sempre para aquele retrato na minha parede, às vezes buscando a coragem que me falta, às vezes imaginando seu olhar de aprovação às minhas lutas e muitas vezes com gratidão. Por ela ter gerado minha mãe e indiretamente, a mim. E por ela ter nos alimentado. Não apenas com o caldo de fubá com couve, os bolinhos de polvilho, os bolos de caçarola - mas por ter nos alimentado com a poesia tão cotidiana das colchas de retalho, dos pontos de crochê e das histórias que ela contava. Minha avó Júlia, minhas tias Teresa, Maria e Manuela me ensinaram a ouvir histórias, e assim ler um pouquinho esse bicho estranho e fascinante que é o ser humano. Por que é isso que está por trás das histórias, sejam elas cantadas, contadas ou escritas; sejam elas boas ou ruins; famosas ou anônimas.
Escrevemos porque somos humanos e porque transbordamos pela palavra. Às vezes, nos bancos das universidades, envergonhamo-nos desta verdade porque nos parece piegas e pouco científica. Queremos nos convencer talvez que a literatura é nosso objeto. Talvez seja para quem não a tem nas entranhas, para quem apenas a analisa e não a vivencia em seu modo de dizer-se e dizer o mundo.
Escrevemos porque nossa humanidade nos faz limitados, e transbordar-se pela palavra talvez nos engrandeça, talvez nos ajude na ilusão que permaneceremos. Júlia, Manuela, Maria e Teresa estão mortas, mas suas histórias - e até o timbre de suas vozes - ecoam no meu pensamento. Rubem, João, Ivan, Ariano (e agora seus sobrenomes não lhes valem, nem quaisquer outras convenções deste mundo) também, mas seus tantos versos, e contos e causos ficarão ecoando no pensamento de alguém, voando por este mundo... Pois como disse outro poeta já falecido, Mário Quintana, "eles passarão, eu passarinho".
Não consigo imaginar o voo que não seja pela palavra.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O maravilhoso-terrível: a maternidade

Não, meu texto não está atrasado. Eu propositadamente deixei passar o chamado Dia das Mães para escrever este texto. Deixei passar o afã da data, os comerciais fofos e todo o apelo comercial para escrever estas ideias que rumino há muito tempo.
Primeiramente porque não deveria ser preciso um dia no calendário para que a gente se lembrasse de expressar gratidão, admiração e afeto; mas, atualmente, infelizmente, tem sido assim para todos nós. E o pior, como temos consciência disso, a indústria e o comércio não deixam de explorar nossa culpa. A mensagem subentendida em muitas propagandas é: "como você não tem tempo para estar com sua mãe o quanto deveria, dê um grande presente para demonstrar o quanto você a ama" - pois nessa sociedade em que números valem tanto, é necessário quantificar o amor. E lembro-me de uma crônica do Veríssimo que coloca de forma hilária este aspecto: "O dia da amante". No início do conto, considerando os lucros do Natal, mas lamentando haver apenas um Jesus Cristo, um grupo de comerciantes resolve criar o Dia das Mães - afinal, quem se oporia? Ser contra o Dia das Mães seria ser contra a própria Mãe, com maiúsculo mesmo, ou seja, contra essa "instituição"!
Mais do que refletir sobre os apelos comerciais dos "Dias do/da ...", eu quero mesmo é falar da "instituição".  Perceba que a palavra instituição, embora sonoramente semelhante, é diferente de instinto. Portanto, a expressão instinto materno revela uma visão da maternidade que me parece equivocada: a ideia de que toda mulher quer ser mãe porque isso faz parte da natureza, é um instinto da fêmea. Se analisarmos os seres humanos como animais que somos, podemos pensar no instinto de procriação, pela necessidade de toda espécie de se perpetuar, mas não necessariamente de ser mãe - o que excede a biologia e se configura em um papel social, construído através da tempo e variável conforme a sociedade, o período histórico, etc.
Desculpem-me, leitores, especialmente leitoras, se esta afirmação é chocante para vocês. Eu entendo, afinal, somos educadas para acreditar que a maternidade é nosso destino natural, se não o essencial. Que sem filhos uma mulher não é completa. E, em uma visão cristã, que lhe estabelece uma "aura de santidade", a mãe é aquela que é só amor, perdão, abnegação: tudo suporta, tudo entrega, nunca pensa em si mesma e sorri com tudo isso. E para terminar essa lista: no imaginário geral, a mãe é vista como um ser assexuado - sua sexualidade já cumpriu sua principal função que é procriar, e sua sensualidade deve ficar oculta, até mesmo porque agora ela tem esse papel de "santa". Mas as mães não são (e talvez não devam) ser assim.
Não quero, com estas afirmações, negar a generosidade, o altruísmo, a responsabilidade que uma mãe (assim como um pai) deve ter para com seus filhos. E isso requer algumas renúncias, obviamente, pois crianças precisam daquilo de que hoje muitos de nós menos dispõem: nosso tempo e nossa atenção. Mas a minha análise discute exatamente o que, na minha visão, oprime as mulheres e as impede de curtirem mais a condição de mães: a idealização da maternidade como a melhor experiência da vida de uma mulher, e da mãe como esse ser sobre humano que descrevi acima. Quantas mulheres não caem nessa armadilha? Diante das propagandas, filmes, novelas que mostram mães embevecidas com bebês bonitos, saudáveis, carinhosos e sorridentes; diante de depoimentos comovidos sobre "ser mãe é a melhor coisa do mundo", algumas mulheres engravidam sem refletir no quanto, a partir deste momento, a sociedade lhe cobrará, quantos problemas ela vai ter que enfrentar e quantos momentos de conflito vai viver na construção de uma relação com esse outro ser que virá dela. Sim, construção, pois, contrariando a ideia de que uma mãe conhece seu filho desde que ele foi concebido, esse ser que habita seu ventre por nove meses é um ser diferente, com desejos, necessidades, personalidade próprios. Quanto mais ele cresce, mais isso se evidencia.
E muito além dos sofrimentos físicos das mães (o bombardeio de hormônios, o parto, a amamentação), há a já referida cobrança. Pois a mãe de verdade, a mãe com M maiúsculo eram as de antigamente, as que viviam para o lar. Antes que os leitores me acusem de exagero, pensem em quantas vezes, em conversas cotidianas e informais, se menciona o fato de tal criança estar aprontando muito, ou estar indo mal na escola, porque a mãe trabalha fora e, portanto, não dispensa o tempo necessário para educar, corrigir, orientar o filho. Percebam: raramente se fala que é o pai que não cumpre seu papel. Por quê? Porque ainda reina na mentalidade das pessoas que esse papel é da mulher. Nunca se exigiu de pais que renunciassem sua vida profissional e social para cuidar dos filhos. Sua obrigação era apenas prover. Hoje, a maioria dos lares brasileiros têm uma mulher como provedora. Mas, se observamos nas últimas décadas essa mudança do papel da mulher na família, o contrário não se observa: no geral, pais não passaram a ser mais responsáveis pelos trabalhos domésticos e pela educação dos filhos já que eles não são mais os únicos provedores da família. Há, sim, homens que assumem estes papéis, mas curiosamente, eles são aplaudidos como os maridos "que ajudam as esposas" - ou seja, o verbo revela que a responsabilidade continua sendo delas: o homem apenas ajuda por generosidade.
A mulher que não renuncia de seus interesses acadêmicos, profissionais e pessoais paga um preço alto por isso - não apenas a cobrança da sociedade, da mídia, da família, mas de si mesma. É nesse ponto que eu afirmo que a idealização da maternidade evita uma vivência feliz da mesma. A mulher que estuda, trabalha ou mantém atividades que não se relacionam com seus filhos diretamente sente culpa, pois, afinal, ela aprendeu e internalizou que deveria ser a mãe perfeita. Ainda que não pense isso conscientemente, ela se pergunta o tempo todo se é uma boa mãe, se o que faz é suficiente e correto para que seu filho seja saudável e feliz. Essas mulheres se exigem muito, e exatamente por não terem optado pela maternidade como full time job (considerando ainda que muitas nem tem essa opção, pois precisam de dinheiro para sustentar seus filhos), precisam provar para elas mesmas e para a sociedade que são boas mães e que fizeram a escolha certa. Isso gera uma ansiedade enorme, e também grandes doses de frustração, pois nem maridos, nem filhos, nem mães são perfeitos. São simplesmente humanos. E o dia a dia das famílias vai muito além daquele divertido comercial de margarina.
Além disso, há ainda outro ponto da idealização das mães que me incomoda: a não percepção de seu papel de opressão em relação às suas próprias filhas, de seu papel de omissão em relação a seus próprios filhos e, consequentemente, em seu papel fundamental na manutenção de uma sociedade androcêntrica e violenta para com as mulheres. É bizarro, mas muito comum, ouvir mães repetindo que dois filhos foram "criados igualzinho, mas são tão diferentes!". Bizarro porque relações interpessoais são únicas - ou seja, a relação que eu tenho com uma pessoa nunca será igual à que eu tenho com outra, pois as afinidades, os sentimentos, as rixas, as relações de poder são únicas em cada relação. Mas quando estas pessoas são filhos, e de sexos diferentes, as diferenças em sua educação, no Brasil, são muito visíveis. Já vi pessoas comemorando por estarem grávidas "de menino" ou frustradas por não estarem; outras falando "Que sorte!" para mães que só têm filhos homens. Já presenciei mães mandando filhas limparem a bagunça que seus irmãos fizeram, enquanto justificavam que "menino é assim mesmo, é mais bagunceiro, né?". Já ouvi mães dizendo para as filhas "se darem ao respeito" e até condenando sua sensualidade, enquanto sorriam ao ouvir que seus filhos eram "terríveis", que "não perdoavam uma", que "pegavam todas as meninas da escola" e pior, já vi mães culparem as namoradas dos seus filhos quando havia uma gravidez precoce, afinal, "como ela não se cuidou?" ou "ela fez de propósito para acabar com a vida do meu filho".
São tantos os exemplos que eu ficaria horas aqui escrevendo essas cenas que parecem do século XIX, mas que acontecem agora, quiçá neste momento em que escrevo. E volto à minha questão: essa diferença de tratamento entre meninos e meninas por suas próprias famílias ensina, nas entrelinhas, o valor de cada um na sociedade, mantendo a baixa auto-estima das meninas, que um dia serão mulheres e, talvez, mães. E que provavelmente, como mães, vão perpetuar essa visão depreciativa das mulheres e sua opressão. Recentemente, em conversa com uma amiga, ela me disse que, quando sua mãe faleceu, ela viu no caixão uma mulher real, enquanto que, para seus irmãos, havia morrido uma santa. E eu desconfio que isso não é prioridade da família dela: conheço homens inteligentes que estudam, leem e analisam criticamente tudo, mas são incapazes de fazer uma reflexão racional sobre suas mães, especialmente sobre como eles foram (e são) tratados de forma tão mais amorosa e benevolente por suas mães do que suas irmãs.
Freud, misógino que era, falava da necessidade de matar o pai simbolicamente em um processo de desenvolvimento saudável, na passagem para a fase adulta. Ele não percebeu talvez que, especialmente para nós mulheres, é mais difícil e importante matar a mãe. E isso não significa não amá-la, não reconhecer sua generosidade, suas renúncias, seus ensinamentos, seu amor. Ao contrário: é perceber que na sua humanidade, e na fragilidade inerente a essa condição, ela significou e significa muito, para o que há de melhor e de pior em nós. É preciso que uma mulher mate o machismo, a subserviência, as neuroses, a depreciação do ser mulher que provavelmente sua mãe, indiretamente, ensinou-lhe. E sobretudo, matar a idealização da maternidade, que impede tantas mulheres de viverem algo tão maravilhoso, mas tão terrível, com mais leveza, mais alegria, e menos culpa. Para que o primeiro adjetivo seja mais forte que o segundo.
 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A falácia da simplificação

Segundas-feiras são tradicionalmente lamentosas - por que o fim de semana passou tão depressa? Imagine-se então uma segunda-feira pós feriado prolongado. Comecei o dia com um certo mau humor, ainda que seja maio, o mês mais lindo do ano, com suas manhãs frescas, azul denso no céu, luminosidade única.
Mas nem o azul de maio me trouxe consolo e liguei o computador para começar meus trabalhos, quando me deparei com uma notícia triste: "Escritora muda a obra de Machado de Assis para facilitar a leitura" (disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cidadona/2014/05/1445858-escritora-muda-obra-de-machado-de-assis-para-facilitar-a-leitura.shtml). Os leitores podem alegar que há coisas muito mais tristes acontecendo agora e que me entristecer com isso parece fútil diante das guerras e das mazelas terríveis pelas quais passa a humanidade. Mas eu explico porque essa notícia é digna de tristeza, já que interrompi outros trabalhos para escrever este texto e partilhar as ideias que começaram a me cutucar sem trégua.
Não é mistério para ninguém que sou apaixonada pela literatura, como escritora e como docente. E amo muito a obra de Machado de Assis. Sem dúvidas, este é um dos maiores autores do nosso país, quiçá de nosso continente e da literatura universal, embora pouco reconhecido internacionalmente. Mas não pensem que o meu texto vai na direção do "é um sacrilégio adaptar o grande Machado". Não se trata disso. Não se trata de incensar um autor canônico, dizendo que, depois dele, não há nada de bom a ser escrito. Nem condenar o autor que "aceita esse trabalho sujo" (conforme eu li em um comentário no Facebook), ou seja, o de adaptar uma obra clássica.
O que me incomodou nesta notícia foi a ideia leviana de que é possível "simplificar um autor", sem "mudar o que ele disse" - afirmações da escritora Patrícia Secco, que lançará em junho uma "versão simplificada" de O alienista. Elas demonstram que Secco não compreendeu muito do fazer literário. Afinal, se ela acredita que, tornando as frases mais curtas e trocando palavras difíceis por sinônimos ela estará, ainda assim, apresentando aos leitores um texto de Machado de Assis, e não de Patrícia Secco, ela não se deu conta ainda de seu ofício. Literatura não admite copidesque (salvo se feito pelo próprio autor, ou com a anuência deste, e preferencialmente antes da publicação): cada palavra tem seu peso, sua substância, seu sentido naquele texto que é único não necessariamente por suas ideias, mas por sua forma. E isso ocorre não apenas em textos de autores canônicos, mas em textos de autores jovens e pouco conhecidos que fazem literatura sem nenhum prestígio, nenhum glamour...
Então o problema não é "profanar" o Machado de Assis, mas a visão rasa, equivocada do conceito de autoria e de construção literária que Secco deixa transparecer em sua fala. Talvez ela não tenha percebido, ao ler Dom Casmurro, que seu enredo, ou seja, os fatos relatados no livro não são inovadores: um homem, ao considerar seu filho parecido com seu melhor amigo, considera sua esposa adúltera; eles se separam e, na velhice solitária, ele escreve um livro para relatar como ela sempre fora dissimulada e interesseira. Quase poderia ser transformado em um twitter, só para lembrar outra bobagem proferida, não há muito tempo, sobre outro clássico da literatura. Mas o que importa neste livro não são as ideias, ou "o que ele disse", mas como disse. O que faz deste livro um dos mais interessantes que já li é a personalidade de seu narrador-personagem, que sutilmente deixa transparecer que o foco daquele livro não é o adultério, mas o ciúme, tão intenso que ultrapassa a própria passagem do tempo (outro tema fundamental da obra). Há formas de simplificar isso? Se os nossos alunos não entendem que a palavra ressaca pode ter mais de um sentido, então o jeito é modificar a célebre expressão "olhos de ressaca", que caracteriza Capitu? Secco realmente acredita que fazer isso não seria "mudar o que ele [Machado de Assis] disse"?
Entretanto, gostaria de ressaltar, de forma bem clara, que não sou contra adaptações. E não estou me contradizendo, conforme os leitores perceberão. Minhas pesquisas, desde o mestrado, trabalham com adaptações, que não considero, necessariamente, como mutilações de obras literárias. O que eu quero dizer é que o juízo de valor não está necessariamente atrelado ao fato de uma obra ser ou não uma adaptação de outra obra anterior, mas na sua qualidade, na sua relevância em si. Obviamente, há adaptações muito ruins, que se constituem em paráfrases simplistas e mal feitas de obras que, no original, são riquíssimas, verdadeiros patrimônios da arte nacional e universal. Essas sim são meras mutilações. Em contrapartida, há adaptações (não apenas literárias, mas plásticas, cinematográficas) que dialogam com as obras primeiras (isto é, àquelas a que fazem referência) - configuram-se em objetos literários, que, embora tenham parte de seu sentido atrelado a uma obra que os antecede, tem autonomia e qualidade artísticas.
Esclareço esse ponto de vista muito particular, ao qual cheguei depois de anos trabalhando como professora e como pesquisadora de literatura infanto-juvenil, para dizer que não acho que fazer adaptação de uma obra clássica é "um trabalho sujo". O problema é a falácia da simplificação, isto é, a crença equivocada de que temos que tornar tudo fácil e divertido para os nossos alunos. A falácia consiste exatamente na ideia de que a diversão só acontece com o que é fácil, e que só faremos nossos alunos gostarem de ler se oferecermos a eles textos que eles compreendam imediatamente. O que não é verdade: crianças e adolescentes são muito espertos, e detestam textos bobos. Na maioria das vezes, eles percebem rápido quando os consideramos ingênuos e pouco capazes e usam isto quando lhes é conveniente. Mas quando os tratamos como pessoas pensantes e apresentamos um livro mais denso, dizendo que ele é maravilhoso, um pouco difícil, mas que confiamos na inteligência e coragem deles para lê-lo, a relação com o livro, com a literatura e com a escola muda.
Outra falácia da simplificação é que ela parece "boazinha", comprometida com a educação, mas, indiretamente, subestima nossos alunos e alcança efeitos inversos aos que propõe. Ouve-se tanto que os adolescentes leem cada vez menos e que, quando o fazem, não alcançam os níveis de compreensão leitora necessários à sua faixa etária e escolar. E como vamos melhorar isso? Oferecendo aos nossos alunos textos cada vez mais simples, com frases curtas e palavras que eles já conhecem? Ou o papel do professor de língua portuguesa e literatura não é ampliar o conhecimento de vocabulário, de estrutura textual, e consequentemente, da capacidade de reflexão e expressão?
Sinceramente, não creio que isso se alcance com o "Eu simplifico isso" de Patrícia Secco. Especialmente porque é ingênuo demais acreditar que é possível simplificar obras que não são complexas apenas na linguagem - esta apenas reflete a complexidade do próprio ser humano e de sua vida em sociedade, temas não só de Machado de Assis, mas de outros grandes autores da literatura nacional, clássicos ou contemporâneos.