quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A autoritária (?) lista de leitura



Primeira semana de aula. Apesar de o corpo reclamar por acordar tão cedo (levantar antes do sol nascer não é natural, minha gente!), sinto-me feliz em retornar à escola. O abraço carinhoso daqueles que já são meus alunos há um ano ou mais e os olhares curiosos dos alunos novos sempre me trazem alegria e entusiasmo. Mas o dos alunos parece acabar quando a gente fala três famigeradas palavras: Lista de leitura.
Todo ano eu indico de 6 a 8 livros que os alunos devem ler ao longo do ano. Esta carga de leitura não ultrapassa a de 1 livro por mês. Sim, 1 livro em 30 dias. Não me parece muito, ao contrário, eu sempre li mais de um livro por mês desde os meus 12 anos... Mas para vários dos meus alunos, ler um livro por mês parece um fardo terrível, para não dizer impossível!
Geralmente, há dois tipos de lamento: o primeiro é o dos preguiçosos. Aqueles que não querem ler nem uma página por mês, quanto mais um livro. Com esses eu nem argumento. O segundo tipo é o dos rebeldes: geralmente são pessoas que gostam de ler, mas que se recusam a aceitar aquela lista específica de livros. Pergunto: vocês conhecem esses livros? Vocês conhecem esses autores? 99,9% diz que não, mas mesmo assim não gosta. Assim não dá, queridos! Vamos parar com esta história de não gostar de espinafre sem nunca ter comido... A motivação verdadeira por trás desta recusa é: não gostamos simplesmente porque a escola manda e professor diz que é legal. Se é escolar, tem que ser chato. Esse é o raciocínio? Argumento questionável, hein?
Porém, às vezes a gente escuta um argumento melhor e reconhece que ele merece uma resposta. Nesta semana, uma aluna me disse: “Professora, eu gosto de ler, não tenho nada contra ler um livro por mês, leio até mais. Mas por que você não deixa a gente escolher os livros?”. Pela classe, rumores de aprovação que logo viraram uma balbúrdia... Viva a liberdade! Abaixo a ditadura na aula de literatura (até rimou!)! Pelo fim da opressão dos livros escolhidos pela professora! Achei que era melhor argumentar antes que eles continuassem seu ímpeto revolucionário.
Não é de hoje que os alunos me questionam sobre isso. Por um lado, seria muito interessante que os alunos pudessem escolher suas leituras, pois isso poderia aumentar seu interesse pelos livros e sua adesão às atividades propostas nas aulas. Por outro lado, essa experiência poderia limitar muito a atuação do professor no sentido de ampliar as habilidades e o repertório de leitura dos alunos. Como? É simples: há alguns anos, fiz esta experiência democrática, deixei que os alunos sugerissem quais livros leríamos durante o ano. Resultado: uma lista de bestsellers juvenis e histórias em quadrinhos.
Não estou aqui dizendo que estes livros são ruins, principalmente porque o adjetivo “bom” ou “ruim” deve sempre ser seguido da palavra “para”. Ou seja, estes bestsellers podem ser narrativas ótimas, divertidas, mas a maioria dos que foram sugeridos, naquela ocasião, eram livros que não traziam uma linguagem interessante (ao contrário, ela era facilitada ao máximo), nem temas relevantes, que realmente enriqueceriam nossas aulas.
Portanto, em minha defesa de que o professor deve escolher o que seus alunos vão ler, apresento dois pontos principais. Em primeiro lugar, é preciso que os livros desafiem minimamente os alunos para que eles ampliem sua capacidade de leitura. Porém, infelizmente, ao escolher o que vão ler, a maioria dos alunos não quer de forma alguma sair da sua zona de conforto. Os livros que escolho, geralmente, oferecem uma estrutura e uma linguagem que vão obrigar até os alunos que têm o gosto e o hábito da leitura a pensar, a se esforçar um pouco. Pode parecer ruim, a princípio, mas os ganhos são muitos.
Em segundo lugar, considero importante que eu indique livros que meus alunos dificilmente escolheriam. Sim, estou aqui para ampliar o cardápio, apresentar novos sabores. Se nós, professores de literatura, só oferecermos ao aluno o livro que ele mesmo escolheria na estante da livraria, o que estamos acrescentando na formação dele?
Além disso, a sociedade, os PCNs, o ENEM, os vestibulares nos impõem a missão de apresentar aos alunos uma lista de “leituras obrigatórias”, “autores clássicos” etc... Para além da questão da simples cobrança: se um autor ultrapassou seu tempo, teve centenas de edições ao longo dos séculos, não vale a pena a gente conferir o que ele escreveu? Como eu digo para meus alunos quando eles torcem o nariz para o Machado de Assis: “Dá uma chance para o Joaquim Maria, vai...”. Às vezes, os livros que a gente pensa que devem ser uma chatice, só porque foram indicados pela escola, podem trazer agradáveis surpresas!

P.S. – Dedico este texto a todos os meus alunos, principalmente aos leitores apaixonados e questionadores!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Lia e os Pavanáticos

Não, caro e raro leitor: não resolvi abandonar as letras pela mais promissora carreira na música pop. Este título não é o nome de uma banda moderninha, e sim uma referência ao meu recente encontro com os alunos da EMEF Maria Pavanatti Fávaro.
A convite da professora e escritora Cida Sepúlveda, fui à Pavanatti (como a escola é carinhosamente referida por seus alunos, funcionários e professores) para um bate-papo (não ouso dar o título de palestra!) com os alunos, que haviam previamente lido meu primeiro livro, Embaixo da Cama. Foi Cida que criou o termo "Pavanáticos", que também dá nome ao jornal da escola, mantido por ela e pelos alunos.
A Pavanatti é uma escola simples, como tantas outras escolas públicas da periferia de Campinas, mas tem um diferencial: uma diretora, Sandra, e uma professora, Cida, que amam a literatura e estão tentando despertar entre os alunos um interesse maior pelos livros. Assim como eu, outros escritores e artistas já foram convidados para ir à escola e partilhar com os alunos suas experiências com a arte. É assim que eu defino a tarde que passei com os pavanáticos: um momento de troca de experiências.
Sempre que vou a uma escola de ensino fundamental falar sobre literatura e sobre os livros que escrevi (o que sempre envolve falar sobre a vida que pulsa nas palavras), eu me pergunto sobre como dizer, ou seja, que palavras usar, que narrativa construir para fazer essa nova geração compreender o que o livro significou na minha vida. Afinal, passei a infância em uma casa sem livros - objetos de desejo, quase um luxo para uma família iletrada, cujos ancestrais não tinham calos nos dedos por escrever, mas calos nas mãos por pegar cedo nas enxadas, nas vassouras, nas agulhas de costura. Sempre me pergunto se vou me fazer compreender, mas percebo que o tempo e as diferenças que me afastam destes alunos é sempre menor que o poder da experiência humana. Sim, continuamos com conflitos tão semelhantes: a eterna solidão dentro de nossas próprias famílias; o medo de se mostrar apaixonado e vulnerável diante do outro; a dúvida em relação ao que faremos de nossas vidas, quando somos muito jovens... Eu vi esses sentimentos no olhar de vários alunos enquanto eu relatava como surgiu em mim a vontade de criar e escrever histórias.
Entre perguntas sobre como surgem os nomes dos personagens, quanto tempo demora-se para escrever um livro e qual seu processo de "fabricação", percebi o quanto os pavanáticos, como tantos outros adolescentes, têm sede de conhecimento. Fico chateada quando escuto pessoas dizendo que os jovens de hoje não querem saber de nada. Claro que há, atualmente, adolescentes desinteressados, como sempre houve, em todas as épocas e gerações. Mas não são a maioria absoluta, e percebemos isso quando lançamos a eles algumas sementes e vemos o quanto floresce. Estes jovens precisam de estímulo, merecem ser tratados como pessoas inteligentes que podem ainda desenvolver muito, caso não os deixemos de lado com a desculpa de que eles "não querem saber de nada".
Como eu disse a eles, perto da minha despedida: escrever nos faz pensar no nosso lugar no mundo. E quem não pensa em seu lugar no mundo, está aqui de bobeira. Eles entenderam o recado, li isso no olhar deles. E li algo que ainda está por ser escrito: o lugar de cada um, como ser humano e como cidadão.
Fiquei feliz por participar, mesmo que por poucos momentos, desse projeto da narrativa da vida de cada um. Obrigada, pavanáticos!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Mais difícil ainda é não escrever

Dias que não passam, eles parecem quicar e já desaparecer. Queria que as horas realmente passassem, que eu pudesse sentir seu passo indiferente, mas elas não me dão esse direito, tão depressa atropelam meus dias. É sempre assim no final do ano: parece que as horas estão treinando para a corrida de São Silvestre!
E nesse atropelo de horas e dias, a literatura foge de mim. Porque poesia requer lentidão, a poesia me obriga a parar o passo para olhar a copa das árvores, a interromper o fluxo para deixar que os versos imponham seu ritmo. E como fazer isso nesse turbilhão de coisas? De provas, de notas, de documentos a preencher e assinar? Aí vejo de longe as palavras que me observam ressentidas de eu trocá-las pelos números. Creiam, minhas amadas, é pela necessidade e não pela paixão...
Não tenho escrito com frequência e isso me faz mal - é como uma insônia às avessas, pois me sinto adormecida para aquilo que o mundo tem de mais fascinante: tenho que fechar os olhos e os ouvidos, pois não posso correr o risco de ser capturada pelo lirismo; tenho que soprar qualquer flama que ameace se acender em mim. Para mim, que adoro me distrair, é penoso...
Dia destes li uma crônica de Vinícius de Moraes, a trabalho e não a passeio, mas não adiantou - as palavras de Vinícius me reviram sempre, ainda que não sejam as dos seus poemas que me eriçam a pele. A crônica falava da dificuldade de se escrever uma crônica. Da crise de criatividade que por vezes assola o escritor obrigado a publicar semanalmente. E eu, na minha proverbial imodéstia, comecei a discutir com Vinícius. Que crônica era tudo que fluía dos dedos do escritor, assim, de forma fácil. Que eram como o pão de cada dia, e isso não é desmerecê-la, não! A crônica é aquele almoço que a gente prepara com o que encontra na geladeira, com os legumes da estação, e nem por isso o sabor é menor.
A crônica está nos sabores do cotidiano. E o que ocorre despretensiosamente e que chamamos de cotidiano é muito bom, assim como a crônica, que não tem mania de grandeza. E nisto está sua beleza. Sabe-se passageira, então esforça-se para, nesse instante, deixar algumas gotas de lirismo matutino, como uma aurora a espalhar seu orvalho sobre o aparentemente áspero e monótono do dia a dia.
Se é difícil escrever uma crônica? Às vezes. Mais difícil ainda é não escrever.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Somos tão jovens

Ontem, domingo à noite - dia e horário propício para a famosa depressão pré-segunda-feira. Eu estava no meu sofá rodando canais e, em meio à mediocridade televisiva, encontrei consolo no Canal Brasil, que passava um documentário que há tempos eu queria assistir: "Rock Brasília", de Vladimir Carvalho. Há tempos, curiosamente, é o título de uma das canções de que mais gosto da banda Legião Urbana, talvez a mais importante desta geração do rock dos anos 80, nascida na capital do Brasil, em um momento em que, embora já se esfacelando, a ditadura militar liderava o Brasil.
Este texto não será uma resenha sobre este documentário, que me emocionou muito em alguns momentos por me trazer canções que embalaram meus anos de adolescência e me ensinaram a ler. E é sobre isso que quero escrever. Sobre como aprendi a ler ouvindo. Sim, aprendi a ler ouvindo Legião Urbana. Renato Russo foi o primeiro poeta que li: naquele momento, com 13/14 anos, eu nem percebia o quanto de elaboração linguística suas letras continham, afinal, eu não estava ouvindo Legião para identificar metáforas. Mas eu sabia que aquelas letras me faziam pensar na vida. Ouvir Renato Russo cantando era ter certeza de que alguém entendia o que eu estava vivendo, ao mesmo tempo que seus versos me traziam um estranhamento, uma surpresa, uma pergunta: como alguém conseguiu dizer meus sentimentos desta forma? Como alguém consegue descrever um mundo com essas palavras, com essas rimas e com esse ritmo? E eu saía cantando "Quase sem querer", "Tempo perdido" e "Há tempos" dizendo que eram canções feitas para mim, o Renato (olha a intimidade!) ainda não sabia, mas aquelas canções eram minhas.
E hoje sabendo que as canções e os poemas pertencem àqueles que se apropriam deles, àqueles que passeiam com os pés descalços entre as suas palavras como quem anda lentamente pela praia (os pés se marcando no espaço onde areia e mar se encontram), eu digo ainda mais que estas canções são minhas. E penso em sua complexidade e compreendo porque elas me traziam mais perguntas do que respostas, naquele momento da vida em que a gente perdia as crenças nas respostas que a família, a religião, a escola, os adultos nos davam tão prontamente. Eu queria novas respostas. Mas uma canção que diz "Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana/ Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana/ E nas escolas as crianças aprendem a repetir música urbana" reafirma: desconfie das instituições, questione o que lhe foi ensinado, não creia nas respostas simplistas...
E vendo aquele documentário, eu me deparei com um pensamento: onde foi parar este inconformismo juvenil? Onde foi parar esta desconfiança sadia que fez com que gerações de jovens tivessem o ímpeto de rejeitar qualquer governo opressivo e ditador? Onde? E a resposta assustadora: morreu. Então, ontem, Dia de Finados, lamentei a morte de uma geração, sem forças para escrever uma elegia que a homenageasse com a poesia que ela merece.

Laerte e seu humor para nos levar à lucidez!

 
Sei que minhas palavras podem soar exageradas, mas esse é o meu sentimento, uma espécie de luto ao perceber uma onda neoconservadora que se levanta em nossa juventude e que ameaça afogar princípios democráticos que, em um passado recente, eram negados, e pelos quais pessoas lutaram e morreram. Ao ver pessoas, e principalmente, jovens pedindo um golpe militar - sim, um golpe, este é o nome exato quando há intervenção em um governo eleito democraticamente -, a minha perplexidade é enorme, mas não consigo simplesmente dizer que eles fazem isso porque não têm memória ou conhecimento histórico.
Como diria a canção de Renato Russo, "somos tão jovens", mas essa juventude, pela justificativa da pouca memória ou pouca maturidade, não justifica algumas posturas que me parecem indefensáveis. Não acho que estes jovens sejam inocentes, que eles não sabem o que significa uma ditadura, que eles não sabem sobre a censura, a corrupção, a tortura e a morte que pairaram sobre o Brasil no período militar. Em 1964, houve setores da sociedade civil que saíram às ruas em apoio aos militares - a elas sim, pode-se dar o benefício da dúvida: elas não sabiam, talvez, o que estava por vir. Elas não sabiam que seus filhos poderiam morrer por dizerem o que pensavam.
Mas hoje, 2014, 50 anos depois, sabemos. Todos sabemos. Vi em um vídeo na internet um jovem dizendo que "aconteceram coisas na ditadura militar, mas não é tudo isso que falam, as pessoas exageram". Percebam o inominado: "coisas"... Deem-se nome aos bois: ocorreram censuras, torturas, mortes - mas se parte desta nova (e da não tão nova) geração quer negar isso, não é por ingenuidade, é porque, no fundo, está de acordo com este sistema. Tenho a impressão que, há alguns anos, as pessoas tinham um certo pudor em declarar isso, o que me dava alguma esperança... Mas tenho percebido que as ideias perigosas de resolver os problemas da nação pela força e pela violência estão sendo veiculadas em alto e bom som, por um número assustador de pessoas.
Somos tão jovens, no exercício da democracia. E eu temo que nossas conquistas, ainda frágeis, se percam pela inadvertência dos que não as valorizam. Tomemos mais cuidado com aquilo que pedimos - há sempre a possibilidade de se conseguir. E se um dia alguém invadir nossas casas às 3 horas da manhã sem mandato judicial e um ente da nossa família ou nossos amigos começarem a desaparecer sem prisão ou julgamento notórios (coisa comum nos regimes de exceção), não sejamos hipócritas a ponto de dizer que não sabíamos.     

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Um sorriso de Brás Cubas

Saúdo a nova semana que chega, com alívio. A semana anterior teve horas tão pesadas, com uma tensão tão densa que quase se podia tocá-la com as mãos. Não era apenas a última semana antes do segundo turno das eleições, mas uma semana cheia de afazeres que não terminavam nunca. Uma semana em que um anjo safado, um chato de um querubim, predestinou que eu teria que trabalhar com algumas pessoas estressadas. Bem poucas, na verdade, mas com o impressionante poder de tirar a calma de todos ao seu redor. Ou quase. Porque, no meio de tudo isso, eu estava lendo Machado de Assis.
Hein? Pode se perguntar um leitor incrédulo, pensando talvez que haja algum autor de auto-ajuda com este nome. Não, trata-se dele mesmo, do “grande Machado”, como diriam alguns, do Joaquim Maria, como eu diria, na minha pretensão de intimidade com este autor que me proporcionou e proporciona tantas horas de prazer e reflexão.
E não é que lá estava eu, enquanto as pessoas ao meu redor se estressavam e mordiam a própria sombra por coisa pouca, com Dom Casmurro em minhas mãos? E pude recorrer a passagens fascinantes desta obra que nunca se esgota. Sim, eu já li este livro muitas vezes, E a cada vez que vou abordá-lo em uma aula, dou-me novamente o deleite de revisitá-lo. E a cada vez, percebo coisas novas.
Pobre daqueles que pensam que só se trata de um livro sobre adultério. Que pensam que sua grande questão é se Capitu traiu ou não Bentinho... Isso é o que está na superfície, mas há outras coisas mais profundas neste livro. Para mim, por exemplo, um dos seus temas mais interessantes é a passagem do tempo. Ou a persistência da memória, essa coisa difusa que também se molda ao sabor das paixões. Vejo o velho Bento Santiago a contemplar Bentinho e sua amiga Capitu, a companheira da meninice, como contempla os retratos da réplica da casa de Matacavalos. São imóveis, inertes, mortos. Não adianta tentar atar as pontas da vida, elas estão para sempre separadas. Só a memória, só a narrativa as une. O gesto da escritura é a única forma de lutar contra o tempo inexorável.
As pérolas que reluzem nas páginas do livro sobre este tema são várias, mas se encontram também em outros títulos do autor. Como esquecer do delirante passeio de Brás Cubas, no dorso de um hipopótamo, a contemplar a sucessão dos séculos – e concluir a repetição da tragicomédia humana por tantas civilizações? E as reflexões do menos irônico e mais melancólico Conselheiro Aires, em seus passeios pelas ruas do Rio, já no outono de sua vida (e da carreira do autor)?
Então eu volto para aquele “quase” do final do primeiro parágrafo. Diante dessas reflexões sobre o tempo, com as quais Machado de Assis sempre contribuiu, acho que estou aprendendo a sorrir mais. Nesta semana, eu me flagrei com um sorriso que um colega classificou como “de Monalisa”, mas eu diria ser “um sorriso de Brás Cubas”, aquele sorriso de quando se compreende o quanto a humanidade é lamentável e se resolve aceitar o fato. Diante daqueles que se julgam tão importantes, que se estressam tanto (porque eles precisam fazer tudo, afinal, ninguém o faria tão bem e perfeitamente), que perdem completamente a gentileza para com os que estão ao redor, ou com aqueles que pensam diferentemente, nada nos faz tão bem quanto um sorriso de Brás Cubas.
E pensar na inexorabilidade do tempo me acalma, porque me faz enxergar a inutilidade de tanta preocupação, de tanto desgaste. Alguns problemas são pequenos demais se pensarmos na dimensão do mundo e de sua história. Afinal, daqui a pouco tempo, seremos apenas retratos na parede – talvez nem isso, nessa era em que quase não se imprimem mais fotografias... 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A menina, as armas e os livros

Um dia vi um brilho intenso nos olhos de um homem que a vida em muito endureceu. Logo o brilho se transformou em uma lágrima que escorreu pelo rosto do homem que raramente chorava. Este homem era meu pai. Ele discretamente enxugou essa lágrima antes que outros a vissem, antes que fotógrafos chegassem, junto com a minha irmã. Era o dia de sua formatura na Faculdade de Direito. Mais do que um diploma, era um dia histórico para nós: pela primeira vez na história da nossa família, uma pessoa teria um diploma de graduação. Mais do que isso: era a primeira mulher a conquistar esse lugar.
A lágrima era misto de orgulho, de alegria, mas também testemunhava os sofrimentos e as renúncias que certamente meus pais fizeram para que eu e minhas irmãs estudássemos nas melhores escolas. Mais tarde, naquele mesmo dia, meu pai disse uma frase que está gravada em minha mente: "Não me arrependo de nenhum dia, de nenhum centavo que investi em vocês". Embora a linguagem pareça tão mercadológica, isso significa "Eu amo vocês, minhas filhas" ou "Eu me orgulho de vocês, minhas filhas", na linguagem do homem que saiu de casa aos 17 anos com duas mudas de camisa e um sapato furado, trabalhou como jardineiro, pedreiro, metalúrgico, segurança e, enfim, montou um pequeno comércio. Do homem que, diante de uma pequena ascensão social, optou por mudar suas filhas de escola, ao invés de realizar seus sonhos de consumo. Do homem que muitas vezes prezou mais a contabilidade que o prazer, frustrou suas filhas adolescentes por não lhes dar algumas roupas, viagens e festas, mas que jamais se recusou a comprar um livro. E isto mudou a minha vida.
Venho de uma família machista (como tantas no Brasil) em que a educação das meninas não é a prioridade. Tenho uma prima cujo irmão fez curso pré-vestibular, ingressou na universidade, mas ela não teve o mesmo apoio da família. Para ela, não havia recursos para o pré-vestibular, nem para a mensalidade de uma faculdade privada, nem qualquer apoio para que ela saísse da cidadezinha em que morava para fazer uma universidade pública (afinal, há exemplos na família de mulheres que saíram da casa dos pais para estudar, trabalhar, e "se perderam"). Sim, queridos, século XXI, não estou relatando o que aconteceu com a minha bisavó, infelizmente! No fim de semana em que eu fazia o vestibular da UNICAMP, minha mãe teve que ouvir de um tio a seguinte pérola: "Pra que estudar tanto para limpar bunda de criança?". Ele riu, minha mãe, não. Ela, com toda a delicadeza que lhe é peculiar, disse: "Eu espero que minhas filhas limpem bunda de criança porque eu quero muito ser avó, mas elas não vão fazer só isso na vida".
São muitos os exemplos que se espalham para além da minha família, na qual também há exemplos notáveis de ruptura com este pensamento retrógrado e opressor, como meus pais, que criaram três meninas com livros nas mãos. Nesta semana, ao saber que o Prêmio Nobel da Paz havia sido entregue a  Malala Yousafzai, fiquei muito feliz e emocionada. Para os que não sabem, Malala é uma adolescente de 17 anos que, com apenas 12 anos, começou a escrever sobre a situação das meninas no Paquistão, sob o regime talibã. O pai de Malala, dono de uma escola, contrariava o regime ao permitir que as meninas estudassem, e estimulava a militância da filha em favor da educação escolar feminina. Em 2012, aos 14 anos, houve uma tentativa de assassinato, na qual Malala levou um tiro no rosto e um no pescoço, ficou em coma por vários dias, mas, felizmente, sobreviveu e foi transferida para um hospital na Inglaterra. Recuperada, ela escreveu uma autobiografia e continua sua militância em favor da educação das meninas.

 Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz em 2014
O exemplo de Malala me move e comove. Sempre pensei na sorte tão diversa que tantas mulheres da minha família tiveram por não terem acesso a uma educação que lhes ensinassem que elas tinham valor, que eram tão inteligentes quanto os homens e que o mundo também era grande para elas. Que não é a presença de um homem, uma aliança no dedo ou a ausência destes que definem o seu valor. Que lugar de mulher é onde ela escolhe estar. Que o que você lê, reflete e pensa é mais importante que o seu peso ou a cor do seu cabelo. E principalmente: que, independente do sexo, somos seres humanos dignos de respeito, e  por isso jamais devemos aceitar sermos diminuídas, humilhadas, oprimidas ou agredidas de qualquer forma.
Sim, foi a minha educação escolar, foram os livros que chegaram às minhas mãos que me fizeram enxergar a mim mesma como esse ser humano digno de respeito. A literatura me formou como um ser mais sensível e humano, capaz também de respeitar mais os que estão ao meu redor. A literatura alimentou minha ojeriza à violência, à opressão e meu amor à liberdade, "essa palavra que o sonho alimenta/ que não há ninguém que explique/ e ninguém que não entenda", como disse a Cecília Meireles. E por isso, ainda acredito que o livro é a coisa mais subversiva que colocaram em minhas mãos. Esta é a razão pela qual os regimes ditatoriais temem que uma garota leia, que faça do livre pensamento e de suas palavras as suas armas, resistindo às armas de fogo e não se intimidando diante delas. 
E Malala nem suspeita que temos isso em comum: que tivemos pais que acreditaram na importância da nossa educação, que acreditaram no nosso valor e na nossa inteligência.
Obrigada, pai! Obrigada, Malala!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Posso, sem armas, revoltar-me?

Começo a segunda - e a semana - lendo Carlos Drummond de Andrade. Por que o verso é minha cachaça, como eu já disse em outro post. Ontem, durante as apurações das eleições eu estava, literalmente, bebendo cachaça. Agora, segunda de manhã, pega mal. Temos que manter a sobriedade, embora nos pareça que todos se embriagam, tamanha incoerência entre o que se diz e o que se faz.
Não, não vou falar exatamente dos resultados das urnas. Na conversa que travo com Carlos, mais uma vez - já conversamos tanto que o trato pelo primeiro nome - ele me fala sobre a "ração diária de erro, distribuído em casa", pelos ferozes "padeiros e leiteiros do mal", e isso já na década de 40. Toma-me a sensação de que realmente a humanidade anda em círculos.
Mas discuto com Carlos: quem são estes "padeiros e leiteiros do mal"? Ah, a minha insolência em discutir com os poetas que já têm seu capítulo no livro didático de literatura e até caem no vestibular... Mas foi você um dos que me ensinou a ser insolente, Carlos, aguente agora. Mas Carlos só me responde que "o tempo não chegou de completa justiça", que "o tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse".
E que impasse! Como eu disse antes, não é o resultado das urnas. É tudo o que vem antes dele, e tudo que o motiva. Começo pelo mais grave: a profunda lacuna educacional que impede que as pessoas compreendam o que é a política. E a profunda (e cômoda) falta de consciência que leva a maioria a sempre colocar a culpa de tudo "nos políticos", esses seres que vieram de Marte, talvez, já que ninguém se identifica abertamente com eles.
A coisa mais desoladora é ver essa contradição. Pessoas que falam em mudanças, mas nem conseguem enxergar as mudanças que estão em curso, nem compreender que elas ocorrem em um processo (e não por um passe de mágica) que envolve toda uma sociedade com velhos e lamentáveis hábitos. Pessoas que reclamam do estado em que as coisas estão, falam da necessidade de uma "nova política" mas mantêm um governo estadual que está no poder há décadas, tempo que lhe foi suficiente para consolidar a falência da escola pública e a total desvalorização do professor, entre outras provas de incompetência e descaso. Pessoas que reclamam da impunidade, mas quando se dirigiam ao seu local de votação com seu carro, fizeram questão de estacionar em local proibido e dificultar absurdamente o trânsito; ou que, sem documento com foto, faziam aquele escândalo em sua seção quando o mesário dizia que sem este documento ele não poderia votar. Claro: onde estão os meus direitos? Deveres, hein, o que é isso?
Carlos me responde que "é tempo de partidos, tempo de homens partidos", mas isso ficou no passado, querido poeta. Hoje as pessoas se revoltam contra os partidos, dizem que não acreditam na política partidária, que "político bom é político morto" (pasmem, ouvi isto ontem, literalmente!), que se não fosse obrigatório não votariam. Ah, eu preciso parar de fazer análise do discurso nos almoços familiares, pois está ficando cada vez mais difícil engolir. Enfim, vos pergunto, concidadãos: vocês realmente acham que em um período da história em que não existiam nem eleições, nem partidos, estávamos melhores? Quando reis governavam hereditariamente por direito divino estávamos melhores? Por favor, me instruam: citem um sistema de governo melhor, proponham-no publicamente, não guardem a  sabedoria apenas para vocês.
Ironias à parte, estou um pouco cansada da lamentação inócua, que só faz eco e cai no mais absoluto conformismo. Eu não penso que nosso sistema político e partidário seja ótimo. Mas faço questão de votar. Pessoas morreram para que eu tivesse esse direito. E se eu não estou satisfeita com os partidos, seus líderes e seus eleitos, posso dizer isso abertamente neste blog, ou propor a fundação de um novo partido, ou eu mesma me candidatar por um deles. Pessoas também morreram para que eu tivesse esses direitos.
"Por fogo em tudo, inclusive em mim" não é uma boa opção, Carlos. Sim, sei que às vezes somos tentados a isso. Eu também já sonhei "dinamitar a ilha de Manhattan", inclusive, já o fizeram, mas creio que isso não resultou em nada positivo. Sei que você sorrirá, talvez me chamará ingênua, querido poeta, mas eu acredito que o mundo é resultado das nossas escolhas, ou da nossa omissão. Então, se não estamos felizes com as opções que temos nas urnas, isso é sim resultado das nossas escolhas e omissões. Acabo de ver um vídeo do Porta dos Fundos sobre isso. Ele expressa a insatisfação do povo brasileiro com a "falta de opções" em relação aos políticos. Mas não questiona minimamente o que fazer diante disso. Que pena que o problema não seja na urna, mas naquela pecinha que fica bem em frente e aperta os botões! Para quem quiser ver o vídeo, acesse:

https://www.youtube.com/watch?v=e8h7D97w5Bo

O povo brasileiro quer continuar pensando que aquela lista de candidatos não nos representa. Não creio que apenas por ingenuidade, mas também por comodismo. Sim, aquela lista de candidatos colada nas paredes das zonas eleitorais pelo Brasil afora representa a nossa sociedade. Se eles não têm noções suficientes sobre a gestão pública, se são corruptos e desonestos, se só querem se eleger para "mamar nas tetas do governo", eles aprenderam esses valores na sociedade brasileira que os formou. E se eles foram eleitos, é porque alguém se identificou com eles e com seus discursos, não é?
"Preso à minha classe e a algumas roupas", angustio-me, Carlos. Vejo essa falta de auto-responsabilização e essa desqualificação da política institucional como algo muito perigoso. Afinal, com a justificativa da corrupção e do caos que reinavam no país, já instauraram ditaduras antes. Será que ninguém percebe que delegar o trabalho de "salvar a pátria" para alguém pode parecer mais cômodo, mas o resultado poder ser hediondo? Será que Hitler e outros tantos ditadores já não nos mostraram essa lição?
"Em vão tento me explicar, os muros são surdos", Carlos. Ao menos tenho você para conversar. Mas não me contento, preciso falar para mais pessoas, pois "meu coração não é maior que o mundo, é muito menor, nele não cabem nem as minhas dores". Preciso escrever.
Mas, às vezes, me questiono: "devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me?" Hei de ver uma flor "furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".
Enquanto a flor não nasce, resta-nos suportar a náusea.