segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Um sorriso de Brás Cubas

Saúdo a nova semana que chega, com alívio. A semana anterior teve horas tão pesadas, com uma tensão tão densa que quase se podia tocá-la com as mãos. Não era apenas a última semana antes do segundo turno das eleições, mas uma semana cheia de afazeres que não terminavam nunca. Uma semana em que um anjo safado, um chato de um querubim, predestinou que eu teria que trabalhar com algumas pessoas estressadas. Bem poucas, na verdade, mas com o impressionante poder de tirar a calma de todos ao seu redor. Ou quase. Porque, no meio de tudo isso, eu estava lendo Machado de Assis.
Hein? Pode se perguntar um leitor incrédulo, pensando talvez que haja algum autor de auto-ajuda com este nome. Não, trata-se dele mesmo, do “grande Machado”, como diriam alguns, do Joaquim Maria, como eu diria, na minha pretensão de intimidade com este autor que me proporcionou e proporciona tantas horas de prazer e reflexão.
E não é que lá estava eu, enquanto as pessoas ao meu redor se estressavam e mordiam a própria sombra por coisa pouca, com Dom Casmurro em minhas mãos? E pude recorrer a passagens fascinantes desta obra que nunca se esgota. Sim, eu já li este livro muitas vezes, E a cada vez que vou abordá-lo em uma aula, dou-me novamente o deleite de revisitá-lo. E a cada vez, percebo coisas novas.
Pobre daqueles que pensam que só se trata de um livro sobre adultério. Que pensam que sua grande questão é se Capitu traiu ou não Bentinho... Isso é o que está na superfície, mas há outras coisas mais profundas neste livro. Para mim, por exemplo, um dos seus temas mais interessantes é a passagem do tempo. Ou a persistência da memória, essa coisa difusa que também se molda ao sabor das paixões. Vejo o velho Bento Santiago a contemplar Bentinho e sua amiga Capitu, a companheira da meninice, como contempla os retratos da réplica da casa de Matacavalos. São imóveis, inertes, mortos. Não adianta tentar atar as pontas da vida, elas estão para sempre separadas. Só a memória, só a narrativa as une. O gesto da escritura é a única forma de lutar contra o tempo inexorável.
As pérolas que reluzem nas páginas do livro sobre este tema são várias, mas se encontram também em outros títulos do autor. Como esquecer do delirante passeio de Brás Cubas, no dorso de um hipopótamo, a contemplar a sucessão dos séculos – e concluir a repetição da tragicomédia humana por tantas civilizações? E as reflexões do menos irônico e mais melancólico Conselheiro Aires, em seus passeios pelas ruas do Rio, já no outono de sua vida (e da carreira do autor)?
Então eu volto para aquele “quase” do final do primeiro parágrafo. Diante dessas reflexões sobre o tempo, com as quais Machado de Assis sempre contribuiu, acho que estou aprendendo a sorrir mais. Nesta semana, eu me flagrei com um sorriso que um colega classificou como “de Monalisa”, mas eu diria ser “um sorriso de Brás Cubas”, aquele sorriso de quando se compreende o quanto a humanidade é lamentável e se resolve aceitar o fato. Diante daqueles que se julgam tão importantes, que se estressam tanto (porque eles precisam fazer tudo, afinal, ninguém o faria tão bem e perfeitamente), que perdem completamente a gentileza para com os que estão ao redor, ou com aqueles que pensam diferentemente, nada nos faz tão bem quanto um sorriso de Brás Cubas.
E pensar na inexorabilidade do tempo me acalma, porque me faz enxergar a inutilidade de tanta preocupação, de tanto desgaste. Alguns problemas são pequenos demais se pensarmos na dimensão do mundo e de sua história. Afinal, daqui a pouco tempo, seremos apenas retratos na parede – talvez nem isso, nessa era em que quase não se imprimem mais fotografias... 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A menina, as armas e os livros

Um dia vi um brilho intenso nos olhos de um homem que a vida em muito endureceu. Logo o brilho se transformou em uma lágrima que escorreu pelo rosto do homem que raramente chorava. Este homem era meu pai. Ele discretamente enxugou essa lágrima antes que outros a vissem, antes que fotógrafos chegassem, junto com a minha irmã. Era o dia de sua formatura na Faculdade de Direito. Mais do que um diploma, era um dia histórico para nós: pela primeira vez na história da nossa família, uma pessoa teria um diploma de graduação. Mais do que isso: era a primeira mulher a conquistar esse lugar.
A lágrima era misto de orgulho, de alegria, mas também testemunhava os sofrimentos e as renúncias que certamente meus pais fizeram para que eu e minhas irmãs estudássemos nas melhores escolas. Mais tarde, naquele mesmo dia, meu pai disse uma frase que está gravada em minha mente: "Não me arrependo de nenhum dia, de nenhum centavo que investi em vocês". Embora a linguagem pareça tão mercadológica, isso significa "Eu amo vocês, minhas filhas" ou "Eu me orgulho de vocês, minhas filhas", na linguagem do homem que saiu de casa aos 17 anos com duas mudas de camisa e um sapato furado, trabalhou como jardineiro, pedreiro, metalúrgico, segurança e, enfim, montou um pequeno comércio. Do homem que, diante de uma pequena ascensão social, optou por mudar suas filhas de escola, ao invés de realizar seus sonhos de consumo. Do homem que muitas vezes prezou mais a contabilidade que o prazer, frustrou suas filhas adolescentes por não lhes dar algumas roupas, viagens e festas, mas que jamais se recusou a comprar um livro. E isto mudou a minha vida.
Venho de uma família machista (como tantas no Brasil) em que a educação das meninas não é a prioridade. Tenho uma prima cujo irmão fez curso pré-vestibular, ingressou na universidade, mas ela não teve o mesmo apoio da família. Para ela, não havia recursos para o pré-vestibular, nem para a mensalidade de uma faculdade privada, nem qualquer apoio para que ela saísse da cidadezinha em que morava para fazer uma universidade pública (afinal, há exemplos na família de mulheres que saíram da casa dos pais para estudar, trabalhar, e "se perderam"). Sim, queridos, século XXI, não estou relatando o que aconteceu com a minha bisavó, infelizmente! No fim de semana em que eu fazia o vestibular da UNICAMP, minha mãe teve que ouvir de um tio a seguinte pérola: "Pra que estudar tanto para limpar bunda de criança?". Ele riu, minha mãe, não. Ela, com toda a delicadeza que lhe é peculiar, disse: "Eu espero que minhas filhas limpem bunda de criança porque eu quero muito ser avó, mas elas não vão fazer só isso na vida".
São muitos os exemplos que se espalham para além da minha família, na qual também há exemplos notáveis de ruptura com este pensamento retrógrado e opressor, como meus pais, que criaram três meninas com livros nas mãos. Nesta semana, ao saber que o Prêmio Nobel da Paz havia sido entregue a  Malala Yousafzai, fiquei muito feliz e emocionada. Para os que não sabem, Malala é uma adolescente de 17 anos que, com apenas 12 anos, começou a escrever sobre a situação das meninas no Paquistão, sob o regime talibã. O pai de Malala, dono de uma escola, contrariava o regime ao permitir que as meninas estudassem, e estimulava a militância da filha em favor da educação escolar feminina. Em 2012, aos 14 anos, houve uma tentativa de assassinato, na qual Malala levou um tiro no rosto e um no pescoço, ficou em coma por vários dias, mas, felizmente, sobreviveu e foi transferida para um hospital na Inglaterra. Recuperada, ela escreveu uma autobiografia e continua sua militância em favor da educação das meninas.

 Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz em 2014
O exemplo de Malala me move e comove. Sempre pensei na sorte tão diversa que tantas mulheres da minha família tiveram por não terem acesso a uma educação que lhes ensinassem que elas tinham valor, que eram tão inteligentes quanto os homens e que o mundo também era grande para elas. Que não é a presença de um homem, uma aliança no dedo ou a ausência destes que definem o seu valor. Que lugar de mulher é onde ela escolhe estar. Que o que você lê, reflete e pensa é mais importante que o seu peso ou a cor do seu cabelo. E principalmente: que, independente do sexo, somos seres humanos dignos de respeito, e  por isso jamais devemos aceitar sermos diminuídas, humilhadas, oprimidas ou agredidas de qualquer forma.
Sim, foi a minha educação escolar, foram os livros que chegaram às minhas mãos que me fizeram enxergar a mim mesma como esse ser humano digno de respeito. A literatura me formou como um ser mais sensível e humano, capaz também de respeitar mais os que estão ao meu redor. A literatura alimentou minha ojeriza à violência, à opressão e meu amor à liberdade, "essa palavra que o sonho alimenta/ que não há ninguém que explique/ e ninguém que não entenda", como disse a Cecília Meireles. E por isso, ainda acredito que o livro é a coisa mais subversiva que colocaram em minhas mãos. Esta é a razão pela qual os regimes ditatoriais temem que uma garota leia, que faça do livre pensamento e de suas palavras as suas armas, resistindo às armas de fogo e não se intimidando diante delas. 
E Malala nem suspeita que temos isso em comum: que tivemos pais que acreditaram na importância da nossa educação, que acreditaram no nosso valor e na nossa inteligência.
Obrigada, pai! Obrigada, Malala!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Posso, sem armas, revoltar-me?

Começo a segunda - e a semana - lendo Carlos Drummond de Andrade. Por que o verso é minha cachaça, como eu já disse em outro post. Ontem, durante as apurações das eleições eu estava, literalmente, bebendo cachaça. Agora, segunda de manhã, pega mal. Temos que manter a sobriedade, embora nos pareça que todos se embriagam, tamanha incoerência entre o que se diz e o que se faz.
Não, não vou falar exatamente dos resultados das urnas. Na conversa que travo com Carlos, mais uma vez - já conversamos tanto que o trato pelo primeiro nome - ele me fala sobre a "ração diária de erro, distribuído em casa", pelos ferozes "padeiros e leiteiros do mal", e isso já na década de 40. Toma-me a sensação de que realmente a humanidade anda em círculos.
Mas discuto com Carlos: quem são estes "padeiros e leiteiros do mal"? Ah, a minha insolência em discutir com os poetas que já têm seu capítulo no livro didático de literatura e até caem no vestibular... Mas foi você um dos que me ensinou a ser insolente, Carlos, aguente agora. Mas Carlos só me responde que "o tempo não chegou de completa justiça", que "o tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse".
E que impasse! Como eu disse antes, não é o resultado das urnas. É tudo o que vem antes dele, e tudo que o motiva. Começo pelo mais grave: a profunda lacuna educacional que impede que as pessoas compreendam o que é a política. E a profunda (e cômoda) falta de consciência que leva a maioria a sempre colocar a culpa de tudo "nos políticos", esses seres que vieram de Marte, talvez, já que ninguém se identifica abertamente com eles.
A coisa mais desoladora é ver essa contradição. Pessoas que falam em mudanças, mas nem conseguem enxergar as mudanças que estão em curso, nem compreender que elas ocorrem em um processo (e não por um passe de mágica) que envolve toda uma sociedade com velhos e lamentáveis hábitos. Pessoas que reclamam do estado em que as coisas estão, falam da necessidade de uma "nova política" mas mantêm um governo estadual que está no poder há décadas, tempo que lhe foi suficiente para consolidar a falência da escola pública e a total desvalorização do professor, entre outras provas de incompetência e descaso. Pessoas que reclamam da impunidade, mas quando se dirigiam ao seu local de votação com seu carro, fizeram questão de estacionar em local proibido e dificultar absurdamente o trânsito; ou que, sem documento com foto, faziam aquele escândalo em sua seção quando o mesário dizia que sem este documento ele não poderia votar. Claro: onde estão os meus direitos? Deveres, hein, o que é isso?
Carlos me responde que "é tempo de partidos, tempo de homens partidos", mas isso ficou no passado, querido poeta. Hoje as pessoas se revoltam contra os partidos, dizem que não acreditam na política partidária, que "político bom é político morto" (pasmem, ouvi isto ontem, literalmente!), que se não fosse obrigatório não votariam. Ah, eu preciso parar de fazer análise do discurso nos almoços familiares, pois está ficando cada vez mais difícil engolir. Enfim, vos pergunto, concidadãos: vocês realmente acham que em um período da história em que não existiam nem eleições, nem partidos, estávamos melhores? Quando reis governavam hereditariamente por direito divino estávamos melhores? Por favor, me instruam: citem um sistema de governo melhor, proponham-no publicamente, não guardem a  sabedoria apenas para vocês.
Ironias à parte, estou um pouco cansada da lamentação inócua, que só faz eco e cai no mais absoluto conformismo. Eu não penso que nosso sistema político e partidário seja ótimo. Mas faço questão de votar. Pessoas morreram para que eu tivesse esse direito. E se eu não estou satisfeita com os partidos, seus líderes e seus eleitos, posso dizer isso abertamente neste blog, ou propor a fundação de um novo partido, ou eu mesma me candidatar por um deles. Pessoas também morreram para que eu tivesse esses direitos.
"Por fogo em tudo, inclusive em mim" não é uma boa opção, Carlos. Sim, sei que às vezes somos tentados a isso. Eu também já sonhei "dinamitar a ilha de Manhattan", inclusive, já o fizeram, mas creio que isso não resultou em nada positivo. Sei que você sorrirá, talvez me chamará ingênua, querido poeta, mas eu acredito que o mundo é resultado das nossas escolhas, ou da nossa omissão. Então, se não estamos felizes com as opções que temos nas urnas, isso é sim resultado das nossas escolhas e omissões. Acabo de ver um vídeo do Porta dos Fundos sobre isso. Ele expressa a insatisfação do povo brasileiro com a "falta de opções" em relação aos políticos. Mas não questiona minimamente o que fazer diante disso. Que pena que o problema não seja na urna, mas naquela pecinha que fica bem em frente e aperta os botões! Para quem quiser ver o vídeo, acesse:

https://www.youtube.com/watch?v=e8h7D97w5Bo

O povo brasileiro quer continuar pensando que aquela lista de candidatos não nos representa. Não creio que apenas por ingenuidade, mas também por comodismo. Sim, aquela lista de candidatos colada nas paredes das zonas eleitorais pelo Brasil afora representa a nossa sociedade. Se eles não têm noções suficientes sobre a gestão pública, se são corruptos e desonestos, se só querem se eleger para "mamar nas tetas do governo", eles aprenderam esses valores na sociedade brasileira que os formou. E se eles foram eleitos, é porque alguém se identificou com eles e com seus discursos, não é?
"Preso à minha classe e a algumas roupas", angustio-me, Carlos. Vejo essa falta de auto-responsabilização e essa desqualificação da política institucional como algo muito perigoso. Afinal, com a justificativa da corrupção e do caos que reinavam no país, já instauraram ditaduras antes. Será que ninguém percebe que delegar o trabalho de "salvar a pátria" para alguém pode parecer mais cômodo, mas o resultado poder ser hediondo? Será que Hitler e outros tantos ditadores já não nos mostraram essa lição?
"Em vão tento me explicar, os muros são surdos", Carlos. Ao menos tenho você para conversar. Mas não me contento, preciso falar para mais pessoas, pois "meu coração não é maior que o mundo, é muito menor, nele não cabem nem as minhas dores". Preciso escrever.
Mas, às vezes, me questiono: "devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me?" Hei de ver uma flor "furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".
Enquanto a flor não nasce, resta-nos suportar a náusea.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O vírus do amor dentro da gente

Inspirada ao ler um texto do poeta Jeová Santana sobre Gabriel Garcia Marques, resolvi publicar aqui no blog uma resenha que escrevi há alguns anos sobre uma de suas obras, diga-se de passagem, a minha preferida, "O amor nos tempos do cólera", e sua adaptação cinematográfica. Não esperem os leitores uma crítica acadêmica ou um olhar técnico sobre o filme - eu reconheço a minha insignificância nesta área, eu não sou cinéfila, tratam-se apenas das minhas impressões pessoais sobre o filme. 

O vírus do amor dentro da gente

Durante uma viagem, há alguns anos, me hospedei numa pousada em que havia uma biblioteca. Foi lá que, pela primeira vez, abri um volume de O amor nos tempos do cólera. Ao contrário do que esperam os leitores, não vou dizer que fiquei o restante da viagem com o livro entre as mãos, esquecida da paisagem e das pessoas que me cercavam. Desse primeiro contato com o livro, ficou uma viva impressão do seu primeiro parágrafo, que li sucessivas vezes. Em especial, a primeira frase: “Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados”. Belíssima, sonora. Digna de ser lida e relida.
A primeira frase já prenuncia a grandeza do livro e seu tema, nada inovador e sempre inesgotável: os amores contrariados. Nas cerca de 400 páginas do romance, se desenrola a história de Florentino Ariza, um telegrafista que, ao fazer a entrega de um telegrama na casa de Lorenzo Daza, visualiza por uma janela a filha do comerciante, Fermina Daza. A rápida visão foi suficiente para inocular um amor incurável, que resistirá por décadas e transporá todos os obstáculos com paciência.
A epidemia do cólera se faz presente no enredo e indica o estado sanitário da Colômbia – e de toda a América Latina – na passagem do século XIX para o XX). Mas a principal doença de Florentino Ariza é o amor. Por mais lugar comum que essa frase possa parecer, não podemos dizer o mesmo da história de Florentino Ariza. O personagem do livro é um romântico, na sua concepção e vivência do amor, nas maneiras de vestir e no modo de escrever cartas. E o amor realmente lhe causa náuseas, dores, febres e suores, como uma doença. Trânsito Ariza, a mãe que o concebera num caso de amor adúltero, e que o criara, portanto, sem o pai, já casado, achava glorioso sofrer por amor. E incentiva, a princípio, a overdose sentimental pela qual envereda Florentino, numa longa correspondência amorosa com a jovem estudante Fermina Daza.
Um dos aspectos mais interessantes da obra, portanto, é a construção do sentimento entre Fermina Daza e Florentino Ariza à distância e, sobretudo, através da palavra. A valsa composta por Florentino para a sua “deusa coroada” – tocada à distância, mas num local estratégico para que o vento leve a melodia à sacada de sua amada – é uma imagem poderosa dessa distância. E os códigos da paixão e da entrega amorosa (aparições fortuitas, olhares, flores secas, cachos de cabelo) alimentam uma espera que se compraz não apenas na perspectiva de realização amorosa, mas que se delicia em si mesma.  Florentino coloca a trança colegial de Fermina Daza na parede, como um troféu ou uma insígnia religiosa, longamente contemplada e adorada.
Fermina Daza se apaixona pelas palavras de Florentino Ariza, pelo enredo de um amor proibido (que ganha ares épicos na viagem que faz, forçada pelo pai, à sua terra natal, para que ela cortasse relações com o telegrafista) e não pelo moço, em si. Tanto que, ao vê-lo a sua frente, real, palpável, tem a consciência súbita de que não o ama. Percebe o que verbaliza páginas e páginas depois: trata-se de uma sombra e não de um homem. O maravilhamento de Florentino diante da beleza de sua amada contrasta com a confusão, o constrangimento e até mesmo a repugnância que ela sente naquele momento em que os dois se encontram no mercado, depois da volta de Fermina daquela longa viagem, quase um rito de passagem que sinaliza sua mudança de menina para mulher.
A construção do amor pela palavra, portanto, é um aspecto essencial do livro. Aspecto esse que se perde, em grande parte, na adaptação do romance por Mark Newell. O filme, lançado em dezembro do ano passado, transpõe para a tela os principais acontecimentos do enredo, de forma coerente, mas não consegue transmitir os aspectos mais sensíveis e significativos da obra.
Garcia Márquez relutou muito em vender os direitos autorais de sua obra para o cinema hollywoodiano, e só o fez com a promessa de que o filme seria fiel ao romance. Não podemos dizer que não o seja. Não há, no roteiro de Ronald Harwood, cena ou episódio que não constem no livro. Porém, a velocidade de encaminhamento do enredo, no filme (em frente à longa e significativa espera amorosa que prevalece no romance), o torna uma história bastante diferente. Quem assiste ao filme não consegue, de fato, perceber a sensibilidade do livro. Os diversos símbolos da construção do amor entre os protagonistas, citados acima, e o erotismo afetuoso do livro não são aproveitados na adaptação cinematográfica.



Obviamente, qualquer adaptação cinematográfica de uma obra literária requer recortes, encaixes, e um encadeamento cênico que modificam a “velocidade” da apresentação da narrativa. Mas, no caso desse filme, em específico, isso se torna mais problemático, uma vez que a passagem do tempo é um dos temas da obra. Além disso, um outro aspecto que prejudica a abordagem do tema da passagem do tempo é o fato de que a atriz Giovanna Mezzogiorno interpreta Fermina Daza na juventude, quando adulta e idosa; já para o papel de Florentino Ariza, há dois atores: , que o interpreta na juventude e Javier Barden, que o interpreta na fase adulta e na velhice. Nesse sentido, o envelhecimento dos dois personagens não parece ocorrer de forma simétrica, causando um certo estranhamento. A interpretação dos protagonistas merece elogios, em especial a de Javier Barden, que aparece, em muitas cenas, um tanto curvado, com olhares desculposos – quase um gauche na vida, como diria Drummond.
O filme possui uma boa caracterização de época e ótima fotografia de Affonso Beato. Mas incomoda aos nossos ouvidos latino-americanos ouvir o filme num inglês com sotaque latino, quando esperávamos assistir um filme em espanhol (principalmente considerando a origem latino-americana do romance, da trilha sonora, composta pela conterrânea de Márquez, Shakira, e de boa parte do elenco).
Enfim, o filme decepciona quem espera ver Garcia Márquez nas telas. O livro, sem dúvida, é uma obra prima da literatura latino-americana, mas o filme não se enquadra na classificação de obra prima do cinema.  

Ficha Técnica
O Amor nos Tempos do Cólera
Love in the Times of Cholera EUA, 2007 - 138 min
Romance
Direção: Mike Newell
Roteiro: Ronald Harwood, baseado no livro de Gabriel García Márquez
Elenco: Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, John Leguizamo, Benjamin Bratt, Catalina Sandino Moreno, Liev Schreiber, Fernanda Montenegro 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Para além do riso

Na semana passada, tive a felicidade de lançar mais um livro. É muito emocionante ver que aquela história, aqueles personagens, aquelas palavras que moravam apenas dentro da minha mente ganharem forma e passearem por aí. Na última terça, falei sobre esse processo de dar forma aos personagens, sobre a "gestação" deles e suas peripécias. Se quiser conferir, é só entrar no link:

https://www.youtube.com/watch?v=XdIEFmBS7Kk

Durante este bate-papo, foi impossível não falar de umas das questões que permeiam a obra: a violência doméstica. Porém, há outro tema relevante na vida de Jéssica não mencionado no hangout (que encerrei falando do quanto eu ainda tinha por dizer sobre o livro): o racismo. Sim, Jéssica é negra. Não, isto não está escrito na primeira página, porque este fato não determina o caráter, a personalidade de Jéssica, embora seja importante na sua identidade e, principalmente, na visão que a sociedade tem dela. Uma sociedade que, obviamente, recusa-se a enxergar-se como racista, e que, por isso mesmo, está longe de superar seus preconceitos. Como eu disse anteriormente, o que não é nomeado não existe.
Mas não estou falando sobre mais um detalhe deste livro, simplesmente. Trata-se, mais uma vez, de uma forma de lidar com aquilo que me consome: quando a realidade me cutuca, escrevo. E eis que, coincidentemente, na mesma semana em que publico um livro que aborda as tantas veladas violências, presencio uma cena que me deixou profundamente chateada, e, mais, preocupada.
Entrando em uma sala de aula, um grupo de alunos ria, gargalhava, e parei para ouvir as piadas que contavam. Nesse momento preciso da história nacional, em que um caso de racismo foi levado à justiça; em que se discute em cadeia nacional o assunto, meus alunos contavam piadas racistas. A que eu ouvi era resumidamente assim: "Um homem estava se afogando, e o salva-vidas era, assim, moreno. Aí ele pulou na água, mas quando chegou perto do homem, ele empurrou o salva-vidas e disse: - Sai, cocô." Risos, gargalhadas. E eu, pasma. Mais que pasma, ofendida. Sim, ofendida, pois embora qualquer um que olhe minha foto diga que sou branca; embora eu jamais tenha sido discriminada diretamente pela cor da minha pele, eu sou um ser humano ainda capaz de se colocar no lugar do outro, ou lutando para não perder essa habilidade, tão em falta atualmente.
Tudo o que eu consegui me perguntar foi: será que estes jovens não assistem televisão? Não estão acompanhando o que está sendo discutido na mídia? E minha pergunta mais angustiosa: será que eles realmente acham que a cor da pele de uma pessoa ser mais escura faz com que ela possa ser comparada a um cocô? Será que eles não percebem que eles chamaram os negros (detalhe: nem se referiram a eles assim; precisaram do que consideram um eufemismo) de "merda"? Será...?
Ah, essa professorinha boba que se aflige por causa de uma piada, podem pensar os pragmáticos. Eu me aflijo. Esse episódio é mais uma bofetada a nos dizer o quão distante estamos de uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. E tenho certeza de que estes alunos não reconheceriam serem racistas. Não, imagina, eu tenho amigos negros. Há pessoas negras na minha família. Isso foi só uma piada, coisa boba... Afinal, o que tem de mais chamar alguém de macaco? Esse é o discurso cordial da maioria dos brasileiros. A minha resposta é muito simples: é "só uma piada" ou "uma coisa normal no estádio" enquanto não dói na nossa pele. É simples assim. Pense em uma criança que ouve desde pequena piadas como essa. Ela vai internalizar, mesmo que inconscientemente, que é uma merda. Ou que só faz merda. Ou que é um animal, um inferior (não foi essa a justificativa para que se usou para se escravizar o negro?). Se o leitor acha que exagero, converse com pessoas vítimas de preconceito racial (é muito fácil, todos os negros o foram, sem exceção). Converse sobre a percepção deles destas falas, destas piadas, dos olhares que eles recebem ao entrar em uma loja cara... se conseguir, pois o assunto não é fácil. É um tabu. Nesse sentido, recomendo também o vídeo abaixo, uma ótima entrevista com o rap Emicida:

https://www.youtube.com/watch?v=n7DcbOpKUw8

Espero que os leitores de "Janelas Abertas" também reflitam sobre isso a partir de algumas situações descritas no livro. Mas, mais que tudo, que essa sociedade que se julga sem preconceitos e sem tabus possa olhar com mais clareza para si própria. E que não se engane: o preconceito é perigoso. A discriminação é uma forma de desumanização, e ao olhar o outro como menos humano, autoriza-se a exploração, a violência, o extermínio. É isso que a história da humanidade nos conta. Afinal, o que tinha de mais em falar mal dos judeus? E retratá-los de forma ridícula e pejorativa nos livros destinados às crianças, na Alemanha de 1930? Todos sabemos o desfecho hediondo desta narrativa. É só trocarmos a palavra "judeu" pela palavra "mulheres" ou "negros" ou "gays" e teremos outras narrativas de violência, pois o a intolerância, o ódio e a violência andam juntos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Abrindo Janelas

Aprendi a ler não apenas com os olhos, mas com as mãos que tocavam lentamente a capa, com dedos que apertavam levemente cada página para sentir a textura e a gramatura do papel. Tenho uma relação sensorial com os livros, tanto que, quando li pela primeira vez “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector, fiquei encantada com a forma como ela descreveu a personagem com seu livro: “era uma mulher e seu amante”.
Mas até essa amante dos livros que vos fala rendeu-se às novas tecnologias. Meu novo livro, Janelas Abertas, publicado pela Editora Adonis, está sendo lançado em e-book. Passada a natural resistência ao desconhecido que habita todo ser humano, também fiquei maravilhada com as possibilidades ilimitadas: o e-book é uma janela que se abre em qualquer lugar. Não têm os limites físicos da distribuição que o livro impresso têm. Aí a escritora em seu voo imaginário pensa em seu livro chegando talvez a um leitor no Japão. Menos, Lia, diria o leitor realista... Tudo bem, foi só um voo, mas quem sabe o tempo não escancare as janelas.
E já que estamos testando novas formas de ler e se comunicar com esta juventude cada vez mais conectada, amanhã estou fazendo meu primeiro lançamento literário virtual. Por hangout, vou falar sobre Janelas Abertas, sobre como este rebento gestou-se antes de rebentar em texto; sobre as hesitações, angústias e alegrias que me trouxe... Ah, os filhos dão trabalho, sempre, mas a gente os cria para o mundo.



É engraçado falar deles, de meus livros e personagens, desta forma tão familiar – um dia destes alguém me olhou com estranheza quando falei de Jéssica, a protagonista de Janelas Abertas, como uma pessoa. Mas o fato é que a gente convive com nossos livros (e personagens) antes de escrevê-los, como bem sugeriu nosso querido Drummond em “Procura da Poesia”. E posso dizer que a convivência com Jéssica foi intensa e por vezes dolorosa. Ela é jovem, mas, em seus 17 anos, acumulou histórias de abandono, violência e privação que, infelizmente, não são tão incomuns entre as meninas brasileiras. Jéssica é um amálgama de tantas meninas e mulheres que conheci, cujas vozes foram se misturando na sua, que escreve, canta, mas que ainda não consegue gritar contra tudo o que a oprime.  
Mas não pensem que esta personagem não me trouxe alegrias. Não existe alegria mais legítima do que abrir janelas em paredes que pareciam esmagar-nos. Jéssica saiu do quarto apertado e escuro da sua infância. Ela caminhou pelas ruas de Campinas. Ela descobriu um caderno verde, poemas de Cecília Meireles, amizades fieis. Ela ainda não sabe tanta coisa sobre si mesma e sobre seu passado, o mundo ainda parece muito hostil para uma garota como ela. Mas não é que a menina nos surpreende, no final?

Espero que o diálogo com Jéssica (que nem sempre é tranquilo) também abra aos leitores as janelas da indignação, da perplexidade e também da esperança e da alegria. Porque Jéssica, assim como eu, tem essa alegria teimosa: de ser alegre de propósito, só de pirraça, nesse mundão de tanta tristeza.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ventos de agosto

Setembro começa cinzento e com chuva. Como a dizer que agosto terminou, mas a primavera ainda está longe. Teremos de padecer um pouco mais até as flores chegarem - não só aos jardins, mas às nossas relações. Agosto me fez pensar muito em como deixamos os espinhos se sobreporem às pétalas nas nossas conversas diárias. Em como conviver tem sido o maior desafio da humanidade, com pessoas que se ouvem cada vez menos e que gritam cada vez mais. Neste último mês, vivi situações em que constatei, mais uma vez, a dificuldade e até incapacidade de se ficar em silêncio. Silenciar é difícil... E ouvir o outro e a si mesmo requer silêncio.
Mas ontem, último dia de agosto, a chuva chegou na noite e as gotas graúdas amansaram meu coração. O vento era forte e pedi a ele que levasse embora o stress, a raiva, as decepções de agosto, esse mês que parecia não ter fim. E eis que joguei ao vento estes versos:

Ventos de agosto
Levem as lástimas
Deixem cair as sementes
Para que setembro floresça
E minh'alma sonolenta
Possa tomar um sol de manhã
Um ar de primavera frágil
Um gole de esperança instável. 


Que setembro nos traga mais chuvas, que elas lavem e levem tudo o que pesa, que aflige, que não deve ser guardado...