Não, caro e raro leitor: não resolvi abandonar as letras pela mais promissora carreira na música pop. Este título não é o nome de uma banda moderninha, e sim uma referência ao meu recente encontro com os alunos da EMEF Maria Pavanatti Fávaro.
A convite da professora e escritora Cida Sepúlveda, fui à Pavanatti (como a escola é carinhosamente referida por seus alunos, funcionários e professores) para um bate-papo (não ouso dar o título de palestra!) com os alunos, que haviam previamente lido meu primeiro livro, Embaixo da Cama. Foi Cida que criou o termo "Pavanáticos", que também dá nome ao jornal da escola, mantido por ela e pelos alunos.
A Pavanatti é uma escola simples, como tantas outras escolas públicas da periferia de Campinas, mas tem um diferencial: uma diretora, Sandra, e uma professora, Cida, que amam a literatura e estão tentando despertar entre os alunos um interesse maior pelos livros. Assim como eu, outros escritores e artistas já foram convidados para ir à escola e partilhar com os alunos suas experiências com a arte. É assim que eu defino a tarde que passei com os pavanáticos: um momento de troca de experiências.
Sempre que vou a uma escola de ensino fundamental falar sobre literatura e sobre os livros que escrevi (o que sempre envolve falar sobre a vida que pulsa nas palavras), eu me pergunto sobre como dizer, ou seja, que palavras usar, que narrativa construir para fazer essa nova geração compreender o que o livro significou na minha vida. Afinal, passei a infância em uma casa sem livros - objetos de desejo, quase um luxo para uma família iletrada, cujos ancestrais não tinham calos nos dedos por escrever, mas calos nas mãos por pegar cedo nas enxadas, nas vassouras, nas agulhas de costura. Sempre me pergunto se vou me fazer compreender, mas percebo que o tempo e as diferenças que me afastam destes alunos é sempre menor que o poder da experiência humana. Sim, continuamos com conflitos tão semelhantes: a eterna solidão dentro de nossas próprias famílias; o medo de se mostrar apaixonado e vulnerável diante do outro; a dúvida em relação ao que faremos de nossas vidas, quando somos muito jovens... Eu vi esses sentimentos no olhar de vários alunos enquanto eu relatava como surgiu em mim a vontade de criar e escrever histórias.
Entre perguntas sobre como surgem os nomes dos personagens, quanto tempo demora-se para escrever um livro e qual seu processo de "fabricação", percebi o quanto os pavanáticos, como tantos outros adolescentes, têm sede de conhecimento. Fico chateada quando escuto pessoas dizendo que os jovens de hoje não querem saber de nada. Claro que há, atualmente, adolescentes desinteressados, como sempre houve, em todas as épocas e gerações. Mas não são a maioria absoluta, e percebemos isso quando lançamos a eles algumas sementes e vemos o quanto floresce. Estes jovens precisam de estímulo, merecem ser tratados como pessoas inteligentes que podem ainda desenvolver muito, caso não os deixemos de lado com a desculpa de que eles "não querem saber de nada".
Como eu disse a eles, perto da minha despedida: escrever nos faz pensar no nosso lugar no mundo. E quem não pensa em seu lugar no mundo, está aqui de bobeira. Eles entenderam o recado, li isso no olhar deles. E li algo que ainda está por ser escrito: o lugar de cada um, como ser humano e como cidadão.
Fiquei feliz por participar, mesmo que por poucos momentos, desse projeto da narrativa da vida de cada um. Obrigada, pavanáticos!
Uma escritora em busca das palavras - que transitam do corpo para o papel, ou para a tela...
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Mais difícil ainda é não escrever
Dias que não passam, eles parecem quicar e já desaparecer. Queria que as horas realmente passassem, que eu pudesse sentir seu passo indiferente, mas elas não me dão esse direito, tão depressa atropelam meus dias. É sempre assim no final do ano: parece que as horas estão treinando para a corrida de São Silvestre!
E nesse atropelo de horas e dias, a literatura foge de mim. Porque poesia requer lentidão, a poesia me obriga a parar o passo para olhar a copa das árvores, a interromper o fluxo para deixar que os versos imponham seu ritmo. E como fazer isso nesse turbilhão de coisas? De provas, de notas, de documentos a preencher e assinar? Aí vejo de longe as palavras que me observam ressentidas de eu trocá-las pelos números. Creiam, minhas amadas, é pela necessidade e não pela paixão...
Não tenho escrito com frequência e isso me faz mal - é como uma insônia às avessas, pois me sinto adormecida para aquilo que o mundo tem de mais fascinante: tenho que fechar os olhos e os ouvidos, pois não posso correr o risco de ser capturada pelo lirismo; tenho que soprar qualquer flama que ameace se acender em mim. Para mim, que adoro me distrair, é penoso...
Dia destes li uma crônica de Vinícius de Moraes, a trabalho e não a passeio, mas não adiantou - as palavras de Vinícius me reviram sempre, ainda que não sejam as dos seus poemas que me eriçam a pele. A crônica falava da dificuldade de se escrever uma crônica. Da crise de criatividade que por vezes assola o escritor obrigado a publicar semanalmente. E eu, na minha proverbial imodéstia, comecei a discutir com Vinícius. Que crônica era tudo que fluía dos dedos do escritor, assim, de forma fácil. Que eram como o pão de cada dia, e isso não é desmerecê-la, não! A crônica é aquele almoço que a gente prepara com o que encontra na geladeira, com os legumes da estação, e nem por isso o sabor é menor.
A crônica está nos sabores do cotidiano. E o que ocorre despretensiosamente e que chamamos de cotidiano é muito bom, assim como a crônica, que não tem mania de grandeza. E nisto está sua beleza. Sabe-se passageira, então esforça-se para, nesse instante, deixar algumas gotas de lirismo matutino, como uma aurora a espalhar seu orvalho sobre o aparentemente áspero e monótono do dia a dia.
Se é difícil escrever uma crônica? Às vezes. Mais difícil ainda é não escrever.
E nesse atropelo de horas e dias, a literatura foge de mim. Porque poesia requer lentidão, a poesia me obriga a parar o passo para olhar a copa das árvores, a interromper o fluxo para deixar que os versos imponham seu ritmo. E como fazer isso nesse turbilhão de coisas? De provas, de notas, de documentos a preencher e assinar? Aí vejo de longe as palavras que me observam ressentidas de eu trocá-las pelos números. Creiam, minhas amadas, é pela necessidade e não pela paixão...
Não tenho escrito com frequência e isso me faz mal - é como uma insônia às avessas, pois me sinto adormecida para aquilo que o mundo tem de mais fascinante: tenho que fechar os olhos e os ouvidos, pois não posso correr o risco de ser capturada pelo lirismo; tenho que soprar qualquer flama que ameace se acender em mim. Para mim, que adoro me distrair, é penoso...
Dia destes li uma crônica de Vinícius de Moraes, a trabalho e não a passeio, mas não adiantou - as palavras de Vinícius me reviram sempre, ainda que não sejam as dos seus poemas que me eriçam a pele. A crônica falava da dificuldade de se escrever uma crônica. Da crise de criatividade que por vezes assola o escritor obrigado a publicar semanalmente. E eu, na minha proverbial imodéstia, comecei a discutir com Vinícius. Que crônica era tudo que fluía dos dedos do escritor, assim, de forma fácil. Que eram como o pão de cada dia, e isso não é desmerecê-la, não! A crônica é aquele almoço que a gente prepara com o que encontra na geladeira, com os legumes da estação, e nem por isso o sabor é menor.
A crônica está nos sabores do cotidiano. E o que ocorre despretensiosamente e que chamamos de cotidiano é muito bom, assim como a crônica, que não tem mania de grandeza. E nisto está sua beleza. Sabe-se passageira, então esforça-se para, nesse instante, deixar algumas gotas de lirismo matutino, como uma aurora a espalhar seu orvalho sobre o aparentemente áspero e monótono do dia a dia.
Se é difícil escrever uma crônica? Às vezes. Mais difícil ainda é não escrever.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Somos tão jovens
Ontem, domingo à noite - dia e horário propício para a famosa depressão pré-segunda-feira. Eu estava no meu sofá rodando canais e, em meio à mediocridade televisiva, encontrei consolo no Canal Brasil, que passava um documentário que há tempos eu queria assistir: "Rock Brasília", de Vladimir Carvalho. Há tempos, curiosamente, é o título de uma das canções de que mais gosto da banda Legião Urbana, talvez a mais importante desta geração do rock dos anos 80, nascida na capital do Brasil, em um momento em que, embora já se esfacelando, a ditadura militar liderava o Brasil.
Este texto não será uma resenha sobre este documentário, que me emocionou muito em alguns momentos por me trazer canções que embalaram meus anos de adolescência e me ensinaram a ler. E é sobre isso que quero escrever. Sobre como aprendi a ler ouvindo. Sim, aprendi a ler ouvindo Legião Urbana. Renato Russo foi o primeiro poeta que li: naquele momento, com 13/14 anos, eu nem percebia o quanto de elaboração linguística suas letras continham, afinal, eu não estava ouvindo Legião para identificar metáforas. Mas eu sabia que aquelas letras me faziam pensar na vida. Ouvir Renato Russo cantando era ter certeza de que alguém entendia o que eu estava vivendo, ao mesmo tempo que seus versos me traziam um estranhamento, uma surpresa, uma pergunta: como alguém conseguiu dizer meus sentimentos desta forma? Como alguém consegue descrever um mundo com essas palavras, com essas rimas e com esse ritmo? E eu saía cantando "Quase sem querer", "Tempo perdido" e "Há tempos" dizendo que eram canções feitas para mim, o Renato (olha a intimidade!) ainda não sabia, mas aquelas canções eram minhas.
E hoje sabendo que as canções e os poemas pertencem àqueles que se apropriam deles, àqueles que passeiam com os pés descalços entre as suas palavras como quem anda lentamente pela praia (os pés se marcando no espaço onde areia e mar se encontram), eu digo ainda mais que estas canções são minhas. E penso em sua complexidade e compreendo porque elas me traziam mais perguntas do que respostas, naquele momento da vida em que a gente perdia as crenças nas respostas que a família, a religião, a escola, os adultos nos davam tão prontamente. Eu queria novas respostas. Mas uma canção que diz "Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana/ Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana/ E nas escolas as crianças aprendem a repetir música urbana" reafirma: desconfie das instituições, questione o que lhe foi ensinado, não creia nas respostas simplistas...
E vendo aquele documentário, eu me deparei com um pensamento: onde foi parar este inconformismo juvenil? Onde foi parar esta desconfiança sadia que fez com que gerações de jovens tivessem o ímpeto de rejeitar qualquer governo opressivo e ditador? Onde? E a resposta assustadora: morreu. Então, ontem, Dia de Finados, lamentei a morte de uma geração, sem forças para escrever uma elegia que a homenageasse com a poesia que ela merece.
Sei que minhas palavras podem soar exageradas, mas esse é o meu sentimento, uma espécie de luto ao perceber uma onda neoconservadora que se levanta em nossa juventude e que ameaça afogar princípios democráticos que, em um passado recente, eram negados, e pelos quais pessoas lutaram e morreram. Ao ver pessoas, e principalmente, jovens pedindo um golpe militar - sim, um golpe, este é o nome exato quando há intervenção em um governo eleito democraticamente -, a minha perplexidade é enorme, mas não consigo simplesmente dizer que eles fazem isso porque não têm memória ou conhecimento histórico.
Como diria a canção de Renato Russo, "somos tão jovens", mas essa juventude, pela justificativa da pouca memória ou pouca maturidade, não justifica algumas posturas que me parecem indefensáveis. Não acho que estes jovens sejam inocentes, que eles não sabem o que significa uma ditadura, que eles não sabem sobre a censura, a corrupção, a tortura e a morte que pairaram sobre o Brasil no período militar. Em 1964, houve setores da sociedade civil que saíram às ruas em apoio aos militares - a elas sim, pode-se dar o benefício da dúvida: elas não sabiam, talvez, o que estava por vir. Elas não sabiam que seus filhos poderiam morrer por dizerem o que pensavam.
Mas hoje, 2014, 50 anos depois, sabemos. Todos sabemos. Vi em um vídeo na internet um jovem dizendo que "aconteceram coisas na ditadura militar, mas não é tudo isso que falam, as pessoas exageram". Percebam o inominado: "coisas"... Deem-se nome aos bois: ocorreram censuras, torturas, mortes - mas se parte desta nova (e da não tão nova) geração quer negar isso, não é por ingenuidade, é porque, no fundo, está de acordo com este sistema. Tenho a impressão que, há alguns anos, as pessoas tinham um certo pudor em declarar isso, o que me dava alguma esperança... Mas tenho percebido que as ideias perigosas de resolver os problemas da nação pela força e pela violência estão sendo veiculadas em alto e bom som, por um número assustador de pessoas.
Somos tão jovens, no exercício da democracia. E eu temo que nossas conquistas, ainda frágeis, se percam pela inadvertência dos que não as valorizam. Tomemos mais cuidado com aquilo que pedimos - há sempre a possibilidade de se conseguir. E se um dia alguém invadir nossas casas às 3 horas da manhã sem mandato judicial e um ente da nossa família ou nossos amigos começarem a desaparecer sem prisão ou julgamento notórios (coisa comum nos regimes de exceção), não sejamos hipócritas a ponto de dizer que não sabíamos.
Este texto não será uma resenha sobre este documentário, que me emocionou muito em alguns momentos por me trazer canções que embalaram meus anos de adolescência e me ensinaram a ler. E é sobre isso que quero escrever. Sobre como aprendi a ler ouvindo. Sim, aprendi a ler ouvindo Legião Urbana. Renato Russo foi o primeiro poeta que li: naquele momento, com 13/14 anos, eu nem percebia o quanto de elaboração linguística suas letras continham, afinal, eu não estava ouvindo Legião para identificar metáforas. Mas eu sabia que aquelas letras me faziam pensar na vida. Ouvir Renato Russo cantando era ter certeza de que alguém entendia o que eu estava vivendo, ao mesmo tempo que seus versos me traziam um estranhamento, uma surpresa, uma pergunta: como alguém conseguiu dizer meus sentimentos desta forma? Como alguém consegue descrever um mundo com essas palavras, com essas rimas e com esse ritmo? E eu saía cantando "Quase sem querer", "Tempo perdido" e "Há tempos" dizendo que eram canções feitas para mim, o Renato (olha a intimidade!) ainda não sabia, mas aquelas canções eram minhas.
E hoje sabendo que as canções e os poemas pertencem àqueles que se apropriam deles, àqueles que passeiam com os pés descalços entre as suas palavras como quem anda lentamente pela praia (os pés se marcando no espaço onde areia e mar se encontram), eu digo ainda mais que estas canções são minhas. E penso em sua complexidade e compreendo porque elas me traziam mais perguntas do que respostas, naquele momento da vida em que a gente perdia as crenças nas respostas que a família, a religião, a escola, os adultos nos davam tão prontamente. Eu queria novas respostas. Mas uma canção que diz "Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana/ Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana/ E nas escolas as crianças aprendem a repetir música urbana" reafirma: desconfie das instituições, questione o que lhe foi ensinado, não creia nas respostas simplistas...
E vendo aquele documentário, eu me deparei com um pensamento: onde foi parar este inconformismo juvenil? Onde foi parar esta desconfiança sadia que fez com que gerações de jovens tivessem o ímpeto de rejeitar qualquer governo opressivo e ditador? Onde? E a resposta assustadora: morreu. Então, ontem, Dia de Finados, lamentei a morte de uma geração, sem forças para escrever uma elegia que a homenageasse com a poesia que ela merece.
Laerte e seu humor para nos levar à lucidez!
Sei que minhas palavras podem soar exageradas, mas esse é o meu sentimento, uma espécie de luto ao perceber uma onda neoconservadora que se levanta em nossa juventude e que ameaça afogar princípios democráticos que, em um passado recente, eram negados, e pelos quais pessoas lutaram e morreram. Ao ver pessoas, e principalmente, jovens pedindo um golpe militar - sim, um golpe, este é o nome exato quando há intervenção em um governo eleito democraticamente -, a minha perplexidade é enorme, mas não consigo simplesmente dizer que eles fazem isso porque não têm memória ou conhecimento histórico.
Como diria a canção de Renato Russo, "somos tão jovens", mas essa juventude, pela justificativa da pouca memória ou pouca maturidade, não justifica algumas posturas que me parecem indefensáveis. Não acho que estes jovens sejam inocentes, que eles não sabem o que significa uma ditadura, que eles não sabem sobre a censura, a corrupção, a tortura e a morte que pairaram sobre o Brasil no período militar. Em 1964, houve setores da sociedade civil que saíram às ruas em apoio aos militares - a elas sim, pode-se dar o benefício da dúvida: elas não sabiam, talvez, o que estava por vir. Elas não sabiam que seus filhos poderiam morrer por dizerem o que pensavam.
Mas hoje, 2014, 50 anos depois, sabemos. Todos sabemos. Vi em um vídeo na internet um jovem dizendo que "aconteceram coisas na ditadura militar, mas não é tudo isso que falam, as pessoas exageram". Percebam o inominado: "coisas"... Deem-se nome aos bois: ocorreram censuras, torturas, mortes - mas se parte desta nova (e da não tão nova) geração quer negar isso, não é por ingenuidade, é porque, no fundo, está de acordo com este sistema. Tenho a impressão que, há alguns anos, as pessoas tinham um certo pudor em declarar isso, o que me dava alguma esperança... Mas tenho percebido que as ideias perigosas de resolver os problemas da nação pela força e pela violência estão sendo veiculadas em alto e bom som, por um número assustador de pessoas.
Somos tão jovens, no exercício da democracia. E eu temo que nossas conquistas, ainda frágeis, se percam pela inadvertência dos que não as valorizam. Tomemos mais cuidado com aquilo que pedimos - há sempre a possibilidade de se conseguir. E se um dia alguém invadir nossas casas às 3 horas da manhã sem mandato judicial e um ente da nossa família ou nossos amigos começarem a desaparecer sem prisão ou julgamento notórios (coisa comum nos regimes de exceção), não sejamos hipócritas a ponto de dizer que não sabíamos.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Um sorriso de Brás Cubas
Saúdo a nova semana que chega, com alívio. A semana anterior
teve horas tão pesadas, com uma tensão tão densa que quase se podia tocá-la com
as mãos. Não era apenas a última semana antes do segundo turno das eleições,
mas uma semana cheia de afazeres que não terminavam nunca. Uma semana em que um
anjo safado, um chato de um querubim, predestinou que eu teria que trabalhar
com algumas pessoas estressadas. Bem poucas, na verdade, mas com o
impressionante poder de tirar a calma de todos ao seu redor. Ou quase. Porque,
no meio de tudo isso, eu estava lendo Machado de Assis.
Hein? Pode se perguntar um leitor incrédulo, pensando talvez
que haja algum autor de auto-ajuda com este nome. Não, trata-se dele mesmo, do
“grande Machado”, como diriam alguns, do Joaquim Maria, como eu diria, na minha
pretensão de intimidade com este autor que me proporcionou e proporciona tantas
horas de prazer e reflexão.
E não é que lá estava eu, enquanto as pessoas ao meu redor
se estressavam e mordiam a própria sombra por coisa pouca, com Dom Casmurro em minhas mãos? E pude
recorrer a passagens fascinantes desta obra que nunca se esgota. Sim, eu já li
este livro muitas vezes, E a cada vez que vou abordá-lo em uma aula, dou-me
novamente o deleite de revisitá-lo. E a cada vez, percebo coisas novas.
Pobre daqueles que pensam que só se trata de um livro sobre
adultério. Que pensam que sua grande questão é se Capitu traiu ou não
Bentinho... Isso é o que está na superfície, mas há outras coisas mais
profundas neste livro. Para mim, por exemplo, um dos seus temas mais
interessantes é a passagem do tempo. Ou a persistência da memória, essa coisa
difusa que também se molda ao sabor das paixões. Vejo o velho Bento Santiago a
contemplar Bentinho e sua amiga Capitu, a companheira da meninice, como contempla
os retratos da réplica da casa de Matacavalos. São imóveis, inertes, mortos.
Não adianta tentar atar as pontas da vida, elas estão para sempre separadas. Só
a memória, só a narrativa as une. O gesto da escritura é a única forma de lutar
contra o tempo inexorável.
As pérolas que reluzem nas páginas do livro sobre este tema
são várias, mas se encontram também em outros títulos do autor. Como esquecer
do delirante passeio de Brás Cubas, no dorso de um hipopótamo, a contemplar a
sucessão dos séculos – e concluir a repetição da tragicomédia humana por tantas
civilizações? E as reflexões do menos irônico e mais melancólico Conselheiro
Aires, em seus passeios pelas ruas do Rio, já no outono de sua vida (e da
carreira do autor)?
Então eu volto para aquele “quase” do final do primeiro
parágrafo. Diante dessas reflexões sobre o tempo, com as quais Machado de Assis
sempre contribuiu, acho que estou aprendendo a sorrir mais. Nesta semana, eu
me flagrei com um sorriso que um colega classificou como “de Monalisa”, mas eu
diria ser “um sorriso de Brás Cubas”, aquele sorriso de quando se compreende o
quanto a humanidade é lamentável e se resolve aceitar o fato. Diante daqueles
que se julgam tão importantes, que se estressam tanto (porque eles precisam
fazer tudo, afinal, ninguém o faria tão bem e perfeitamente), que perdem
completamente a gentileza para com os que estão ao redor, ou com aqueles que
pensam diferentemente, nada nos faz tão bem quanto um sorriso de Brás Cubas.
E pensar na inexorabilidade do tempo me acalma, porque me
faz enxergar a inutilidade de tanta preocupação, de tanto desgaste. Alguns
problemas são pequenos demais se pensarmos na dimensão do mundo e de sua
história. Afinal, daqui a pouco tempo, seremos apenas retratos na parede –
talvez nem isso, nessa era em que quase não se imprimem mais fotografias...
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
A menina, as armas e os livros
Um dia vi um brilho intenso nos olhos de um homem que a vida em muito endureceu. Logo o brilho se transformou em uma lágrima que escorreu pelo rosto do homem que raramente chorava. Este homem era meu pai. Ele discretamente enxugou essa lágrima antes que outros a vissem, antes que fotógrafos chegassem, junto com a minha irmã. Era o dia de sua formatura na Faculdade de Direito. Mais do que um diploma, era um dia histórico para nós: pela primeira vez na história da nossa família, uma pessoa teria um diploma de graduação. Mais do que isso: era a primeira mulher a conquistar esse lugar.
A lágrima era misto de orgulho, de alegria, mas também testemunhava os sofrimentos e as renúncias que certamente meus pais fizeram para que eu e minhas irmãs estudássemos nas melhores escolas. Mais tarde, naquele mesmo dia, meu pai disse uma frase que está gravada em minha mente: "Não me arrependo de nenhum dia, de nenhum centavo que investi em vocês". Embora a linguagem pareça tão mercadológica, isso significa "Eu amo vocês, minhas filhas" ou "Eu me orgulho de vocês, minhas filhas", na linguagem do homem que saiu de casa aos 17 anos com duas mudas de camisa e um sapato furado, trabalhou como jardineiro, pedreiro, metalúrgico, segurança e, enfim, montou um pequeno comércio. Do homem que, diante de uma pequena ascensão social, optou por mudar suas filhas de escola, ao invés de realizar seus sonhos de consumo. Do homem que muitas vezes prezou mais a contabilidade que o prazer, frustrou suas filhas adolescentes por não lhes dar algumas roupas, viagens e festas, mas que jamais se recusou a comprar um livro. E isto mudou a minha vida.
Venho de uma família machista (como tantas no Brasil) em que a educação das meninas não é a prioridade. Tenho uma prima cujo irmão fez curso pré-vestibular, ingressou na universidade, mas ela não teve o mesmo apoio da família. Para ela, não havia recursos para o pré-vestibular, nem para a mensalidade de uma faculdade privada, nem qualquer apoio para que ela saísse da cidadezinha em que morava para fazer uma universidade pública (afinal, há exemplos na família de mulheres que saíram da casa dos pais para estudar, trabalhar, e "se perderam"). Sim, queridos, século XXI, não estou relatando o que aconteceu com a minha bisavó, infelizmente! No fim de semana em que eu fazia o vestibular da UNICAMP, minha mãe teve que ouvir de um tio a seguinte pérola: "Pra que estudar tanto para limpar bunda de criança?". Ele riu, minha mãe, não. Ela, com toda a delicadeza que lhe é peculiar, disse: "Eu espero que minhas filhas limpem bunda de criança porque eu quero muito ser avó, mas elas não vão fazer só isso na vida".
São muitos os exemplos que se espalham para além da minha família, na qual também há exemplos notáveis de ruptura com este pensamento retrógrado e opressor, como meus pais, que criaram três meninas com livros nas mãos. Nesta semana, ao saber que o Prêmio Nobel da Paz havia sido entregue a Malala Yousafzai, fiquei muito feliz e emocionada. Para os que não sabem, Malala é uma adolescente de 17 anos que, com apenas 12 anos, começou a escrever sobre a situação das meninas no Paquistão, sob o regime talibã. O pai de Malala, dono de uma escola, contrariava o regime ao permitir que as meninas estudassem, e estimulava a militância da filha em favor da educação escolar feminina. Em 2012, aos 14 anos, houve uma tentativa de assassinato, na qual Malala levou um tiro no rosto e um no pescoço, ficou em coma por vários dias, mas, felizmente, sobreviveu e foi transferida para um hospital na Inglaterra. Recuperada, ela escreveu uma autobiografia e continua sua militância em favor da educação das meninas.
O exemplo de Malala me move e comove. Sempre pensei na sorte tão diversa que tantas mulheres da minha família tiveram por não terem acesso a uma educação que lhes ensinassem que elas tinham valor, que eram tão inteligentes quanto os homens e que o mundo também era grande para elas. Que não é a presença de um homem, uma aliança no dedo ou a ausência destes que definem o seu valor. Que lugar de mulher é onde ela escolhe estar. Que o que você lê, reflete e pensa é mais importante que o seu peso ou a cor do seu cabelo. E principalmente: que, independente do sexo, somos seres humanos dignos de respeito, e por isso jamais devemos aceitar sermos diminuídas, humilhadas, oprimidas ou agredidas de qualquer forma.
Sim, foi a minha educação escolar, foram os livros que chegaram às minhas mãos que me fizeram enxergar a mim mesma como esse ser humano digno de respeito. A literatura me formou como um ser mais sensível e humano, capaz também de respeitar mais os que estão ao meu redor. A literatura alimentou minha ojeriza à violência, à opressão e meu amor à liberdade, "essa palavra que o sonho alimenta/ que não há ninguém que explique/ e ninguém que não entenda", como disse a Cecília Meireles. E por isso, ainda acredito que o livro é a coisa mais subversiva que colocaram em minhas mãos. Esta é a razão pela qual os regimes ditatoriais temem que uma garota leia, que faça do livre pensamento e de suas palavras as suas armas, resistindo às armas de fogo e não se intimidando diante delas.
E Malala nem suspeita que temos isso em comum: que tivemos pais que acreditaram na importância da nossa educação, que acreditaram no nosso valor e na nossa inteligência.
Obrigada, pai! Obrigada, Malala!
A lágrima era misto de orgulho, de alegria, mas também testemunhava os sofrimentos e as renúncias que certamente meus pais fizeram para que eu e minhas irmãs estudássemos nas melhores escolas. Mais tarde, naquele mesmo dia, meu pai disse uma frase que está gravada em minha mente: "Não me arrependo de nenhum dia, de nenhum centavo que investi em vocês". Embora a linguagem pareça tão mercadológica, isso significa "Eu amo vocês, minhas filhas" ou "Eu me orgulho de vocês, minhas filhas", na linguagem do homem que saiu de casa aos 17 anos com duas mudas de camisa e um sapato furado, trabalhou como jardineiro, pedreiro, metalúrgico, segurança e, enfim, montou um pequeno comércio. Do homem que, diante de uma pequena ascensão social, optou por mudar suas filhas de escola, ao invés de realizar seus sonhos de consumo. Do homem que muitas vezes prezou mais a contabilidade que o prazer, frustrou suas filhas adolescentes por não lhes dar algumas roupas, viagens e festas, mas que jamais se recusou a comprar um livro. E isto mudou a minha vida.
Venho de uma família machista (como tantas no Brasil) em que a educação das meninas não é a prioridade. Tenho uma prima cujo irmão fez curso pré-vestibular, ingressou na universidade, mas ela não teve o mesmo apoio da família. Para ela, não havia recursos para o pré-vestibular, nem para a mensalidade de uma faculdade privada, nem qualquer apoio para que ela saísse da cidadezinha em que morava para fazer uma universidade pública (afinal, há exemplos na família de mulheres que saíram da casa dos pais para estudar, trabalhar, e "se perderam"). Sim, queridos, século XXI, não estou relatando o que aconteceu com a minha bisavó, infelizmente! No fim de semana em que eu fazia o vestibular da UNICAMP, minha mãe teve que ouvir de um tio a seguinte pérola: "Pra que estudar tanto para limpar bunda de criança?". Ele riu, minha mãe, não. Ela, com toda a delicadeza que lhe é peculiar, disse: "Eu espero que minhas filhas limpem bunda de criança porque eu quero muito ser avó, mas elas não vão fazer só isso na vida".
São muitos os exemplos que se espalham para além da minha família, na qual também há exemplos notáveis de ruptura com este pensamento retrógrado e opressor, como meus pais, que criaram três meninas com livros nas mãos. Nesta semana, ao saber que o Prêmio Nobel da Paz havia sido entregue a Malala Yousafzai, fiquei muito feliz e emocionada. Para os que não sabem, Malala é uma adolescente de 17 anos que, com apenas 12 anos, começou a escrever sobre a situação das meninas no Paquistão, sob o regime talibã. O pai de Malala, dono de uma escola, contrariava o regime ao permitir que as meninas estudassem, e estimulava a militância da filha em favor da educação escolar feminina. Em 2012, aos 14 anos, houve uma tentativa de assassinato, na qual Malala levou um tiro no rosto e um no pescoço, ficou em coma por vários dias, mas, felizmente, sobreviveu e foi transferida para um hospital na Inglaterra. Recuperada, ela escreveu uma autobiografia e continua sua militância em favor da educação das meninas.
Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz em 2014
Sim, foi a minha educação escolar, foram os livros que chegaram às minhas mãos que me fizeram enxergar a mim mesma como esse ser humano digno de respeito. A literatura me formou como um ser mais sensível e humano, capaz também de respeitar mais os que estão ao meu redor. A literatura alimentou minha ojeriza à violência, à opressão e meu amor à liberdade, "essa palavra que o sonho alimenta/ que não há ninguém que explique/ e ninguém que não entenda", como disse a Cecília Meireles. E por isso, ainda acredito que o livro é a coisa mais subversiva que colocaram em minhas mãos. Esta é a razão pela qual os regimes ditatoriais temem que uma garota leia, que faça do livre pensamento e de suas palavras as suas armas, resistindo às armas de fogo e não se intimidando diante delas.
E Malala nem suspeita que temos isso em comum: que tivemos pais que acreditaram na importância da nossa educação, que acreditaram no nosso valor e na nossa inteligência.
Obrigada, pai! Obrigada, Malala!
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Posso, sem armas, revoltar-me?
Começo a segunda - e a semana - lendo Carlos Drummond de Andrade. Por que o verso é minha cachaça, como eu já disse em outro post. Ontem, durante as apurações das eleições eu estava, literalmente, bebendo cachaça. Agora, segunda de manhã, pega mal. Temos que manter a sobriedade, embora nos pareça que todos se embriagam, tamanha incoerência entre o que se diz e o que se faz.
Não, não vou falar exatamente dos resultados das urnas. Na conversa que travo com Carlos, mais uma vez - já conversamos tanto que o trato pelo primeiro nome - ele me fala sobre a "ração diária de erro, distribuído em casa", pelos ferozes "padeiros e leiteiros do mal", e isso já na década de 40. Toma-me a sensação de que realmente a humanidade anda em círculos.
Mas discuto com Carlos: quem são estes "padeiros e leiteiros do mal"? Ah, a minha insolência em discutir com os poetas que já têm seu capítulo no livro didático de literatura e até caem no vestibular... Mas foi você um dos que me ensinou a ser insolente, Carlos, aguente agora. Mas Carlos só me responde que "o tempo não chegou de completa justiça", que "o tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse".
E que impasse! Como eu disse antes, não é o resultado das urnas. É tudo o que vem antes dele, e tudo que o motiva. Começo pelo mais grave: a profunda lacuna educacional que impede que as pessoas compreendam o que é a política. E a profunda (e cômoda) falta de consciência que leva a maioria a sempre colocar a culpa de tudo "nos políticos", esses seres que vieram de Marte, talvez, já que ninguém se identifica abertamente com eles.
A coisa mais desoladora é ver essa contradição. Pessoas que falam em mudanças, mas nem conseguem enxergar as mudanças que estão em curso, nem compreender que elas ocorrem em um processo (e não por um passe de mágica) que envolve toda uma sociedade com velhos e lamentáveis hábitos. Pessoas que reclamam do estado em que as coisas estão, falam da necessidade de uma "nova política" mas mantêm um governo estadual que está no poder há décadas, tempo que lhe foi suficiente para consolidar a falência da escola pública e a total desvalorização do professor, entre outras provas de incompetência e descaso. Pessoas que reclamam da impunidade, mas quando se dirigiam ao seu local de votação com seu carro, fizeram questão de estacionar em local proibido e dificultar absurdamente o trânsito; ou que, sem documento com foto, faziam aquele escândalo em sua seção quando o mesário dizia que sem este documento ele não poderia votar. Claro: onde estão os meus direitos? Deveres, hein, o que é isso?
Carlos me responde que "é tempo de partidos, tempo de homens partidos", mas isso ficou no passado, querido poeta. Hoje as pessoas se revoltam contra os partidos, dizem que não acreditam na política partidária, que "político bom é político morto" (pasmem, ouvi isto ontem, literalmente!), que se não fosse obrigatório não votariam. Ah, eu preciso parar de fazer análise do discurso nos almoços familiares, pois está ficando cada vez mais difícil engolir. Enfim, vos pergunto, concidadãos: vocês realmente acham que em um período da história em que não existiam nem eleições, nem partidos, estávamos melhores? Quando reis governavam hereditariamente por direito divino estávamos melhores? Por favor, me instruam: citem um sistema de governo melhor, proponham-no publicamente, não guardem a sabedoria apenas para vocês.
Ironias à parte, estou um pouco cansada da lamentação inócua, que só faz eco e cai no mais absoluto conformismo. Eu não penso que nosso sistema político e partidário seja ótimo. Mas faço questão de votar. Pessoas morreram para que eu tivesse esse direito. E se eu não estou satisfeita com os partidos, seus líderes e seus eleitos, posso dizer isso abertamente neste blog, ou propor a fundação de um novo partido, ou eu mesma me candidatar por um deles. Pessoas também morreram para que eu tivesse esses direitos.
"Por fogo em tudo, inclusive em mim" não é uma boa opção, Carlos. Sim, sei que às vezes somos tentados a isso. Eu também já sonhei "dinamitar a ilha de Manhattan", inclusive, já o fizeram, mas creio que isso não resultou em nada positivo. Sei que você sorrirá, talvez me chamará ingênua, querido poeta, mas eu acredito que o mundo é resultado das nossas escolhas, ou da nossa omissão. Então, se não estamos felizes com as opções que temos nas urnas, isso é sim resultado das nossas escolhas e omissões. Acabo de ver um vídeo do Porta dos Fundos sobre isso. Ele expressa a insatisfação do povo brasileiro com a "falta de opções" em relação aos políticos. Mas não questiona minimamente o que fazer diante disso. Que pena que o problema não seja na urna, mas naquela pecinha que fica bem em frente e aperta os botões! Para quem quiser ver o vídeo, acesse:
https://www.youtube.com/watch?v=e8h7D97w5Bo
O povo brasileiro quer continuar pensando que aquela lista de candidatos não nos representa. Não creio que apenas por ingenuidade, mas também por comodismo. Sim, aquela lista de candidatos colada nas paredes das zonas eleitorais pelo Brasil afora representa a nossa sociedade. Se eles não têm noções suficientes sobre a gestão pública, se são corruptos e desonestos, se só querem se eleger para "mamar nas tetas do governo", eles aprenderam esses valores na sociedade brasileira que os formou. E se eles foram eleitos, é porque alguém se identificou com eles e com seus discursos, não é?
"Preso à minha classe e a algumas roupas", angustio-me, Carlos. Vejo essa falta de auto-responsabilização e essa desqualificação da política institucional como algo muito perigoso. Afinal, com a justificativa da corrupção e do caos que reinavam no país, já instauraram ditaduras antes. Será que ninguém percebe que delegar o trabalho de "salvar a pátria" para alguém pode parecer mais cômodo, mas o resultado poder ser hediondo? Será que Hitler e outros tantos ditadores já não nos mostraram essa lição?
"Em vão tento me explicar, os muros são surdos", Carlos. Ao menos tenho você para conversar. Mas não me contento, preciso falar para mais pessoas, pois "meu coração não é maior que o mundo, é muito menor, nele não cabem nem as minhas dores". Preciso escrever.
Mas, às vezes, me questiono: "devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me?" Hei de ver uma flor "furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".
Enquanto a flor não nasce, resta-nos suportar a náusea.
Não, não vou falar exatamente dos resultados das urnas. Na conversa que travo com Carlos, mais uma vez - já conversamos tanto que o trato pelo primeiro nome - ele me fala sobre a "ração diária de erro, distribuído em casa", pelos ferozes "padeiros e leiteiros do mal", e isso já na década de 40. Toma-me a sensação de que realmente a humanidade anda em círculos.
Mas discuto com Carlos: quem são estes "padeiros e leiteiros do mal"? Ah, a minha insolência em discutir com os poetas que já têm seu capítulo no livro didático de literatura e até caem no vestibular... Mas foi você um dos que me ensinou a ser insolente, Carlos, aguente agora. Mas Carlos só me responde que "o tempo não chegou de completa justiça", que "o tempo pobre, o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse".
E que impasse! Como eu disse antes, não é o resultado das urnas. É tudo o que vem antes dele, e tudo que o motiva. Começo pelo mais grave: a profunda lacuna educacional que impede que as pessoas compreendam o que é a política. E a profunda (e cômoda) falta de consciência que leva a maioria a sempre colocar a culpa de tudo "nos políticos", esses seres que vieram de Marte, talvez, já que ninguém se identifica abertamente com eles.
A coisa mais desoladora é ver essa contradição. Pessoas que falam em mudanças, mas nem conseguem enxergar as mudanças que estão em curso, nem compreender que elas ocorrem em um processo (e não por um passe de mágica) que envolve toda uma sociedade com velhos e lamentáveis hábitos. Pessoas que reclamam do estado em que as coisas estão, falam da necessidade de uma "nova política" mas mantêm um governo estadual que está no poder há décadas, tempo que lhe foi suficiente para consolidar a falência da escola pública e a total desvalorização do professor, entre outras provas de incompetência e descaso. Pessoas que reclamam da impunidade, mas quando se dirigiam ao seu local de votação com seu carro, fizeram questão de estacionar em local proibido e dificultar absurdamente o trânsito; ou que, sem documento com foto, faziam aquele escândalo em sua seção quando o mesário dizia que sem este documento ele não poderia votar. Claro: onde estão os meus direitos? Deveres, hein, o que é isso?
Carlos me responde que "é tempo de partidos, tempo de homens partidos", mas isso ficou no passado, querido poeta. Hoje as pessoas se revoltam contra os partidos, dizem que não acreditam na política partidária, que "político bom é político morto" (pasmem, ouvi isto ontem, literalmente!), que se não fosse obrigatório não votariam. Ah, eu preciso parar de fazer análise do discurso nos almoços familiares, pois está ficando cada vez mais difícil engolir. Enfim, vos pergunto, concidadãos: vocês realmente acham que em um período da história em que não existiam nem eleições, nem partidos, estávamos melhores? Quando reis governavam hereditariamente por direito divino estávamos melhores? Por favor, me instruam: citem um sistema de governo melhor, proponham-no publicamente, não guardem a sabedoria apenas para vocês.
Ironias à parte, estou um pouco cansada da lamentação inócua, que só faz eco e cai no mais absoluto conformismo. Eu não penso que nosso sistema político e partidário seja ótimo. Mas faço questão de votar. Pessoas morreram para que eu tivesse esse direito. E se eu não estou satisfeita com os partidos, seus líderes e seus eleitos, posso dizer isso abertamente neste blog, ou propor a fundação de um novo partido, ou eu mesma me candidatar por um deles. Pessoas também morreram para que eu tivesse esses direitos.
"Por fogo em tudo, inclusive em mim" não é uma boa opção, Carlos. Sim, sei que às vezes somos tentados a isso. Eu também já sonhei "dinamitar a ilha de Manhattan", inclusive, já o fizeram, mas creio que isso não resultou em nada positivo. Sei que você sorrirá, talvez me chamará ingênua, querido poeta, mas eu acredito que o mundo é resultado das nossas escolhas, ou da nossa omissão. Então, se não estamos felizes com as opções que temos nas urnas, isso é sim resultado das nossas escolhas e omissões. Acabo de ver um vídeo do Porta dos Fundos sobre isso. Ele expressa a insatisfação do povo brasileiro com a "falta de opções" em relação aos políticos. Mas não questiona minimamente o que fazer diante disso. Que pena que o problema não seja na urna, mas naquela pecinha que fica bem em frente e aperta os botões! Para quem quiser ver o vídeo, acesse:
https://www.youtube.com/watch?v=e8h7D97w5Bo
O povo brasileiro quer continuar pensando que aquela lista de candidatos não nos representa. Não creio que apenas por ingenuidade, mas também por comodismo. Sim, aquela lista de candidatos colada nas paredes das zonas eleitorais pelo Brasil afora representa a nossa sociedade. Se eles não têm noções suficientes sobre a gestão pública, se são corruptos e desonestos, se só querem se eleger para "mamar nas tetas do governo", eles aprenderam esses valores na sociedade brasileira que os formou. E se eles foram eleitos, é porque alguém se identificou com eles e com seus discursos, não é?
"Preso à minha classe e a algumas roupas", angustio-me, Carlos. Vejo essa falta de auto-responsabilização e essa desqualificação da política institucional como algo muito perigoso. Afinal, com a justificativa da corrupção e do caos que reinavam no país, já instauraram ditaduras antes. Será que ninguém percebe que delegar o trabalho de "salvar a pátria" para alguém pode parecer mais cômodo, mas o resultado poder ser hediondo? Será que Hitler e outros tantos ditadores já não nos mostraram essa lição?
"Em vão tento me explicar, os muros são surdos", Carlos. Ao menos tenho você para conversar. Mas não me contento, preciso falar para mais pessoas, pois "meu coração não é maior que o mundo, é muito menor, nele não cabem nem as minhas dores". Preciso escrever.
Mas, às vezes, me questiono: "devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me?" Hei de ver uma flor "furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".
Enquanto a flor não nasce, resta-nos suportar a náusea.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
O vírus do amor dentro da gente
Inspirada ao ler um texto do poeta Jeová Santana sobre Gabriel Garcia Marques, resolvi publicar aqui no blog uma resenha que escrevi há alguns anos sobre uma de suas obras, diga-se de passagem, a minha preferida, "O amor nos tempos do cólera", e sua adaptação cinematográfica. Não esperem os leitores uma crítica acadêmica ou um olhar técnico sobre o filme - eu reconheço a minha insignificância nesta área, eu não sou cinéfila, tratam-se apenas das minhas impressões pessoais sobre o filme.
O vírus do amor dentro da gente
Durante
uma viagem, há alguns anos, me hospedei numa pousada em que havia uma
biblioteca. Foi lá que, pela primeira vez, abri um volume de O amor nos tempos do cólera. Ao
contrário do que esperam os leitores, não vou dizer que fiquei o restante da
viagem com o livro entre as mãos, esquecida da paisagem e das pessoas que me
cercavam. Desse primeiro contato com o livro, ficou uma viva impressão do seu
primeiro parágrafo, que li sucessivas vezes. Em especial, a primeira frase:
“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino
dos amores contrariados”. Belíssima, sonora. Digna de ser lida e relida.
A primeira frase já prenuncia a
grandeza do livro e seu tema, nada inovador e sempre inesgotável: os amores
contrariados. Nas cerca de 400 páginas do romance, se desenrola a história de
Florentino Ariza, um telegrafista que, ao fazer a entrega de um telegrama na
casa de Lorenzo Daza, visualiza por uma janela a filha do comerciante, Fermina
Daza. A rápida visão foi suficiente para inocular um amor incurável, que
resistirá por décadas e transporá todos os obstáculos com paciência.
A epidemia do cólera se faz presente no enredo e
indica o estado sanitário da Colômbia – e de toda a América Latina – na passagem
do século XIX para o XX). Mas a principal doença de Florentino Ariza é o amor.
Por mais lugar comum que essa frase possa parecer, não podemos dizer o mesmo da
história de Florentino Ariza. O personagem do livro é um romântico, na sua
concepção e vivência do amor, nas maneiras de vestir e no modo de escrever
cartas. E o amor realmente lhe causa náuseas, dores, febres e suores, como uma
doença. Trânsito Ariza, a mãe que o concebera num caso de amor adúltero, e que
o criara, portanto, sem o pai, já casado, achava glorioso sofrer por amor. E
incentiva, a princípio, a overdose sentimental pela qual envereda Florentino,
numa longa correspondência amorosa com a jovem estudante Fermina Daza.
Um dos aspectos mais interessantes da obra,
portanto, é a construção do sentimento entre Fermina Daza e Florentino Ariza à
distância e, sobretudo, através da palavra. A valsa composta por Florentino
para a sua “deusa coroada” – tocada à distância, mas num local estratégico para
que o vento leve a melodia à sacada de sua amada – é uma imagem poderosa dessa
distância. E os códigos da paixão e da entrega amorosa (aparições fortuitas,
olhares, flores secas, cachos de cabelo) alimentam uma espera que se compraz
não apenas na perspectiva de realização amorosa, mas que se delicia em si
mesma. Florentino coloca a trança
colegial de Fermina Daza na parede, como um troféu ou uma insígnia religiosa,
longamente contemplada e adorada.
Fermina
Daza se apaixona pelas palavras de Florentino Ariza, pelo enredo de um amor
proibido (que ganha ares épicos na viagem que faz, forçada pelo pai, à sua
terra natal, para que ela cortasse relações com o telegrafista) e não pelo
moço, em si. Tanto
que, ao vê-lo a sua frente, real, palpável, tem a consciência súbita de que não
o ama. Percebe o que verbaliza páginas e páginas depois: trata-se de uma sombra
e não de um homem. O maravilhamento de Florentino diante da beleza de sua amada
contrasta com a confusão, o constrangimento e até mesmo a repugnância que ela
sente naquele momento em que os dois se encontram no mercado, depois da volta
de Fermina daquela longa viagem, quase um rito de passagem que sinaliza sua
mudança de menina para mulher.
A construção do amor pela palavra, portanto, é um
aspecto essencial do livro. Aspecto esse que se perde, em grande parte, na
adaptação do romance por Mark Newell. O filme, lançado em dezembro do ano
passado, transpõe para a tela os principais acontecimentos do enredo, de forma
coerente, mas não consegue transmitir os aspectos mais sensíveis e
significativos da obra.
Garcia Márquez relutou muito em vender os direitos
autorais de sua obra para o cinema hollywoodiano, e só o fez com a promessa de
que o filme seria fiel ao romance. Não podemos dizer que não o seja. Não há, no
roteiro de Ronald Harwood, cena ou episódio que não constem no livro. Porém, a
velocidade de encaminhamento do enredo, no filme (em frente à longa e
significativa espera amorosa que prevalece no romance), o torna uma história
bastante diferente. Quem assiste ao filme não consegue, de fato, perceber a
sensibilidade do livro. Os diversos símbolos da construção do amor entre os
protagonistas, citados acima, e o erotismo afetuoso do livro não são
aproveitados na adaptação cinematográfica.
Obviamente, qualquer adaptação cinematográfica de
uma obra literária requer recortes, encaixes, e um encadeamento cênico que
modificam a “velocidade” da apresentação da narrativa. Mas, no caso desse
filme, em específico, isso se torna mais problemático, uma vez que a passagem
do tempo é um dos temas da obra. Além disso, um outro aspecto que prejudica a
abordagem do tema da passagem do tempo é o fato de que a atriz Giovanna Mezzogiorno interpreta Fermina Daza na
juventude, quando adulta e idosa; já para o papel de Florentino Ariza, há dois
atores: , que o interpreta na juventude e Javier Barden, que o interpreta na
fase adulta e na velhice. Nesse sentido, o envelhecimento dos dois personagens
não parece ocorrer de forma simétrica, causando um certo estranhamento. A
interpretação dos protagonistas merece elogios, em especial a de Javier Barden,
que aparece, em muitas cenas, um tanto curvado, com olhares desculposos – quase
um gauche na vida, como diria
Drummond.
O filme possui uma boa caracterização de época e
ótima fotografia de Affonso Beato. Mas incomoda aos nossos ouvidos
latino-americanos ouvir o filme num inglês com sotaque latino, quando
esperávamos assistir um filme em espanhol (principalmente considerando a origem
latino-americana do romance, da trilha sonora, composta pela conterrânea de
Márquez, Shakira, e de boa parte do elenco).
Enfim, o filme decepciona quem espera ver Garcia
Márquez nas telas. O livro, sem dúvida, é uma obra prima da literatura
latino-americana, mas o filme não se enquadra na classificação de obra prima do
cinema.
Ficha Técnica
O Amor nos Tempos do Cólera
Love in the Times of Cholera
EUA, 2007 - 138 min
Romance
Romance
Direção: Mike Newell
Roteiro: Ronald Harwood, baseado no
livro de Gabriel García Márquez
Elenco: Javier Bardem, Giovanna
Mezzogiorno, John Leguizamo, Benjamin Bratt, Catalina Sandino Moreno, Liev
Schreiber, Fernanda Montenegro
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