quinta-feira, 16 de maio de 2019

Muito além da fórmula da água

Pouca gente sabe, mas eu me tornei professora antes de completar a minha graduação, antes de ter licenciatura. Aos 19 anos, eu já estava em uma sala de aula, no período noturno, lecionando para pessoas mais velhas do que eu (e que tanto me ensinaram). Desde criança eu admirava meus bons professores e me sentia honrada com a possibilidade de me tornar um deles no futuro. Desde criança, eu gostava dos cadernos, dos livros, da lousa e do giz, levando mais a sério do que a maioria o brincar de “escolinha”. E o tempo passou, a criança cresceu, esse diminutivo desapareceu e a escola passou a ser não apenas meu local de trabalho, mas um espaço de vivências múltiplas que alimentou minhas reflexões, pesquisas, textos e afetos.
O que a educação fez por mim vai muito além dos diplomas e qualificações profissionais. Eu faço parte da primeira geração da minha família que frequentou escolas. Que não precisou pegar na enxada antes dos 10 anos. Não havia livros na casa dos meus avós. E poucos, na minha casa de infância (a Bíblia e volumes da Enciclopédia Barsa, que ainda se vendia de porta em porta). A escola me trouxe livros nos quais eu aprendi muito mais do que a fórmula da água ou a multiplicar 7 X 8... Livros que me mostraram realidades diferentes, lugares distantes, ideias diversas. E mais: a escola me trouxe pessoas que me ensinaram a pensar, a conviver, a lidar com o que eu era e com o que eu queria me tornar. A escola me permitiu reavaliar os preconceitos que eu recebi, ressignificar algumas verdades e me tornar uma pessoa melhor (e que ainda precisa melhorar muito)... Porque a ignorância, como bem disse Renato Russo, é vizinha da maldade.



Meus colegas e alunos em manifestação na Avenida Paulista, 
em defesa das escolas e universidases públicas! <3 #15M


A educação me permitiu escolher minha profissão e atuar no desenvolvimento das pessoas. Foi para isso que eu me tornei professora: para ver gente aprender, crescer, brilhar. Eu dediquei os últimos 20 anos da minha vida aos estudos, à pesquisa e à docência para isso. A coisa mais maravilhosa do mundo é ver o brilho no olho de um aluno quando ele entende um texto ou um conceito, tem uma ideia, cria um poema, um projeto, um experimento... E o que há de mais triste para mim, nesse momento, é ver a desesperança no olhar desses alunos diante das ameaças ao orçamento das escolas e universidades. É ver parte da sociedade brasileira apática diante do desmonte da educação pública. Porque isso significa condenar essas crianças e jovens ao não desenvolvimento, a permanecer, na melhor hipótese, no mesmo lugar cultural e social, sem chances de mudar, de se reinventar, de fazer algo relevante nas próprias vidas e no mundo.
Não deixemos que isso aconteça. Não deixemos que o projeto de falência da escola pública prossiga, projeto esse que tanto interessa aos grandes empresários da educação, que tem transformado a educação em mercadoria (nem sempre de qualidade) para quem quiser ou puder pagar. Defendam a escola pública, briguem por ela, exijam sua melhoria! Por favor, Brasil, nunca te pedi nada!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A ameaça do (e ao) conhecimento

Toda vez que sou convidada para uma palestra, uma mesa, um bate-papo sobre literatura eu me sinto honrada. É uma honra para mim compartilhar a minha experiência com a literatura, tanto na pesquisa quanto na escrita ficcional ou na docência, e poder escutar e aprender com a experiência de tantas pessoas que constroem a cultura nesse país, ao longo de uma vida de muito trabalho.
Foi assim nesta semana, na mesa “Coleções literárias para a formação de leitores”, no IFSP-Pirituba. Mas a minha honra maior foi escutar. Não apenas porque Jiro Takahasi (o outro componente desta mesa onde repartimos o pão das palavras) é um editor veterano, premiado, que tem tanto a nos ensinar sobre a produção editorial no Brasil, especialmente sobre as renomadas coleções Vagalume e Para Gostar de Ler, que formaram gerações de leitores no Brasil. Mas também porque este editor afirmou, em vários momentos da sua fala, que todo o seu trabalho de décadas na área editorial só existe e faz sentido porque há leitores, citando a famosa frase de Borges: “Outros que se vangloriem dos livros que escreveram, eu me vanglorio dos leitores que tive”. E estendendo-a à atividade docente (já que Jiro também é professor), terminou sua fala agradecendo por falar de sua experiência a alunos de Letras, parodiando o escritor argentino: “Outros que se vangloriem das aulas que deram, eu me vanglorio dos alunos que tive”.
Em uma semana em que se anunciaram cortes no orçamento da educação pública e de bolsas de fomento à pesquisa, a fala de Jiro Takahashi é mais que um consolo, mas um convite à resistência. A mim, ela trouxe uma certeza: a de que toda a pesquisa na área de Linguagens e Ciências Humanas faz sentido porque há leitores e alunos que precisam dela. Falamos de coleções editoriais voltadas para um público jovem em formação, tanto em termos de leitura quanto de cidadania, e do quanto essas coleções são importantes para o contato do jovem com uma literatura que faça sentido para ele, que o represente e, ao mesmo tempo, apresente-lhe um mundo que excede as fronteiras da sua casa, da sua escola, do seu bairro, da sua cidade. Mas também falamos das limitações dessas coleções, da conflituosa relação entre educação, mercado e literatura juvenil – já que imperativos econômicos e didáticos influenciam na produção dos livros destinados a este público.
Tais conflitos se mostram presentes nos discursos políticos atuais, quando se coloca o professor como alvo de vigilância da sociedade, cerceado inclusive na escolha das leituras a serem feitas por seus alunos. Porque sabemos que a leitura foi e continua sendo vista como uma atividade perigosa, caso não seja bem orientada. Entenda-se orientação como um exercício de controle que vai desde a escolha de conteúdos que são ou não adequados à leitura e ao debate em sala de aula, até ao “monitoramento” da interpretação de textos, disfarçado sob a forma de roteiros de leitura, apostilas, nivelamento e homogeneização das avaliações de literatura e outros recursos didáticos. Assim, o risco de o jovem começar a pensar e questionar os valores que recebeu desde sempre é bem menor. Obviamente, nada disso é dito com clareza, talvez sequer pensado com clareza, mas diluído nas boas intenções de facilitar a leitura e torná-la mais útil para os jovens, bem como orientá-los moralmente. 


   
Teme-se que o jovem viaje sozinho pelas páginas dos livros, porque isso pode desviá-lo dos caminhos considerados certos – e são exatamente os desvios que trazem as surpresas que nos fazem pensar. Por isso, o conhecimento sempre foi considerado uma ameaça por aqueles que detêm verdades absolutas e que querem manter o poder a qualquer custo. É muito claro que o desmonte da educação pública e dos programas federais de fomento à pesquisa é um projeto, com motivações e implicações não apenas políticas, mas sociais e econômicas. Diante disso, mais do que nunca, temos a convicção de nosso papel enquanto pesquisadores e professores das universidades públicas: produzir conhecimento que atenda não apenas demandas imediatas (da medicina, da engenharia, da indústria), mas que desenvolva formas de questionar a própria produção de conhecimento, seus discursos, suas metodologias, seus limites e potencialidades. Só assim promoveremos uma educação de qualidade, que excederá os discursos eleitoreiros e das instituições de ensino.
Porque a leitura e a reflexão precisam exceder os limites da escola, da aula de língua portuguesa e literatura. Ao final da instigante discussão sobre as coleções literárias para a formação de leitores, um aluno nos perguntou nossa opinião sobre a crise do mercado editorial. Livrarias falindo, pequenas editoras fechando, grandes grupos editoriais em déficit. Algo que parece ser uma crise no sentido financeiro é também um sintoma de uma crise mais ampla, de valores, na qual podemos perguntar qual o valor do livro, e, especialmente, da leitura literária, ou mais amplamente, da cultura letrada, no atual contexto social. E não há como falar disso sem falar de uma educação que realmente forme leitores, que continuarão lendo para além dos anos escolares. Editoras nunca terão público suficiente em um país de analfabetos funcionais. Por isso, é preciso que elas se lembrem de seu principal foco: os leitores, seu desenvolvimento e o de uma relação especial com os livros. 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Fly 3003


De repente surgiu aquele carro. Do nada surgiu aquele carro. Ela freou com toda a força e sentiu o cheiro do pneu queimando o asfalto. Quando o carro parou, a milímetros do outro, ela fechou os olhos, as pernas bambas, nem ouvindo o palavrão do motorista que estava atrás. Pesava-lhe o corpo. Não era apenas a descarga de adrenalina. Pesava-lhe o corpo pelas tantas noites pouco ou mal dormidas. Pesavam-lhe as pálpebras pelas lágrimas não derramadas. Pesava-lhe a alma sem asas.
Lentamente relaxou os dedos que, ato reflexo, apertavam com força o volante. Respirou fundo, os olhos ainda fechados, repetindo baixinho “Não foi nada, não foi nada”, como um mantra que lhe devolveria o domínio das pernas. Foi despertada subitamente pelo barulho das buzinas. O sinal abrira e a longa fila de veículos reclamava seu direito de seguir a vida. Ou ao menos o caminho para o trabalho, para a escola, para o banco, para qualquer instituição que lhe engoliria a vida. Ainda trêmula, ela ligou o carro, engatou a primeira marcha, colocando-se em marcha novamente na procissão urbana. “Vai passar”, pensou. Repetiu algumas vezes. Mentiras repetidas à exaustão acabam se tornando verdades, com ela haveria de dar certo.
Mas não passava. Sentia na garganta a náusea. Os dissabores de anos, engolidos a seco, o medo de perder o emprego, de não conseguir pagar as parcelas do financiamento, noites em claro pensando se teria coragem de pedir o divórcio, a indiferença da família, a angústia de não se sentir bonita apesar de todas as dietas e todas as roupas novas, tudo lhe subia do estômago, mistura acre de nervosismo, dor e frustração. O sinal vermelho. Pare. Pare com isso. Ela repetiu: vai passar.  
Mas não passava. Olhou seus olhos no retrovisor. Antes perfeitamente delineados, agora eram duas manchas horrorosas, entre o roxo e o acinzentado. Ela passou a mão pelos olhos, pelo rosto, assim que freara bruscamente para evitar o acidente, espalhando a maquiagem mecanicamente feita naquela manhã. Ela passou a mão pelo rosto novamente, com cuidado, como se as manchas sobre os olhos fossem dois hematomas, duas bofetadas da vida. A carícia leve pela pele do rosto trouxe-lhe um breve meio sorriso. Há tanto tempo ela não se acarinhava, nem em gestos nem em palavras. Demorou-se no gesto, sentindo a ponta dos dedos desenhando os lábios, o nariz adunco, os cílios, as rugas, a linha de expressão entre as sobrancelhas, escavada pelas preocupações.
Novamente o sinal verde, siga, as buzinas gritando: siga. Sempre em frente. Mas as pernas se recusaram. Ela novamente olhou seus próprios olhos no retrovisor. Há muito não se olhava nos olhos. Há muito não se encarava para não precisar reconhecer a dor, para não precisar dizer as verdades. E se olhando nos olhos ela soube – amava-se ainda. Quase tinha se perdido, mas era tempo. As buzinas continuavam, carros resfolegando como animais enraivecidos, motoristas a ultrapassavam gritando palavrões inaudíveis pelos vidros fechados, mas ela só olhos para os seus olhos, ouvidos para o silêncio que a tomava, um silêncio de compreensão.
Como se tivesse emergido de águas profundas, ela de repente ouviu o barulho ao redor. Atrás dela, um motorista manobrava, tentando ultrapassá-la, e, logo o fez, o sinal fechou novamente. O homem gritava e fazia gestos impacientes e obscenos. Como se tivesse acordado de um sono profundo, ela acompanhava com esforço seus braços enfáticos. Achou graça, era como se ele fosse um daqueles bonecos infláveis colocados na pista para sinalizar obras, movendo desengonçadamente os braços. Ela começou a rir. E de repente, seus olhos desceram e se fixaram na placa do carro: FLY 3003.
   Leu novamente, agora em voz alta, a placa do carro. Notou que as letras formavam uma palavra em inglês. E os números, curiosamente, formavam um número que continuava o mesmo ao ser lido em ambas as direções. Como se chamavam esses números? Não se lembrava. Mas sabia o que significava a palavra, significava voar. Ela sabia por causa da única viagem internacional que tinha feito. Três mil e três. Também podia ser trinta zero três. Trinta do três. Sua data de nascimento. Como era mesmo o nome desse tipo de número?
Novamente o verde tomou conta dos semáforos e ela ligou o carro, ainda pensando no nome. Paráfrase? Paranomásia? Tinha certeza de que começava com “pa”. Voar. Não podia ser “voe”? Não podia ser um convite? PALÍNDROMO! A palavra veio inteira em sua mente, em caixa alta. Era isso! Número palíndromo. Mas agora não era mais. Não era mais 3003! Era 30.03. Voe, 30.03! Era um convite, ela teve certeza agora. Um convite para as pessoas nascidas no dia 30 de março voarem. Um convite para que sua alma ganhasse asas.
Ela prosseguia na longa avenida, agora as pernas obedeciam, a respiração se controlava, as mãos firmes, mas não mais tensas no volante. Dirigia como se a longa avenida não tivesse fim, e só muito depois percebeu que perdera a saída que a faria continuar no trajeto para o trabalho. Fez o primeiro retorno que encontrou. Sim, chegaria atrasada no trabalho. Mas estranhamente, essa conclusão não a afligiu. Dirigia devagar, como se nada ou ninguém a esperasse.
Quando entrou na sala que dividia com mais três colegas, notou olhares estranhos. Passou a mão, instintivamente, pelo rosto. Era a maquiagem borrada que criava aqueles pontos de interrogação nos olhos alheios? Ou era a flama que se via em seus próprios olhos? Não quis se explicar. Não queria palavra que rompesse aquele silêncio que a abraçava, compreensivo e benfazejo. Então apenas sentou-se em sua mesa. Diante do computador ainda desligado, um origami. Ela não sabia como aquele passarinho tinha vindo parar ali, mas sabia que, mais uma vez, eram as asas de que sua alma precisava tanto, tanto...   



sexta-feira, 8 de março de 2019

Feminismo não é antônimo de machismo


Precisamos pensar nas palavras. Sempre. Nos seus silêncios e nos seus sentidos. Então a professora que sou sente a necessidade de explicar. Desculpem-me os que me acharem excessivamente didática. Às vezes não consigo evitar. E me perdoem aqueles que já estejam com os cabelos em pé de ter que ouvir isso de novo, mas é por conta daqueles que não estão carecas de saber que precisamos repetir, repetir e continuar repetindo todo ano. Cansa muito, mas prosseguimos.
Vou começar a falar sobre o feminismo dizendo o que ele não é. E com a ajuda da gramática: feminismo não é antônimo de machismo. Feminismo é o nome que se dá à luta das mulheres por igualdade de direitos e oportunidades entre os sexos. É a luta pelo fim da violência e opressão às mulheres, que afetam a todos (pois os homens também sofrem nesse processo, embora menos do que nós).
Feminismo não tem nada a ver com deixar de depilar qualquer parte do corpo. Não tem nada a ver com roupas mais ou menos curtas. Mas tem tudo a ver com a consciência de que o corpo da mulher pertence a ela e é ela quem deve decidir o que fazer com ele.
Feminismo não é ser contra o casamento, a maternidade ou papéis tradicionais que a mulher possa exercer. Mas tem tudo o ver com o entendimento de que a mulher deve ser livre para escolher se quer ser casada ou não, ser mãe ou não. É lutar para que seja garantido que seu lugar seja onde ela quiser, inclusive na cozinha, mas também nos laboratórios de pesquisa, nas salas de aula, nas instituições financeiras, nas câmaras de vereadores e deputados, nos gabinetes das prefeituras e da presidência (e não apenas como faxineira!).
Feminismo não tem nada a ver com ser contra relações heterossexuais ou contra os homens. Vivo brincando com isso, dizendo que sou contra o machismo, não contra o macho (do qual, a propósito, gosto muito!). Mas tem tudo a ver com a percepção de que os homens não são o centro do mundo e de que não é um relacionamento com um homem que define o valor de uma mulher.
Feminismo não é se vestir como homem, ficar musculosa, falar palavrões, cuspir ou fazer xixi na rua; nem ficar nua em público em qualquer protesto.
Tentei pensar no maior número possível de imagens estereotipadas, para pensarmos no quanto elas não dão conta da diversidade não apenas de mulheres, mas de homens, gays, lésbicas, travestis e transexuais que são feministas.
É preciso repetir e repetir isso nesse momento em que, mais do que antes, o feminismo tem sido atacado e depreciado, com a reafirmação de preconceitos que só impedem as pessoas, e especialmente as mulheres, de pensar no quanto são oprimidas e reagir a isso. Muitas delas se dizem, inclusive, contra o feminismo, sem estarem conscientes de que isso é ser contra a luta organizada das mulheres por suas próprias vidas. Ou elas pensam que não precisam do feminismo ou nunca tiveram nada a ver com ele, sem refletir que sem o movimento feminista, as mulheres nunca teriam conquistado o direito ao voto, ao estudo (sim, meninas começaram a frequentar escolas e universidades há bem pouco tempo, na história, e ainda não têm esse direito em muitos lugares), a um trabalho fora de casa com o mínimo de paridade salarial com os homens, e até mesmo o direito à guarda de seus próprios filhos.
Então, a única coisa que eu posso dizer é: leia, reflita, converse com pessoas que atuam pelos direitos das mulheres. Talvez muitas de nós são feministas, mas ainda não sabem.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Autorretrato


Trago um vinco entre os olhos que já faz parte da paisagem que tenho de mim. A dor, os temores, a luta sulcaram minha pele bem ali onde se encontra, segundo filosofias orientais, a consciência, a alma, o terceiro olho.
O tempo escreveu em mim alguns versos curtos, mas bonitos. Olho as marcas do meu rosto e vejo que um sorriso já está inscrito ali, tantas as vezes que apertei os olhos de amor e elevei os lábios na alegria. Olho as linhas na minha testa e posso ler nelas o espanto, a surpresa, a falta das respostas para as eternas perguntas...





O tempo escreveu em mim algumas histórias que ainda não sei contar. Há mais que cicatrizes de tombos, feridas, cataporas e cortes. Há as invisíveis, difíceis de ler, porque a gente coloca bastante maquiagem em cima. Mas sei que estão ali; que, se tocadas ainda que de leve, podem verter fel e sangue. Elas me calam, fazem-me sucumbir sem palavra que possa me salvar.
O tempo escreveu em mim algumas certezas. A de que sou humana e mulher, com todas as dores e delícias que isso me traz. A de que sou mulher e por isso vou ter que lutar sem esquiva ou cansaço pelo respeito que me foi usurpado desde séculos. Talvez daí meu medo da loucura: talvez não seja medo, seja memória. Se fui mulher em outras vidas, fui chamada louca, libertina, perdida. Conheci prisões e manicômios, e a memória da tortura nunca sai da carne. Talvez daí também minha sede de liberdade infinita, esses lábios entreabertos sempre esperando um novo e líquido amanhecer no qual eu possa caminhar.
E caminho.

20.02.2019
por ocasião dos meus 40 anos

domingo, 6 de maio de 2018

Tudo que move é sagrado


Ríamos como se a vida fosse isso, apenas riso e expectativa. No pulso, tatuagens falsas com as mesmas palavras. E usávamos camisetas idênticas, e brindávamos com nossas tacinhas cor-de-rosa. 8 meninas. Tudo diversão pura. O tempo tinha parado só para que a gente se divertisse.
Talvez o leitor pense que se trata de uma lembrança da minha adolescência, mas não: foi uma despedida de solteira de que participei há menos de um mês. Com amigas que conheço há muito tempo, não vou dizer quantos anos para que ninguém questione o “meninas” do parágrafo anterior. Mas de fato éramos apenas meninas circulando pelas ruas de São Paulo em uma limusine, e depois a pé pelos bares da Vila Madalena, bebendo e rindo só porque era maravilhoso estarmos juntas depois de tanto tempo, e também maravilhoso celebrar um amor que se revelou depois de tanto tempo, enfim, o tempo, esse tal devorador, não tinha nos devorado.

E então comecei a pensar (eu que não perco esse vício terrível) na beleza dos rituais. São eles que nos salvam da goela implacável do tempo. Lembro-me de uma passagem tão linda de Rosa, em “Festa de Manuelzão”: o protagonista, já velho, resolve dar uma festa, a primeira de sua vida, porqueu queria marcar um dia no corrido do tempo. É assim que o vencemos: marcando dias que a Memória, essa poderosa deusa, impede que o tempo leve.
O tempo não vai levar embora esses dias em que celebramos o amor de duas pessoas que se conheceram despretensiosamente em seu primeiro emprego. E que seguiram caminhos diferentes, namoraram outras pessoas, um se casou, a outra teve um filho, ambos se formaram e construíram suas carreiras, e estavam assim vivendo suas vidas alheios um ao outro até que se encontraram novamente. Um divórcio. Eles se encontraram como advogada e cliente que já se conheciam. E de forma inesperada se olharam de forma diferente, e se conheceram pela primeira vez novamente. Por que a vida, este rio, é nunca mais sendo a mesma. Então eles não eram mais aqueles de tantos anos atrás, e esses novos eles mesmos se encantaram e se apaixonaram e resolveram se casar.
Coisa mais linda é a gente ver como não só a arte imita a vida, mas esta quem se esforça para imitar aquela. E em cada ritual percebo como olhamos nossa vida como uma narrativa. Construímos as metáforas. Os símbolos. Colocamos verossimilhança na vida – essa coisa feroz e sem coerência. Neste casamento, não podia ser diferente: o pedido foi feito em forma de um pequeno filme exibido em um cinema. Os votos foram escritos e declarados pelos noivos em narrativas repletas de emoção e poesia. Na cerimônia, um dos padrinhos fez a vez de sacerdote, com uma narração hilária e ao mesmo tempo comovente daquele relacionamento, declarando falar “sem poder nenhum, investido por nenhuma instituição”, que ele não era padre, nem pastor, nem nada relacionado a Igreja nenhuma.
Porém, o que todos sabemos é que aquela cerimônia não religiosa estava repleta do sagrado. Porque o encontro com tantos amigos de longa data, com quem compartilhamos tantas descobertas, o começo de nossas carreiras e de nossas identidades profissionais – só podia ser sagrado. Porque aqueles votos de amor ditos em uma noite quente em pleno outono, de céu tão límpido e uma lua cheia glamourosa, só podia ser sagrado. Porque movia nossas almas e corações. E como já disse o poeta, tudo que move é sagrado.

domingo, 1 de abril de 2018

Páscoa


Uma das coisas mais bonitas da minha infância era o domingo de Páscoa. Na minha memória, a manhã era sempre fria e de céu azul. Acordávamos de manhã para a missa e não queríamos sair das cobertas macias. Mas as mãos rudes da minha avó, rudes do trabalho, de socar arroz no pilão, queimar o dedo nos tachos de doce, bater roupas nas pedras durante décadas, nos chamava para os deveres cristãos. Deveres que para mim eram deleites.

Venho de uma família cristã e mineira, para quem a Semana Santa era algo muito importante. Mais que isso, solene, cheia de um lamento misturado ao esplendor. Na procissão da terça-feira, os homens levavam Jesus, que encontrava Nossa Senhora das Dores, levada pelas mulheres – a mãe, dilacerada pela dor, despedia-se do filho. Na quinta-feira, depois do lava-pés, Jesus se dava a comer na última ceia, despedia-se do mundo, mas dizia nunca deixá-lo. Aquilo impressionava meus ouvidos infantis: “Comei minha carne, bebei do meu sangue”, e hoje ainda maravilha meus pensamentos: um Deus-alimento. E depois a missa do sábado, a fogueira a arder na frente da igreja; a bênção do fogo e da água, as promessas da renovação. E finalmente, no domingo, Jesus ressuscitava, vencia a morte, tudo era esperança! O almoço especial do domingo confirmava essa verdade, assim como o único ovo de chocolate, dividido entre os 6 membros da família, mais alguma visita ou vizinho que parara ali para almoçar, porque sentiu da calçada o cheiro bom do feijão da D. Helena, minha mãe.

Eu contemplo essas lembranças como se fossem um quadro, uma fotografia de família daquelas que a gente pendura na parede. Tenho saudade dessa fé que me pegava nos braços e me balançava. Agora, os gestos de esperança me parecem mais raros. Mas de vez em quando a gente percebe uma ponta de asa atrás da porta e se pergunta se seria um anjo.

Hoje fui almoçar na casa da minha sogra, D. Lázara. Há pouco mais de um mês, meu sogro faleceu e esta foi a primeira data festiva sem sua presença. Em sua juventude, Seu Belmiro era rezador na comunidade rural de Ivaiporã, no Paraná: encomendava corpos, rezava em enterros, novenas de Páscoa e Natal, benzia crianças doentes e com quebranto, e ainda tocava sanfona nos bailes. Como diz D. Lázara, um homem popular.

Os filhos, netos, bisnetos e tataraneta de Seu Belmiro estavam lá hoje, para celebrar a Páscoa comendo a tradicional carne assada com maionese, arroz, feijão, macarrão, farofa e tudo o mais que se tem direito (por que na mesa dos Topan não tem miséria, graças a Deus, como dizia meu finado sogro). Minha sogra estava nostálgica, contemplando a comilança geral e falando de seu Belmiro a cada 5 minutos.

Não, não havia ovos de chocolate nem coelhinhos da Páscoa. Mas houve um momento em que alguns dos netos entraram pelo portão com uma grande caixa embrulhada para presente:

- Vó, é uma surpresa para você!

Ela ficou de pé, apoiou a caixa em uma cadeira e rasgou o papel rapidamente, como qualquer criança. E seus olhos brilharam:

- É uma boneca, uma boneca! – ela ria enquanto chorava e tirava da caixa o bebê-boneca, e o aconchegava em seu peito. – Eu sempre adorei bonecas e a única que eu tinha quebrou.

Eu vi os olhos alegres daquela criança de quase 80 anos. As de 8 anos, em volta, olhavam a caixa recém-aberta, perguntando-se se não haveria mais presentes. Olhos de esperança, de expectativa. A mesa e seu almoço especial. Sim, era a Páscoa da minha infância novamente...