segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O vírus do amor dentro da gente

Inspirada ao ler um texto do poeta Jeová Santana sobre Gabriel Garcia Marques, resolvi publicar aqui no blog uma resenha que escrevi há alguns anos sobre uma de suas obras, diga-se de passagem, a minha preferida, "O amor nos tempos do cólera", e sua adaptação cinematográfica. Não esperem os leitores uma crítica acadêmica ou um olhar técnico sobre o filme - eu reconheço a minha insignificância nesta área, eu não sou cinéfila, tratam-se apenas das minhas impressões pessoais sobre o filme. 

O vírus do amor dentro da gente

Durante uma viagem, há alguns anos, me hospedei numa pousada em que havia uma biblioteca. Foi lá que, pela primeira vez, abri um volume de O amor nos tempos do cólera. Ao contrário do que esperam os leitores, não vou dizer que fiquei o restante da viagem com o livro entre as mãos, esquecida da paisagem e das pessoas que me cercavam. Desse primeiro contato com o livro, ficou uma viva impressão do seu primeiro parágrafo, que li sucessivas vezes. Em especial, a primeira frase: “Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados”. Belíssima, sonora. Digna de ser lida e relida.
A primeira frase já prenuncia a grandeza do livro e seu tema, nada inovador e sempre inesgotável: os amores contrariados. Nas cerca de 400 páginas do romance, se desenrola a história de Florentino Ariza, um telegrafista que, ao fazer a entrega de um telegrama na casa de Lorenzo Daza, visualiza por uma janela a filha do comerciante, Fermina Daza. A rápida visão foi suficiente para inocular um amor incurável, que resistirá por décadas e transporá todos os obstáculos com paciência.
A epidemia do cólera se faz presente no enredo e indica o estado sanitário da Colômbia – e de toda a América Latina – na passagem do século XIX para o XX). Mas a principal doença de Florentino Ariza é o amor. Por mais lugar comum que essa frase possa parecer, não podemos dizer o mesmo da história de Florentino Ariza. O personagem do livro é um romântico, na sua concepção e vivência do amor, nas maneiras de vestir e no modo de escrever cartas. E o amor realmente lhe causa náuseas, dores, febres e suores, como uma doença. Trânsito Ariza, a mãe que o concebera num caso de amor adúltero, e que o criara, portanto, sem o pai, já casado, achava glorioso sofrer por amor. E incentiva, a princípio, a overdose sentimental pela qual envereda Florentino, numa longa correspondência amorosa com a jovem estudante Fermina Daza.
Um dos aspectos mais interessantes da obra, portanto, é a construção do sentimento entre Fermina Daza e Florentino Ariza à distância e, sobretudo, através da palavra. A valsa composta por Florentino para a sua “deusa coroada” – tocada à distância, mas num local estratégico para que o vento leve a melodia à sacada de sua amada – é uma imagem poderosa dessa distância. E os códigos da paixão e da entrega amorosa (aparições fortuitas, olhares, flores secas, cachos de cabelo) alimentam uma espera que se compraz não apenas na perspectiva de realização amorosa, mas que se delicia em si mesma.  Florentino coloca a trança colegial de Fermina Daza na parede, como um troféu ou uma insígnia religiosa, longamente contemplada e adorada.
Fermina Daza se apaixona pelas palavras de Florentino Ariza, pelo enredo de um amor proibido (que ganha ares épicos na viagem que faz, forçada pelo pai, à sua terra natal, para que ela cortasse relações com o telegrafista) e não pelo moço, em si. Tanto que, ao vê-lo a sua frente, real, palpável, tem a consciência súbita de que não o ama. Percebe o que verbaliza páginas e páginas depois: trata-se de uma sombra e não de um homem. O maravilhamento de Florentino diante da beleza de sua amada contrasta com a confusão, o constrangimento e até mesmo a repugnância que ela sente naquele momento em que os dois se encontram no mercado, depois da volta de Fermina daquela longa viagem, quase um rito de passagem que sinaliza sua mudança de menina para mulher.
A construção do amor pela palavra, portanto, é um aspecto essencial do livro. Aspecto esse que se perde, em grande parte, na adaptação do romance por Mark Newell. O filme, lançado em dezembro do ano passado, transpõe para a tela os principais acontecimentos do enredo, de forma coerente, mas não consegue transmitir os aspectos mais sensíveis e significativos da obra.
Garcia Márquez relutou muito em vender os direitos autorais de sua obra para o cinema hollywoodiano, e só o fez com a promessa de que o filme seria fiel ao romance. Não podemos dizer que não o seja. Não há, no roteiro de Ronald Harwood, cena ou episódio que não constem no livro. Porém, a velocidade de encaminhamento do enredo, no filme (em frente à longa e significativa espera amorosa que prevalece no romance), o torna uma história bastante diferente. Quem assiste ao filme não consegue, de fato, perceber a sensibilidade do livro. Os diversos símbolos da construção do amor entre os protagonistas, citados acima, e o erotismo afetuoso do livro não são aproveitados na adaptação cinematográfica.



Obviamente, qualquer adaptação cinematográfica de uma obra literária requer recortes, encaixes, e um encadeamento cênico que modificam a “velocidade” da apresentação da narrativa. Mas, no caso desse filme, em específico, isso se torna mais problemático, uma vez que a passagem do tempo é um dos temas da obra. Além disso, um outro aspecto que prejudica a abordagem do tema da passagem do tempo é o fato de que a atriz Giovanna Mezzogiorno interpreta Fermina Daza na juventude, quando adulta e idosa; já para o papel de Florentino Ariza, há dois atores: , que o interpreta na juventude e Javier Barden, que o interpreta na fase adulta e na velhice. Nesse sentido, o envelhecimento dos dois personagens não parece ocorrer de forma simétrica, causando um certo estranhamento. A interpretação dos protagonistas merece elogios, em especial a de Javier Barden, que aparece, em muitas cenas, um tanto curvado, com olhares desculposos – quase um gauche na vida, como diria Drummond.
O filme possui uma boa caracterização de época e ótima fotografia de Affonso Beato. Mas incomoda aos nossos ouvidos latino-americanos ouvir o filme num inglês com sotaque latino, quando esperávamos assistir um filme em espanhol (principalmente considerando a origem latino-americana do romance, da trilha sonora, composta pela conterrânea de Márquez, Shakira, e de boa parte do elenco).
Enfim, o filme decepciona quem espera ver Garcia Márquez nas telas. O livro, sem dúvida, é uma obra prima da literatura latino-americana, mas o filme não se enquadra na classificação de obra prima do cinema.  

Ficha Técnica
O Amor nos Tempos do Cólera
Love in the Times of Cholera EUA, 2007 - 138 min
Romance
Direção: Mike Newell
Roteiro: Ronald Harwood, baseado no livro de Gabriel García Márquez
Elenco: Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, John Leguizamo, Benjamin Bratt, Catalina Sandino Moreno, Liev Schreiber, Fernanda Montenegro 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Para além do riso

Na semana passada, tive a felicidade de lançar mais um livro. É muito emocionante ver que aquela história, aqueles personagens, aquelas palavras que moravam apenas dentro da minha mente ganharem forma e passearem por aí. Na última terça, falei sobre esse processo de dar forma aos personagens, sobre a "gestação" deles e suas peripécias. Se quiser conferir, é só entrar no link:

https://www.youtube.com/watch?v=XdIEFmBS7Kk

Durante este bate-papo, foi impossível não falar de umas das questões que permeiam a obra: a violência doméstica. Porém, há outro tema relevante na vida de Jéssica não mencionado no hangout (que encerrei falando do quanto eu ainda tinha por dizer sobre o livro): o racismo. Sim, Jéssica é negra. Não, isto não está escrito na primeira página, porque este fato não determina o caráter, a personalidade de Jéssica, embora seja importante na sua identidade e, principalmente, na visão que a sociedade tem dela. Uma sociedade que, obviamente, recusa-se a enxergar-se como racista, e que, por isso mesmo, está longe de superar seus preconceitos. Como eu disse anteriormente, o que não é nomeado não existe.
Mas não estou falando sobre mais um detalhe deste livro, simplesmente. Trata-se, mais uma vez, de uma forma de lidar com aquilo que me consome: quando a realidade me cutuca, escrevo. E eis que, coincidentemente, na mesma semana em que publico um livro que aborda as tantas veladas violências, presencio uma cena que me deixou profundamente chateada, e, mais, preocupada.
Entrando em uma sala de aula, um grupo de alunos ria, gargalhava, e parei para ouvir as piadas que contavam. Nesse momento preciso da história nacional, em que um caso de racismo foi levado à justiça; em que se discute em cadeia nacional o assunto, meus alunos contavam piadas racistas. A que eu ouvi era resumidamente assim: "Um homem estava se afogando, e o salva-vidas era, assim, moreno. Aí ele pulou na água, mas quando chegou perto do homem, ele empurrou o salva-vidas e disse: - Sai, cocô." Risos, gargalhadas. E eu, pasma. Mais que pasma, ofendida. Sim, ofendida, pois embora qualquer um que olhe minha foto diga que sou branca; embora eu jamais tenha sido discriminada diretamente pela cor da minha pele, eu sou um ser humano ainda capaz de se colocar no lugar do outro, ou lutando para não perder essa habilidade, tão em falta atualmente.
Tudo o que eu consegui me perguntar foi: será que estes jovens não assistem televisão? Não estão acompanhando o que está sendo discutido na mídia? E minha pergunta mais angustiosa: será que eles realmente acham que a cor da pele de uma pessoa ser mais escura faz com que ela possa ser comparada a um cocô? Será que eles não percebem que eles chamaram os negros (detalhe: nem se referiram a eles assim; precisaram do que consideram um eufemismo) de "merda"? Será...?
Ah, essa professorinha boba que se aflige por causa de uma piada, podem pensar os pragmáticos. Eu me aflijo. Esse episódio é mais uma bofetada a nos dizer o quão distante estamos de uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. E tenho certeza de que estes alunos não reconheceriam serem racistas. Não, imagina, eu tenho amigos negros. Há pessoas negras na minha família. Isso foi só uma piada, coisa boba... Afinal, o que tem de mais chamar alguém de macaco? Esse é o discurso cordial da maioria dos brasileiros. A minha resposta é muito simples: é "só uma piada" ou "uma coisa normal no estádio" enquanto não dói na nossa pele. É simples assim. Pense em uma criança que ouve desde pequena piadas como essa. Ela vai internalizar, mesmo que inconscientemente, que é uma merda. Ou que só faz merda. Ou que é um animal, um inferior (não foi essa a justificativa para que se usou para se escravizar o negro?). Se o leitor acha que exagero, converse com pessoas vítimas de preconceito racial (é muito fácil, todos os negros o foram, sem exceção). Converse sobre a percepção deles destas falas, destas piadas, dos olhares que eles recebem ao entrar em uma loja cara... se conseguir, pois o assunto não é fácil. É um tabu. Nesse sentido, recomendo também o vídeo abaixo, uma ótima entrevista com o rap Emicida:

https://www.youtube.com/watch?v=n7DcbOpKUw8

Espero que os leitores de "Janelas Abertas" também reflitam sobre isso a partir de algumas situações descritas no livro. Mas, mais que tudo, que essa sociedade que se julga sem preconceitos e sem tabus possa olhar com mais clareza para si própria. E que não se engane: o preconceito é perigoso. A discriminação é uma forma de desumanização, e ao olhar o outro como menos humano, autoriza-se a exploração, a violência, o extermínio. É isso que a história da humanidade nos conta. Afinal, o que tinha de mais em falar mal dos judeus? E retratá-los de forma ridícula e pejorativa nos livros destinados às crianças, na Alemanha de 1930? Todos sabemos o desfecho hediondo desta narrativa. É só trocarmos a palavra "judeu" pela palavra "mulheres" ou "negros" ou "gays" e teremos outras narrativas de violência, pois o a intolerância, o ódio e a violência andam juntos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Abrindo Janelas

Aprendi a ler não apenas com os olhos, mas com as mãos que tocavam lentamente a capa, com dedos que apertavam levemente cada página para sentir a textura e a gramatura do papel. Tenho uma relação sensorial com os livros, tanto que, quando li pela primeira vez “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector, fiquei encantada com a forma como ela descreveu a personagem com seu livro: “era uma mulher e seu amante”.
Mas até essa amante dos livros que vos fala rendeu-se às novas tecnologias. Meu novo livro, Janelas Abertas, publicado pela Editora Adonis, está sendo lançado em e-book. Passada a natural resistência ao desconhecido que habita todo ser humano, também fiquei maravilhada com as possibilidades ilimitadas: o e-book é uma janela que se abre em qualquer lugar. Não têm os limites físicos da distribuição que o livro impresso têm. Aí a escritora em seu voo imaginário pensa em seu livro chegando talvez a um leitor no Japão. Menos, Lia, diria o leitor realista... Tudo bem, foi só um voo, mas quem sabe o tempo não escancare as janelas.
E já que estamos testando novas formas de ler e se comunicar com esta juventude cada vez mais conectada, amanhã estou fazendo meu primeiro lançamento literário virtual. Por hangout, vou falar sobre Janelas Abertas, sobre como este rebento gestou-se antes de rebentar em texto; sobre as hesitações, angústias e alegrias que me trouxe... Ah, os filhos dão trabalho, sempre, mas a gente os cria para o mundo.



É engraçado falar deles, de meus livros e personagens, desta forma tão familiar – um dia destes alguém me olhou com estranheza quando falei de Jéssica, a protagonista de Janelas Abertas, como uma pessoa. Mas o fato é que a gente convive com nossos livros (e personagens) antes de escrevê-los, como bem sugeriu nosso querido Drummond em “Procura da Poesia”. E posso dizer que a convivência com Jéssica foi intensa e por vezes dolorosa. Ela é jovem, mas, em seus 17 anos, acumulou histórias de abandono, violência e privação que, infelizmente, não são tão incomuns entre as meninas brasileiras. Jéssica é um amálgama de tantas meninas e mulheres que conheci, cujas vozes foram se misturando na sua, que escreve, canta, mas que ainda não consegue gritar contra tudo o que a oprime.  
Mas não pensem que esta personagem não me trouxe alegrias. Não existe alegria mais legítima do que abrir janelas em paredes que pareciam esmagar-nos. Jéssica saiu do quarto apertado e escuro da sua infância. Ela caminhou pelas ruas de Campinas. Ela descobriu um caderno verde, poemas de Cecília Meireles, amizades fieis. Ela ainda não sabe tanta coisa sobre si mesma e sobre seu passado, o mundo ainda parece muito hostil para uma garota como ela. Mas não é que a menina nos surpreende, no final?

Espero que o diálogo com Jéssica (que nem sempre é tranquilo) também abra aos leitores as janelas da indignação, da perplexidade e também da esperança e da alegria. Porque Jéssica, assim como eu, tem essa alegria teimosa: de ser alegre de propósito, só de pirraça, nesse mundão de tanta tristeza.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ventos de agosto

Setembro começa cinzento e com chuva. Como a dizer que agosto terminou, mas a primavera ainda está longe. Teremos de padecer um pouco mais até as flores chegarem - não só aos jardins, mas às nossas relações. Agosto me fez pensar muito em como deixamos os espinhos se sobreporem às pétalas nas nossas conversas diárias. Em como conviver tem sido o maior desafio da humanidade, com pessoas que se ouvem cada vez menos e que gritam cada vez mais. Neste último mês, vivi situações em que constatei, mais uma vez, a dificuldade e até incapacidade de se ficar em silêncio. Silenciar é difícil... E ouvir o outro e a si mesmo requer silêncio.
Mas ontem, último dia de agosto, a chuva chegou na noite e as gotas graúdas amansaram meu coração. O vento era forte e pedi a ele que levasse embora o stress, a raiva, as decepções de agosto, esse mês que parecia não ter fim. E eis que joguei ao vento estes versos:

Ventos de agosto
Levem as lástimas
Deixem cair as sementes
Para que setembro floresça
E minh'alma sonolenta
Possa tomar um sol de manhã
Um ar de primavera frágil
Um gole de esperança instável. 


Que setembro nos traga mais chuvas, que elas lavem e levem tudo o que pesa, que aflige, que não deve ser guardado...

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tenho sonhado com estradas

Tenho sonhado com estradas
só o vento limpa as remelas da inércia
sol de madrugada resiste em não nascer
parto longo tingindo o céu ainda não anil
pés descalços no traço 
ébrio de paralelepípedos
meus olhos cegos às placas
coração ritmando a caminhada
pulmões cheios de desejo
de nunca mais voltar
e nunca mais chegar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sociedade dos poetas vivos


Neste último sábado, a sala Carlos Gomes da Livraria Saraiva, em Campinas, foi sacudida por calorosa discussão, na 3ª edição do Projeto 1001 Leituras. O poeta, ficcionista e dramaturgo premiado, Marco Catalão (autor de livros como Cânone Acidental, A face neutra e Agro Negócio) chegava com uma afirmação polêmica: a de que não existe, na literatura ou em qualquer outra arte, o talento inato. Afirmação às vezes incômoda para uma sociedade que, influenciada pelos ideais cristãos (sobretudos protestantes), e mais recentemente, pela ideologia estadunidense (propagada à exaustão pelo cinema hollywoodiano), espera pelos eleitos: aqueles que teriam sido agraciados com o dom. Ou, em uma linguagem menos mítica, os que nasceram mais inteligentes ou com mais aptidão que a maioria para determinadas atividades ou áreas do conhecimento ou da arte.
Catalão afirma categoricamente que não existem eleitos, e sim, pessoas que foram expostas a determinadas condições que favoreceram seu aprendizado, sua pesquisa, sua assimilação tão profunda de um conhecimento ou linguagem a ponto de se tornar um especialista, um campeão, um vencedor de prêmio Nobel. Obviamente, a afirmação gera questionamentos: se qualquer um pode ser um escritor, artista ou cientista por ter sido exposto a tais condições, por que então alguns se destacam? O poeta, também doutor em Letras pela Unicamp, atribui isto às diferenças individuais: não somos todos iguais e não reagiríamos da mesma forma aos mesmos estímulos. Não se trata de determinismo, não somos meros joguetes do meio. Mas sem ele, jamais desenvolveríamos qualquer talento, ele afirma com convicção.
Concordar ou não com estas afirmações não vem ao caso: o que nos interessa é onde Marco pretende chegar em sua tentativa de desconstruir um valor tão arraigado em nossa sociedade. Voltando seu discurso exclusivamente para a criação literária, ele aponta uma das consequências da crença no talento inato: o não investimento na formação do escritor. Afinal, se alguém nasce com o talento, não é preciso passar horas lendo e discutindo textos literários, nem dias e dias escrevendo e reescrevendo textos, nem conhecendo seus pares e o que eles escrevem e publicam. Para Catalão, seria esse o empecilho para que chegássemos a um nível internacional de excelência e reconhecimento na literatura, conforme aconteceu há pouco com a matemática, com a nomeação de Arthur Ávila para a Medalha Fields.
Os que não foram perderam uma acirrada discussão sobre a necessidade ou não de estudos (sejam de natureza teórica ou prática) de forma institucionalizada para a formação de um escritor, haja vista que tantos bons escritores brasileiros constituíram suas obras sem um estudo institucionalizado e muitas vezes conciliando a atividade criativa com outras atividades profissionais. O que importa, de fato, não são as conclusões às quais chegamos, mas a pergunta lançada, o incômodo da indagação.
Toda mudança começa com um incômodo - e é sobre ele que quero falar, na esperança de que algo mude. A fala de Catalão me provoca dúvidas, mas também algumas luzes. Como escritora e, sobretudo, como professora de literatura, estou sempre refletindo em como as pessoas concebem e consomem a literatura, e um fato nas últimas semanas me fez voltar a imagens e ideias já visitadas: a morte, há cerca de uma semana, do ator Robin Williams. Um dos papéis mais famosos deste ator é o de um professor de literatura, no filme Sociedade dos poetas mortos. Assisti a este filme, muito famoso nos final dos anos 80 e começo dos 90, aos 12 anos. Estava começando a escrever meus primeiros versos. O filme me encantou, como a muitos da minha geração, que colocaram algumas suas cenas no Facebook em homenagem póstuma ao ator.
Neste filme, o professor entusiasta procura levar seus alunos a perceberem que a literatura não é algo a ser estudado com gráficos, mas algo a ser sentido intensamente, quase visceralmente. Se durante a adolescência esse filme representou minhas próprias ideias sobre a literatura, eu que delirava com a então recente descoberta pessoal de Castro Alves, Manuel Bandeira e Emily Dickinson, depois de me tornar professora e escritora, comecei a vê-lo com outros olhos. A pensá-lo em suas entrelinhas, nas quais vejo algumas ideias questionáveis sobre a literatura e seu ensino. A pensar que precisa existir um meio termo entre o gráfico e as vísceras.
Sim, literatura é arte, e enquanto arte, constrói-se por caminhos marcados pela subjetividade. Em outro post deste blog, eu afirmo que escrevemos para iludir o tempo, para driblar a morte. Já escrevi por diversão, já escrevi por amor, já escrevi por exasperação, por raiva e por vingança. Quem me leu, lê e lerá, sentirá tudo isto? Não sei - o espaço interativo da leitura também é marcado por subjetividades. Mas uma coisa eu posso afirmar com certeza: não foram meus sentimentos que foram escritos sobre o papel. Como disse o poeta Drummond, em "Procura da Poesia":

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


O que escrevi foram palavras. E foi o longo aprendizado das palavras, a longa convivência com a palavra escrita e literária que fez com que eu me tornasse escritora. Talvez se, desde minha infância, eu tivesse feito aulas de balé, eu seria bailarina, eu materializaria algo destes sentimentos no movimento e não na palavra.
Mas, neste filme, este professor de literatura apresenta-a como mera emoção condensada. É memorável, para mim, uma cena em que o professor incita um dos alunos, que não tinha feito a tarefa de escrever um poema, a compô-lo instantaneamente, de olhos fechados. Segue-se uma espécie de transe em que o garoto declama uma torrente de palavras poéticas. O poema surge, brota magicamente, lindo, perfeito, surreal. Porque já estava ali, no ser que o profere, aparentemente, desde sempre.
Isso seria possível? Talvez. Já tive a felicidade de escrever um poema em um momento que poderia ser chamado de "inspiração". Um momento em que as palavras vieram e as escrevi como vieram e daí surgiu aquele que considero um dos meus melhores poemas, "Mnemoteca". Mas ele não surgiu magicamente na minha mente quando eu tinha 12 anos, mas praticamente aos 30, quando eu já havia acumulado quase duas décadas de leituras e de escrita de textos literários. O que parece um "transe" pode ser visto como um transbordamento de uma linguagem internalizada, com a qual convivi de tal forma que ela passou a fazer parte da minha identidade.
Lembrei-me num flash da cena fílmica que descrevi acima, quando Catalão, em sua palestra, falou das consequências da ideia do talento inato no ensino de literatura, no qual privilegiamos os autores canônicos e os reverenciamos como se eles tivessem produzido toda sua obra em um transe, e não em um processo repleto de questionamentos, hesitações, tentativas e erros. Assim, não damos espaço aos escritores contemporâneos, que estão em processo. E assim reforçamos a imagem da literatura como algo distante, restrito a poucos iluminados, portanto inacessível a nossos alunos. E, por conseguinte, desinteressante à maioria.
Voltei para casa com a sensação de que urge formarmos a sociedade dos poetas vivos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Todo mundo tem a sua cachaça



Sabe aqueles quadros compartilhados à exaustão no Facebook, que colocam “Como meus amigos me veem”, “Como minha família me vê”, “Como eu me vejo” para várias profissões ou situações? Fiquei pensando em como seria um quadro destes que retratasse o escritor.
Há reações diversas quando declaramos para alguém sermos escritores, mas frequentemente ocorre uma certa perplexidade – para não dizer mesmo que alguns se sentem diante de um E.T.. Às vezes, percebe-se alguma deferência: as pessoas nos parabenizam, e não raro falam que gostam de ler, ou sobre a importância da leitura, mas se esquivam delicadamente quando  mostramos um exemplar do livro, com medo de que sejam obrigados a comprá-lo.
Outra reação comum é um olhar de piedade, de complacência, como se dissesse “Puxa, coitado de você que sonha em viver de literatura”. Foi esse o olhar de um professor de ensino médio, quando eu lhe disse, um dia, que eu escrevia poemas e queria ser escritora. Não contente com o olhar e para não deixar dúvidas, ele completou: “Você tem vocação para faquir?”.
Frequentemente, também escuto, ao dizer que sou escritora: “Que legal! Eu faço oficina de origami e dança de salão.” E então você delicadamente explica que não se trata de um hobby, de um passatempo. Nos últimos meses, fui chamada a dar palestras para jovens e professores e uma pergunta que apareceu bastante foi: “Além de escrever, você trabalha?” E as pessoas perguntam isso a sério, porque no imaginário geral da nação, escrever não é um trabalho, nem ser escritor é profissão.
E na contramão deste pensamento, estão aquelas pessoas que acham que você está ganhando muito dinheiro. Aquelas que acham o livro uma fortuna, mas não pensam que, para que ele chegue à estante da livraria, além do escritor, várias pessoas trabalharam: o editor, o ilustrador, o diagramador, o revisor, funcionários da gráfica, o divulgador, o distribuidor, o vendedor... Aquelas que reclamam que seu livro está muito caro, mas que gastam o dobro sem reclamar para comprar qualquer outra coisa. Isso quando elas não pedem um livro de graça, sem pensar que o autor, muitas vezes, está pagando para trabalhar, pois, além de escrever seu livro, custeou sua edição do próprio bolso. Ou, se não o fez, não está ganhando mais do que alguns centavos por exemplar vendido.
E para terminar com a “pureza das respostas das crianças”, uma vez eu estava fazendo contação de histórias em uma escola, e um menino me perguntou se eu estava ganhando bastante dinheiro com o meu livro. Eu disse: “Não, apenas escritores que são celebridades e vendem muitos livros conseguem realmente se sustentar com isso”. Ele me olhou estupefato e disse: “Uai, então por que você escreve livro?”.
Essa é uma pergunta que eu já me fiz muitas vezes. Diante da pouca valorização do escritor pela sociedade (e não me venham com aquele blábláblá de que você valoriza o escritor se você vai ao lançamento do livro, mas não compra porque vai tentar fazer o download de graça depois); diante da dificuldade de publicar em um mercado editorial que frequentemente vai pensar primeiro na vendagem do livro e depois na sua qualidade artística; diante da aventura de ter que conciliar a criação e a escrita com tantos outros afazeres que pagam as minhas contas, eu já me questionei em por que continuar escrevendo.

Mas não parei. E só Drummond conseguiu me dar uma resposta. É que meu verso (ou minha crônica, meu conto, meu romance) é minha cachaça. E todo mundo tem a sua cachaça.